
Aos 18 anos, Ivan Lins viu um pianista tocando bossa nova na televisão e decidiu que seguiria o mesmo caminho. Passou noites na Tijuca aprendendo a tocar o instrumento de ouvido, de forma autodidata, e iniciou a trajetória artística em 1968, em festivais universitários Brasil afora.
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Todo o percurso desde então é resgatado em seu novo show, no sábado (11), no Qualistage, em que também celebra as oito décadas de vida recém-completadas. No palco, ele promete uma viagem por hits como Madalena, que estourou na voz de Elis Regina (1945-1982), e Lembra de Mim, tema de abertura da novela História de Amor (1995). Sucessos não faltam em seus mais de cinquenta discos e 800 composições, que renderam cinco prêmios do Grammy Latino e uma homenagem na categoria excelência musical no ano passado.
Com uma obra que cruzou fronteiras e ganhou as vozes de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Barbra Streisand, o cantor conversou com VEJA RIO sobre o que ainda move suas criações e adiantou detalhes do próximo trabalho, Sambadouro, previsto para maio e que contará com bambas como Diogo Nogueira, Xande de Pilares, Zeca Pagodinho e Péricles.
Conseguiu colocar tudo que queria nesse novo espetáculo? Reuni toda a gama de ritmos e influências, como folclore, música urbana, estrangeira, e tudo o que me formou nestes 55 anos de carreira. É como contar a história da minha vida através das canções, ao lado de uma banda maravilhosa. Estar no palco é onde mais sinto prazer.
Em Sambadouro, as parcerias nascem de afinidades ou da vontade de trilhar novos caminhos? Sou da Tijuca e quem é da Zona Norte tem um cordão umbilical poderoso com o samba. Acabei me tornando um artista moderno, com a música baseada na bossa nova, no jazz e no pop, então meus sambas sempre foram gravados com uma harmonia mais sofisticada. Sonhava em escutá-los de uma forma tradicional, como se eu morasse em Vila Isabel e Martinho fosse meu vizinho. Entramos em contato com a fina flor do samba, que gravou todas as bases, e vim só com a voz, como um verdadeiro puxador.
O Brasil de hoje ainda inspira o mesmo tipo de composição que nos anos 1970 e 1980? Sim, mas de uma maneira diferente. Naquela época, fazíamos resistência contra a ditadura. Agora, é sobre a direita, segmento medíocre e antiético do nosso Congresso. A arte tem essa função de refletir a sociedade na qual é produzida, mesmo nas entrelinhas. Somos repórteres do nosso tempo. Por isso, sigo cantando o que considero necessário, para manter a chama acesa em meio a um mundo tão conturbado. Eu amo profundamente o meu país, e quem ama se indigna.
O que mudou da sua geração para as mais novas? Éramos muito intelectualizados e isso atravessava as relações. Se não fosse essa consciência, talvez tivéssemos mais tempo para nos perder nos mistérios do amor (risos). Havia uma resposta quase imediata ao que a gente provocava com a arte. Driblamos a censura, passamos a nossa mensagem e conseguimos mudar o Brasil. Hoje, há um ataque muito mais agressivo e direto ao setor, com tentativas claras de desmontar políticas culturais, e a discussão está pulverizada pela superficialidade da internet. Enquanto a educação não for a prioridade máxima de um governo, não vai existir uma geração tão criativa e poderosa quanto a minha.
Em tempos de streaming, o que se perde na forma como o público consome música? Esse não é o problema. É ótimo que o acesso seja tão democrático. O que me incomoda é a falta de respeito das plataformas com quem cria. Elas usam a arte para atrair as pessoas e estão enriquecendo, mas deixam compositores e intérpretes no fim da fila, muito mal remunerados. Sem falar nos algoritmos, que alimentam uma espécie de lavagem cerebral e contribuem fortemente para o aumento da intolerância no mundo.
Neste cenário em que a música muitas vezes nasce no computador, o piano ainda é capaz de formar compositores? O piano ó e a música em si ó ainda encontra quem se aproxime de forma mais profunda, seja pela educação, pelo ambiente familiar ou de forma mais intuitiva. O problema é que a tecnologia também deu ferramentas a muita gente sem formação ou domínio real da linguagem, e isso se agravou com a inteligência artificial. Ao mesmo tempo em que o artesanal ganha valor, também se abre muito espaço para o medíocre e para produções feitas sem base, mas amplificadas pelas lógicas comerciais da internet, do rádio e da TV.
Por que acredita haver uma nostalgia em torno da MPB clássica? Justamente porque o excesso de tecnologia cansa. As pessoas estão cada vez mais frias e individualistas, a comunicação falada já diminuiu muito. Todo mundo está sentindo falta de emoção, por isso esse resgate está acontecendo: eram criações feitas com o coração. A necessidade de ouvir música humana nunca vai desaparecer.
O reconhecimento internacional mudou sua forma de se enxergar como artista? Eu me senti ainda mais orgulhoso de ser brasileiro. No início, era muito inseguro, não sabia se ia agradar as pessoas. Quando percebi que estava fazendo um trabalho de qualidade, foi uma grande virada. Minha autoestima melhorou bastante.
Os 80 anos mudam a maneira de ver a vida? Tenho muito passado e pouco futuro, por isso, tenho que vivê-lo da melhor maneira possível. Consegui me livrar de vários sentimentos e descartei pessoas que não me faziam mais sentido. Minha paciência é muito mais limitada.
