
Às vésperas de completar 40 anos, uma mulher decide se libertar das normas que a condicionaram a buscar aceitação — e, com essa decisão, inicia uma transformação que é tanto pessoal quanto social. Durante essa jornada, ela encontra duas mulheres que expõem as feridas de uma geração que se sente perdida nas mudanças do mundo: uma idosa de 90 anos, que dedicou sua vida à luta pelos direitos civis, e uma jovem que não necessita mais pedir autorização para existir.
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A obra da autora britânica Amanda Wilkin rapidamente ressoou com Taís Araujo, que traz o texto para os palcos no espetáculo Mudando de Pele, com estreia marcada para quinta-feira (23), no Sesc Ginástico. Essa produção representa seu retorno aos palcos após um intervalo de cinco anos. Se em O Topo da Montanha ela dividia o palco com seu marido, Lázaro Ramos, agora se apresenta em um monólogo — ou como ela mesma o descreve, um “solo coletivo”, ao lado das musicistas Dani Nega e Layla.
Dirigida por Yara de Novaes, que também a orientou na interpretação de Raquel no remake de Vale Tudo, Taís Araujo agrega esta peça a uma carreira repleta de mais de trinta trabalhos entre novelas, minisséries e longas-metragens. Em conversa com a VEJA RIO, a atriz expressa seu entusiasmo em abordar a questão da negritude sob a perspectiva da subjetividade e não apenas da dor, refletindo sobre os avanços dessas discussões no Brasil.
Como você está se sentindo em relação ao monólogo?Acho mais apropriado denominá-lo de “solo coletivo”, pois estou acompanhada por duas musicistas e muitas pessoas estão envolvidas na realização deste projeto. Estou muito contente por retornar ao teatro; já desejava isso há algum tempo. Meu plano inicial era voltar com O Topo da Montanha, mas foi inviável conciliar nossas agendas.
O que te cativou nesse texto?Foi o segundo que li durante minha pesquisa e me apaixonei imediatamente. Ele se alinha à proposta que venho desenvolvendo: falar sobre a questão negra sem deixar que a dor seja o foco central. As narrativas de sofrimento já foram amplamente exploradas e nós não somos definidos apenas por isso. Como diz Emicida na música AmarElo: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”.
Você já teve que se reinventar como a personagem faz?Sinto que estou sempre passando por isso em minha carreira. O retorno ao teatro não é coincidência — sempre busco renovação nesse espaço quando sinto essa necessidade. Faço bastante televisão, onde o formato é mais comercial e acessível. No palco, tenho a oportunidade de experimentar outras linguagens e explorar um lado mais autoral.
No enredo, o encontro com uma mulher de 90 anos é transformador. Você teve alguém como Mildred na sua vida?Sempre mantive amizades com pessoas mais velhas, como Aracy Balabanian e Arlete Salles. Mas quando falo sobre negritude, os livros foram meus verdadeiros salva-vidas. Autoras como Maya Angelou, Toni Morrison, Bell Hooks e Sueli Carneiro foram fundamentais nessa jornada.
A protagonista precisou se moldar tanto que acabou perdendo sua essência. Acredita que isso reflete uma crise enfrentada pelas mulheres atualmente?Acredito que sim, mas essa não é uma problemática exclusiva do universo feminino. Trata-se de uma questão geracional. As máscaras sociais adquiriram um peso enorme para nossa sobrevivência. O interessante da peça é que não oferece respostas definitivas — afinal, viver é um processo contínuo. Ela provoca questionamentos essenciais que todos deveríamos nos fazer.
A sua idade ultrapassa a da personagem. O que a maturidade te ensinou?Tento não me deixar levar pelas circunstâncias. Coloco limites e não me comprometo para agradar os outros. Aprendi que tudo pode ser dito — inclusive um ‘não’. É importante ter consciência ao comunicar isso. As insatisfações devem ser expressas — e precisam ser.
Como pertencendo sem perder sua identidade?No Brasil, vivemos imersos em preconceitos. Encontrar pertencimento em um ambiente assim exige profunda reflexão — se você precisa pensar demais sobre isso, já não está agindo completamente como realmente é. Para sobreviver neste país, as pessoas negras precisam ser estratégicas desde cedo. Aprendemos isso desde o momento em que começamos a andar nas ruas. A população negra continua viva hoje porque desenvolveu maneiras de se proteger desse plano eugenista tentado contra nós.
Acha que houve progresso nas discussões sobre racismo?A evolução tem sido intermitente; avançamos e retrocedemos sem nunca retornarmos ao ponto inicial. Isso é mérito nosso — não permitimos regredir nesse debate. Nos últimos dez anos, muita coisa mudou; ao ligarmos a TV hoje parece até outro país. A representação da população negra na publicidade aumentou significativamente — isso deve ser visto positivamente. Não se trata apenas de caridade; trata-se de reconhecer o consumidor.
Cerca do seu contrato renovado com a Globo até 2029: Você considera buscar novas plataformas? Estou há quase trinta anos na emissora e cheguei a pensar em novos caminhos; no entanto, ainda sinto que há muitos projetos interessantes para desenvolver lá dentro. A Globo é fundamental na construção da artista que sou hoje; realizo atividades variadas: novelas em diferentes horários, séries exclusivas para Globoplay e participações em atrações populares aos domingos. Teria dificuldade em encontrar oportunidades semelhantes fora da emissora.
A receita para um casamento duradouro? (risos) Quando descobrir isso vou fazer palestras! Mas acredito que envolve compreender que o parceiro não é uma extensão sua mesma pessoa: respeitar seu espaço pessoal e aceitar momentos em que cada um deseja estar sozinho — isso é normal! Também valorizo nossos momentos juntos sem filhos; ir ao cinema ou jantar fora mesmo com as crianças reclamando são experiências preciosas.
E quanto à atuação do Lázaro como vilão? É estranho vê-lo assim?
No geral não vejo problema algum; esse é nosso trabalho! Contudo estou surpreso com o quão bem feito está sendo tudo; tudo está muito bem executado! Fico contente por ele poder mostrar todo seu talento nesta novela tão significativa esteticamente! Infelizmente muitas vezes perco os episódios devido aos ensaios mas assim eu chego em casa peço pra ele me mostrar na Globoplay!
E educar seus filhos neste contexto marcado pela misoginia?
Criar filhos atualmente é desafiador! Tenho receio do ambiente virtual! Quando meu filho está sozinho no quarto com o tablet acha-se protegido quando na verdade ele pode estar longe de casa! Tentamos orientá-los através dos exemplos: ensinar minha filha sobre proteção enquanto explico ao meu filho as consequências dos seus atos!
