
No dia 5 de maio, um grupo significativo de famílias agricultoras das comunidades de Aguas Blancas, Valencia de Jesús, Las Casitas e El Cielo ocupou uma vasta propriedade conhecida como “Caja de Ahorros nº 1”, localizada no departamento de Cesar, na Colômbia. Este ato simboliza a resistência e a determinação dessas comunidades em recuperar a terra que desejam trabalhar. O latifúndio estava sob os cuidados da Sociedade de Bens Especiais (SAE) por mais de 20 anos e agora foi reivindicado por aqueles que realmente pretendem cultivá-lo.
Em uma declaração emitida no dia 7 de maio, as famílias que ocuparam a propriedade alertaram sobre o cerco imposto por forças repressivas do Estado. Grupos como o Grupo de Operações Especiais (Goes) e a Unidade de Diálogo do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad) intensificaram ações intimidatórias contra os ocupantes. Os agricultores afirmam que a presença constante da Polícia Nacional na área elevou consideravelmente o risco de violência e violações aos seus direitos.
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‘Terra para quem nela trabalha!’
Com os gritos de “Terra para quem nela trabalha” e “Recuperar a terra é nossa missão!”, os trabalhadores rurais desafiaram a apatia institucional e a eterna espera por mudanças, reafirmando que o direito à terra deve ser conquistado através da luta organizada contra o domínio semifeudal que oprime a Colômbia.
A partir do amanhecer, as famílias começaram a adaptar o espaço para viver e trabalhar. Estão construindo coletivamente barracos e cozinhas enquanto removem o mato que se acumulou após duas décadas de abandono. Segundo relatos dos próprios camponeses, o estado precário da propriedade evidencia o descaso governamental em meio ao clamor de milhares por um pedaço de terra para escapar da miséria.
A resposta do Estado não tardou a chegar, com forças policiais realizando rondas frequentes logo após a ocupação, questionando os presentes e registrando imagens do local – uma movimentação que os camponeses interpretam como um sinal de uma possível agressão futura contra eles. No dia seguinte à ocupação, em torno do meio-dia do dia seis de maio, policiais cercaram o local afirmando que havia uma suposta proprietária da terra e que retornariam para realizar um despejo.
O latifúndio “Caja de Ahorros nº 1” é marcado pela história sangrenta e pela expropriação paramilitar na Colômbia. Seu ex-proprietário Hugues Rodríguez, conhecido como “Comandante Barbie”, foi condenado em 2007 devido às suas conexões com o Bloco Norte das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), uma organização envolvida em massacres e deslocamentos forçados.
Rodríguez acumulou mais de sessenta propriedades através da violência e do medo impostos aos camponeses locais. Apesar do judiciário ter determinado anos atrás o confisco desses bens, a SAE não conseguiu destinar essas terras adequadamente, mantendo-as improdutivas enquanto muitos enfrentam fome na região.
O alastramento das retomadas
A luta em Cesar não é um evento isolado, mas parte das contradições centrais que permeiam a Colômbia contemporânea. Em diversas regiões do país, a resistência agrícola se fortalece cada vez mais. No sul do Valle del Cauca, por exemplo, uma propriedade com mil e quinhentos hectares chamada “La Novillera” está sendo alvo de uma ocupação significativa pelos camponeses locais.
Na costa atlântica colombiana, outra fazenda chamada “El Delirio”, situada no município Pijiño del Carmen, já teve duas ocupações significativas entre fevereiro e março deste ano. Em vídeos compartilhados nas redes sociais, os agricultores expressam seu desejo por um pequeno pedaço de terra para cultivar e pedem ao governo soluções para suas demandas.
A resposta das autoridades foi rápida e contundente. Horas após as declarações do ex-vice-ministro Juan Gonzalo Botero sobre as ocupações rurais, uma operação conjunta entre as forças policiais e militares resultou na desapropriação violenta daquela área.
O rastro de sangue do latifúndio e a falácia da ‘reforma agrária’
A classe latifundiária colombiana historicamente tem acumulado terras por meio da apropriação ilegal e pelo deslocamento forçado dos camponeses. No Cesar essa realidade ainda se perpetua com menos de dez por cento dos grandes proprietários controlando mais da metade das terras produtivas enquanto milhões sobrevivem sem acesso adequado à água ou infraestrutura básica.
A atual resistência enfrenta grupos armados conhecidos como “Solidaridad Ganadera”, financiados por proprietários rurais vinculados à Fedegan (Federación Colombiana de Ganaderos) que tentam reativar antigos grupos paramilitares sob novas formas organizacionais.
Enquanto isso, o governo sob liderança falsa esquerda de Gustavo Petro proclama avanços na “reforma agrária”, mas os relatos dos camponeses revelam uma continuidade na exploração rural disfarçada sob promessas vazias. O governo afirma ter avançado na formalização de títulos agrícolas em um milhão e oitocentos mil hectares – sendo que grande parte desse total refere-se apenas à regularização de terras já trabalhadas pelos camponeses há anos.
A chamada “formalização”, em verdade, não representa redistribuição efetiva da terra mas sim uma forma de integrar os trabalhadores rurais ao sistema financeiro – sendo que muitos relatam aumentos exorbitantes nos impostos prediais além das dívidas bancárias cada vez mais pesadas.
A “reforma agrária” promovida pelo governo Petro possui semelhanças com outras iniciativas fracassadas na América Latina – evidenciando-se mais como estratégia política do que como transformação real no campo colombiano.
A Integración Campesina del Cesar (Incac) juntamente com outros grupos comprometidos com a luta dos agricultores declarou publicamente sua posição desafiadora ao afirmar que “ergueremos a bandeira pela recuperação das terras como única forma viável para retomar o que nos foi usurpado pela elite latifundiária em conluio com seu braço armado”. Um apelo à união entre organizações populares e juventude foi feito em solidariedade aos companheiros em Aguas Blancas.
