Celular ofusca espetáculo e desvia foco de atores e espectadores

A recente controvérsia envolvendo artistas e a influência de smartphones em peças teatrais trouxe à tona o debate sobre a etiqueta cultural. A presença de telas iluminadas e os sons de notificações interrompem a atenção do público, impactando severamente as atuações. Um exemplo marcante dessa situação ocorreu com o ator Eduardo Moscovis, que pausou sua apresentação do monólogo O Motociclista no Globo da Morte, em São Paulo, para solicitar que uma espectadora desligasse seu celular – a mulher, alheia à chamada, não reagiu de imediato. Em um episódio similar, no final de 2025, Mateus Solano agrediu levemente o dispositivo de um espectador que o filmava de maneira invasiva durante O Figurante, em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. Embora ambas as apresentações tenham prosseguido, a situação evidenciou um dilema crescente: o desejo por conectividade tem invadido locais que exigem atenção plena e silêncio. “O vício se transformou em uma patologia. O aparelho foi criado para nos unir, mas na verdade está nos afastando uns dos outros”, reflete Mateus Solano.

No Coachella deste ano, um dos mais prestigiados festivais de música na Califórnia, Madonna fez uma aparição inesperada durante a apresentação de Sabrina Carpenter. Enquanto as duas interpretavam Like a Prayer, uma multidão de fãs levantou seus smartphones para registrar aquele momento único. “Não é suficiente estar presente; é preciso ter provas disso. Atualmente, muitos shows passaram a ser indiferentes a isso. Alguns artistas chegam até a incentivar o registro das performances para aumentar seu engajamento nas redes sociais”, observa Sérgio Leal, gestor do Teatro Rival Petrobras. Em contrapartida, instituições como o Theatro Municipal continuam a apelar pela consciência coletiva. “Nosso objetivo é educar o público sobre a importância de evitar o uso de celulares. Essa orientação visa preservar a concentração dos artistas e garantir uma melhor experiência ao público”, afirma Clara Paulino, presidente da fundação. Mateus Solano ressalta que cada produção deve estabelecer suas próprias diretrizes: “As regras não são definidas pelo espectador”, enfatiza. Em cartaz no Sesc Tijuca com seu solo Adorável Face de Andronieva Petrosa, a atriz Fabianna de Mello e Souza reforça essa ideia ao solicitar que os espectadores desliguem seus aparelhos antes do início das sessões. “Estar realmente presente é uma forma de valorizar o momento. O celular acaba isolando as pessoas”, complementa.

A dificuldade em se desconectar é um reflexo da vida moderna e afeta diversas gerações. “Para vivenciar plenamente uma experiência estética, é fundamental dedicar todos os sentidos à atividade naquele momento. Quanto mais imersiva for essa interação, mais significativa será”, explica Alexandra Tsallis, doutora em psicologia social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Segundo ela, esse fenômeno está relacionado a transformações cognitivas mais amplas. “Estamos perdendo qualidade não só na atenção como também na escrita e isso é alarmante. Os vínculos sociais e o sentimento de pertencimento exigem foco.” A professora Marilena Chauí comentou sobre essa questão no programa Dando a Real da TV Brasil em novembro de 2024: “Viver atualmente é ser observado. Como não conseguimos controlar o olhar alheio, essa necessidade constante de reconhecimento externo cria um ciclo vicioso que pode levar à insegurança e à depressão”.

<spanEmbora as novas tecnologias tragam hábitos diferentes à sociedade, as normas de etiqueta permanecem relevantes. Entretanto, no Rio de Janeiro, essa discussão se complica devido às particularidades locais. A informalidade e a relação flexível com horários são características enraizadas na cultura carioca – como canta Adriana Calcanhotto: “cariocas não gostam de sinal fechado”. Com uma conexão forte com a cidade desde os anos 1970, Glória Kalil, consultora de estilo e autora de seis obras sobre comportamento social, destaca que algumas atitudes acabam se tornando normas sociais aceitas. “Os cariocas se consideram representantes da cultura brasileira e acreditam que suas maneiras devem ser adotadas por todos”, observa Kalil. Assim sendo, comportamentos como o uso excessivo dos celulares ou atrasos frequentes são frequentemente normalizados. “Conheço paulistas que sempre se atrasam e cariocas pontuais. A diferença está em que em São Paulo quem chega atrasado pede desculpas; no Rio muitas vezes isso não acontece”, comenta Glória com humor. No mundo digital atual, estar presente – tanto física quanto mentalmente – é visto como uma atitude refinada e respeitosa.

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Questão de educação

Veja cinco dicas propostas por Glória Kalil para conviver harmoniosamente em sociedade:

Gentileza é essencial. Mais importante do que seguir rigorosamente regras formais é mostrar simpatia e respeito pelos outros.

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Dirija-se aos outros com consideração. Respeitar as leis de trânsito e dar prioridade aos pedestres são ações fundamentais para uma convivência civilizada.

Uso moderado do celular. Evite realizar chamadas em locais públicos e deixe o aparelho guardado durante refeições.

Cumpra os horários. Ser educado implica chegar pontualmente aos compromissos e cumprimentar todos os presentes.

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A vestimenta fala por você. Adeque suas roupas ao ambiente profissional e mantenha foco na pessoa com quem está conversando durante reuniões.

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