Veritas filia temporis. A verdade, filha do tempo, revela-se implacável. Com o passar dos anos, as camadas de tinta se deterioram, os monumentos que antes eram admirados transformam-se em ruínas; as virtudes celebradas dão lugar a vícios expostos. O presidente dos Estados Unidos aparece como uma figura grotesca, enquanto seu secretário da “Defesa” é retratado como um alcoólatra e estuprador. Neste contexto, Luiz Inácio, por sua própria confissão, admite nunca ter se posicionado à esquerda.
O que mais chama a atenção não é apenas a declaração feita no G7, mas o próprio ato de fazê-la nesse evento específico, onde os representantes do “fim da história” buscam reafirmar sua legitimidade. Aqueles que conhecem Hamlet sabem que o teatro tem a capacidade peculiar de capturar a consciência do rei. Longe estão os dias em que o atual líder do Brasil atuava para uma plateia ampla enquanto, nos bastidores, se curvava às elites. Ele se integrou completamente ao círculo do poder – um desejo antigo – e não tem intenção de sair desse espaço. Para isso, está disposto a professar verdades inconvenientes, um sacrifício significativo para quem vive na mentira.
Além de declarar que nunca foi à esquerda – e não apenas que não é atualmente –, fez outras afirmações relevantes.
<pEle declarou: "Eu era um dirigente sindical com ótimas relações com o sindicalismo alemão. Mantive bons vínculos com o sindicalismo italiano e com a UGT da Espanha." Essa ligação já é bem conhecida. A conexão entre ele e o sindicalismo amarelo europeu é histórica – e a escolha desse termo é proposital; não cabe a nós discutir sua conotação simbólica relacionada à covardia –, referindo-se ao colaboracionismo entre sindicatos e o velho Estado, algo imposto na CUT por ele e seus aliados. Paulo de Tarso Venceslau, na época membro de um diretório do PT em São Paulo, destacou no primeiro número da revista Democracia e Socialismo que centrais sindicais europeias contribuíram com cerca de 400 mil dólares para essa organização.
No entanto, Luiz Inácio omitiu mencionar em sua revelação sincera outra relação importante: a sua conexão com Stanley Gacek. É fundamental lembrá-lo aqui, pois seria desleal não citar alguém que esteve ao seu lado desde os anos 1980, celebrou sua segunda eleição na Avenida Paulista e em 2018 defendeu-o elogiando o respeito que os generais tinham por ele.
Gacek foi uma figura central na AFL-CIO, uma organização tradeunionista proeminente dos Estados Unidos que mantinha relações discretas com os serviços de inteligência desde 1949. O historiador Jeff Schuhrke aponta que suas atividades na América Latina durante a “guerra fria” foram guiadas pelo anticomunismo e pelos interesses estratégicos de Washington: em colaboração com a CIA e a USAID, essa central financiou sindicatos anticomunistas, promoveu programas para formar lideranças alinhadas e apoiou organizações rivais aos movimentos operários de esquerda, visando enfraquecer qualquer traço de nacionalismo ou socialismo.
Ainda participou ativamente da desestabilização do governo Cheddi Jagan na Guiana e apoiou ações contra Allende no Chile. Além disso, formou líderes sindicais brasileiros antes mesmo do golpe de 1964; alguns deles colaboraram com a repressão.
Homem cuja capacidade poderia até envergonhar Karl Kautsky – enfatizando o “poderia” –, Gacek ofereceu “solidariedade” a Luiz Inácio em 1981 quando este era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e havia sido preso por organizar uma greve sob acusação da Lei de Segurança Nacional. Desde então, ficou impressionado com as habilidades negociais do “companheiro”, mantendo uma amizade inabalável ao longo dos anos. Luiz Inácio tornou-se um especialista em adultério das pautas proletárias sob sua orientação.
Anos depois, Gacek continuou exercendo influência na administração da harmonia entre exploradores e explorados no Brasil, liderando o escritório local da OIT entre 2015 e 2016 e ainda mantendo laços com o Instituto Brasil, cuja missão é promover a submissão do Brasil aos interesses estadunidenses em várias áreas.
