População afunda em dívidas enquanto governo favorece os interesses da elite econômica

Após quase dois anos do encerramento do programa “Desenrola”, o Brasil enfrenta um aumento alarmante no número de inadimplentes. Dados recentes da Serasa indicam que, desde a finalização do programa, cerca de 9 milhões de novos devedores surgiram, totalizando aproximadamente 81,7 milhões de pessoas com contas atrasadas. Esse é o nível mais elevado em mais de dez anos.

Lançado em 2023 como parte das promessas de campanha do governo do PT, o programa “Desenrola” tinha como objetivo principal combater o superendividamento das famílias brasileiras. Durante cerca de dez meses, conseguiu viabilizar a renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas, beneficiando aproximadamente 15 milhões de cidadãos. Contudo, os efeitos desse programa revelaram-se limitados e temporários, já que ao seu término em maio de 2024, o número total de devedores começou a aumentar novamente, demonstrando que a iniciativa não abordou as causas subjacentes do problema.

A opinião de que o programa apenas tratou os sintomas imediatos da inadimplência é compartilhada por especialistas da área. A economista Ione Amorim, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), critica a abordagem adotada pelo governo. “Foi uma medida paliativa que não rompeu com o ciclo que favorece o endividamento”, afirma ela. Segundo Ione, embora muitos consumidores tenham conseguido limpar seus nomes temporariamente, logo retomaram a senda da dívida.

Com a perda dos efeitos momentâneos do programa, a inadimplência voltou a crescer rapidamente. Esse crescimento é impulsionado por diversos fatores, incluindo taxas de juros elevadas, aumento na oferta de crédito — especialmente via plataformas digitais — e maiores gastos com serviços financeiros e apostas online. Atualmente, a taxa de inadimplência nas contas de crédito das pessoas físicas atinge 5,24%, o maior índice registrado nos últimos 14 anos.

A elevação das taxas de juros desempenha um papel crucial nesse contexto. Desde o fim do “Desenrola”, a taxa Selic saltou de 10,50% para impressionantes 15% ao ano até o primeiro trimestre de 2026. Essa realidade torna o crédito mais caro e aumenta os custos das dívidas existentes. Como resultado, as famílias estão vendo uma parte cada vez maior da sua renda comprometida para saldar obrigações financeiras.

Para entender melhor essa situação crítica das dívidas, é importante observar sua composição: cerca de 85% das famílias endividadas identificam o cartão de crédito como sua principal fonte de dívida. Essa modalidade pode ter juros que ultrapassam os 400% ao ano no crédito rotativo. Além disso, dívidas relacionadas a contas básicas como água e energia e empréstimos com financeiras também agravam a situação financeira dessas famílias.

Esse panorama revela um ciclo vicioso onde o acesso facilitado ao crédito — frequentemente vendido como “inclusão financeira” — se combina com altas taxas para resultar em um contínuo estado de endividamento. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) observa que “esse processo onde o aumento das dívidas alimenta os altos juros dificulta ainda mais a quitação dos débitos e perpetua o problema”.

Enquanto isso, grandes instituições financeiras continuam obtendo lucros recordes no país mesmo diante das chamadas “crises”. Os quatro maiores bancos brasileiros – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander – reportaram um lucro líquido conjunto superior a R$ 107,8 bilhões em 2025, conforme levantamento da Feebbase. Uma parcela significativa desse resultado está associada à expansão das carteiras de crédito e às margens sobre operações com consumidores, principalmente nas modalidades mais onerosas como cartão de crédito e crédito pessoal.

A coexistência entre o alto nível de endividamento da população e os lucros astronômicos dos bancos não é mera coincidência. O modelo atual de concessão de crédito se baseia exatamente na combinação entre uma ampla oferta de empréstimos e taxas exorbitantes, permitindo aos bancos aumentar seus lucros mesmo em um cenário marcado pelo crescimento da inadimplência.

Diante desse contexto desafiador, o governo federal já discute a implementação de um novo plano demagógico voltado à “renegociação das dívidas”, com propostas que incluem “abatimentos de até 80%” nos débitos remanescentes e condições mais favoráveis para financiamento do restante. Contudo, especialistas como Lauro Gonzalez (FGV) alertam que repetir medidas focadas exclusivamente na renegociação poderá resultar nos mesmos limites observados no Desenrola sem resolver as questões estruturais que levam ao superendividamento. “Não parece haver uma preocupação real com as causas profundas desse problema”, declarou ele à imprensa.

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