DF: Alunos de Pedagogia se mobilizam em defesa da resistência e organizam comitiva para o 43º ENEPe

Na manhã de terça-feira, 28 de abril, o Instituto Federal de Brasília (IFB) Campus São Sebastião foi o cenário de uma intensa manifestação do movimento estudantil. Organizado pela Comissão de Fundação da Executiva Brasiliense de Estudantes de Pedagogia (CF-ExBEPe), o evento teve como tema central “Os ataques à educação e a luta estudantil: o papel dos estudantes na luta pelo direito ao estudo”. Com a presença de mais de 60 estudantes, a reunião criticou a superficialidade acadêmica e se transformou em um verdadeiro espaço para denunciar o desmonte da educação pública, além de convocar os presentes à organização e resistência.

Essa atividade é parte do esforço contínuo para mobilizar os alunos em direção ao 43º Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia (ENEPe), que começou em março na Universidade de Brasília (UnB), onde foram discutidos aspectos da luta anti-imperialista. Em São Sebastião, o encontro combinou discussões em grupo, oficinas para criação de cartazes — que rapidamente encheram as paredes do instituto com slogans — e apresentações culturais. O correspondente local observou que os participantes enfatizavam que a pedagogia não pode ser considerada uma ciência neutra enquanto instituições educacionais enfrentam uma política destrutiva promovida pelo imperialismo, especialmente dos Estados Unidos.

Com entusiasmo, os estudantes levantaram a voz em uníssono com a frase “Pedagogia é ciência; o futuro se constrói com resistência”, que reverberou por todo o IFB. A programação incluiu a exibição de vídeos do 26º Fórum Nacional de Entidades de Pedagogia (FoNEPe), organizado pela Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe) na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. Essa exibição reafirmou que a luta no Distrito Federal está interligada a um movimento nacional que resiste aos cortes orçamentários e à pressão privatista que afeta as instituições educacionais em todo o Brasil.

A precarização da educação como projeto de dominação

Durante as falas, um representante do Centro Acadêmico Pedagogia do Oprimido (UnB) e da ExBEPe revelou dados alarmantes sobre a gestão atual do governo Luiz Inácio (PT). “A precarização da educação é um projeto deliberado”, declarou o estudante, explicando que o Brasil, na condição atual, enfrenta uma exploração sistemática. Ele ressaltou que enquanto recursos recordes são alocados no agronegócio através do Plano Safra, as universidades públicas enfrentam cortes constantes que visam atender aos interesses financeiros dos bancos via pagamento da chamada “dívida pública”.

Os dados apresentados indicaram que entre 2014 e 2026 mais da metade dos recursos discricionários das universidades foram cortados. O estudante destacou os cortes sob a administração atual: “Só neste último governo Lula, houve redução de R$ 1,7 bilhões em 2023; R$ 734,2 milhões em 2024; e R$ 279,8 milhões em 2025”. Ele lembrou também que a escassa recomposição anunciada no início deste ano aconteceu apenas após intensas mobilizações populares e ainda assim foi insuficiente para cobrir o déficit gerado pelos cortes anteriores.

Dimitri Assis Silveira, coordenador do curso de Pedagogia, também fez uma intervenção relevante. Ele enfatizou que o ENEPe serve como um espaço onde os alunos podem vivenciar diferentes formas de luta e aprender que mudanças não ocorrem apenas através da reclamação passiva. Relembrando sua trajetória na vanguarda política brasiliense, ele instigou os jovens a não se deixarem abater pela falta de recursos como transporte: “A organização estudantil tem capacidade para realizar grandes feitos. Não pode tudo, mas pode fazer muito”, finalizou, reforçando a importância da ação coletiva frente ao imobilismo.

A presidente do Centro Acadêmico (CA) de Pedagogia do IFB São Sebastião reforçou o apelo à mobilização. Ela abordou a urgência das demandas básicas como alimentação adequada e convocou seus colegas a verem no ENEPe uma ferramenta para promover mudanças significativas. “Juntos, vamos buscar construir algo melhor para nós e para as próximas gerações”, afirmou, ligando as batalhas estudantis à sobrevivência dos futuros trabalhadores dependentes da educação pública.

Um dos momentos mais impactantes da atividade ocorreu quando os alunos tomaram o microfone para relatar suas experiências sobre as condições degradantes enfrentadas no campus. Uma estudante denunciou a situação precária das instalações: “Como vocês podem ver, há fezes de pombo no chão e nas paredes… E no banheiro feminino? As trancas não funcionam! Para usar o banheiro você precisa entrar no boxe e segurar a porta com a cabeça!”

Outro assunto central abordado foi a rigidez da burocracia acadêmica diante das necessidades dos alunos trabalhadores. Uma estudante expressou sua indignação acerca da falta de flexibilidade nas regras: “Não há qualquer tipo de flexibilização. Tem pessoas que vêm longas distâncias e precisam enfrentar duas horas dentro do ônibus; muitas vezes estão mal ou até doentes e ainda assim têm que vir porque não há outra alternativa. A solução oferecida é ‘trancar o curso’. Se precisar trabalhar para se sustentar ou se adoecer? Tranque seu curso!”

Diante das intensas reivindicações e do espírito coletivo voltado ao 43º ENEPe, os estudantes clamam por um Encontro Brasiliense urgente com foco na formação da executiva brasiliense. Um representante da ExBEPe informou sobre um pré-ENEPe agendado como parte dos preparativos para fundar essa nova executiva e facilitar mobilizações direcionadas ao encontro nacional.

O ENEPe como ferramenta de luta e unidade nacional

A atividade realizada em São Sebastião representa um passo crucial na construção da delegação que irá representar o Distrito Federal durante o 43º ENEPe, programado para ocorrer entre os dias 20 e 24 de julho em São Luís, Maranhão. Com foco no tema “A agressão imperialista ianque na América Latina e a intervenção do Banco Mundial na educação brasileira”, este encontro nacional promete ser altamente combativo ao reunir estudantes, professores e pesquisadores contra uma onda disfarçada de privatização sob pretexto de “modernização”.

A ExNEPe surgiu nos anos 1980 durante as lutas contra a ditadura militar-fascista e continua sendo uma entidade independente, classista e combativa até hoje. Diferente das organizações estudantis que se tornaram apêndices dos partidos políticos tradicionais ou burocracias governamentais como UNE e UBES, a ExNEPe prioriza unir ciência pedagógica com direitos estudantis enquanto defende educação gratuita sem influência imperialista nos currículos ou financiamento educacional.