A fala proferida no G7 omitiu referenciar adequadamente essa amizade significativa; no entanto, pode-se inferir dela algumas conexões – assim funciona a boa arte: nem tudo é imediatamente evidente – quando ele menciona: “Em 1980 fui convidado para um congresso na Rússia. Não compareci porque estava condenado pela Lei de Segurança Nacional. Viajei pela Europa buscando apoio. E passei a ser tratado como anticomunista.” Pode ser que não tenha sido apenas sua recusa ao congresso moscovita que lhe rendeu esse rótulo; talvez tenha sido também sua afinidade com sindicatos traidores europeus e aliados do imperialismo estadunidense.
Ainda se destaca uma observação perspicaz dele: “o mundo não é dividido entre esquerda ou direita; é um meio.” Alguns podem interpretar essa afirmação como hesitação; enganam-se. Na verdade, ela demonstra firmeza na postura do ator – talvez até um comprometimento profundo com seu ofício escolhido. Permanecer subserviente ao imperialismo e às demandas da velha política por tanto tempo é um verdadeiro method acting.
Sua declaração também ecoa passagens bíblicas: “Entrai pela porta estreita; larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição.” Como representante dos muitos – não dos muitos nós, mas dos muitos deles –, Luiz Inácio jamais abandonaria esse caminho largo que representa o “meio”, onde aqueles dispostos ao sacrifício pelo seu lugar à mesa encontram conforto no teatro vampírico em ser parasitas para garantir suas benesses.
Tais tendências já haviam se manifestado durante seus dois primeiros mandatos.
Enquanto alguns celebravam uma suposta ascensão dos trabalhadores ao poder, os verdadeiros detentores desse poder permaneciam firmes em suas posições privilegiadas. Os bancos alcançaram lucros recordes – Luiz Inácio até se orgulhava disso –, enquanto grandes conglomerados agropecuários expandiam suas operações sem restrições; as empreiteiras tornaram-se parceiras privilegiadas do Estado e as transnacionais aumentavam sua presença nos setores essenciais da economia.
A independência nacional foi transformada em mera propaganda: anunciou-se ao povo que o Brasil superara sua dependência financeira; dizia-se que a dívida externa deixara de ser uma preocupação enquanto os mecanismos de transferência de riquezas para o capital financeiro internacional continuavam inalterados. A dependência das exportações de commodities persistiu junto à crescente desnacionalização dos setores estratégicos.
O império agradecia pelos serviços prestados; críticos superficiais contentavam-se com discursos vazios; enquanto isso, o povo recebia ilusões estatísticas sobre mobilidade social – crédito quando necessitava de habitação ou consumidores sendo tratados como cidadãos exemplares numa democracia idealizada.
No âmbito internacional, sua política exterior desenvolveu-se como uma diplomacia habilidosa em negociar espaços dentro das normas vigentes sem questionar seus princípios fundamentais. Um mediador aceitável mas nunca um perturbador incômodo; esse é o homem reconhecido por Obama como “o cara”.
Este terceiro mandato representa apenas o epílogo dessa trajetória: confirma cabalmente que pode estar lado-a-lado com aqueles considerados inimigos desde que essa inimizade seja tratada como drama superficial. Assim sendo, desde Obama até Donald Trump ou Stanley Gacek – figuras reacionárias para todos os gostos –, Luiz Inácio é amplamente “apreciado” globalmente hoje mais do que nunca por aparentar estar disposto a afundar junto ao navio da velha ordem.
No contexto de Hamlet, Polônio oferece uma reflexão pertinente: “Com bondade simulada e ações pias conseguimos tornar açucarado até mesmo o diabo.” O rei responde: “Quão verdadeiro! Como essas palavras me ferem profundamente!” Contudo, isso não será problema para Luiz Inácio; ele deixou sua consciência no vestiário antes mesmo de subir ao palco – e nunca mais buscou recuperá-la.
