Globo propunha conteúdos a Vorcaro em troca de anúncios publicitários

Documentos obtidos pela Polícia Federal revelam que Frederic Kachar, ex-diretor geral de Mídia Impressa e Rádio do conglomerado de mídia ultraconservador Globo, ofereceu a Daniel Vorcaro, um magnata, reportagens que o interessavam enquanto buscava contratos publicitários do Banco Master.

Kachar também se comprometeu a promover a Happy Aging, empresa da então namorada de Vorcaro, Martha Graeff. Ele declarou: “Vou pautar Vogue, Marie Claire e Ela”. Apenas três dias após essa promessa, as revistas mencionadas publicaram matérias sobre o empreendimento. Vorcaro expressou sua satisfação: “Ficaram ótimas, obrigado”. Depois disso, ele sugeriu uma capa para a publicação e pediu um “fato novo” para complementar a história.

Além das promessas de cobertura, Kachar solicitava a liberação de contratos publicitários. Em uma tabela que enviou ao banqueiro, ele indicou que o Banco Master havia patrocinado o Baile da Vogue em 2024 com um total de R$ 825 mil e contribuído com R$ 1,6 milhão para o camarote da editora durante o Carnaval de 2023.

A dependência do monopólio midiático se estendia até a revisão dos textos após suas publicações. Ao compartilhar o link da matéria da Vogue sobre a Happy Aging, Kachar questionou se algo estava faltando no artigo.

Quando reportagens não agradaram Vorcaro, ele recorreu a Kachar. O banqueiro manifestou descontentamento em relação às investigações feitas por Malu Gaspar sobre os gestores do Master envolvidos em práticas fraudulentas e manipulação de preços. Kachar descreveu as denúncias como “cansativas e desnecessárias” e prometeu abordar a colunista. Contudo, para manter as aparências de “imparcialidade”, ele também defendeu a liberdade editorial de Malu nas mensagens trocadas.

A relação entre eles ia além do ambiente profissional; ela se estendia até festas organizadas por Vorcaro. Em maio de 2024, o magnata convidou Kachar para uma celebração em um local sem riscos e sem celulares. O executivo foi tratado como convidado especial e no dia seguinte agradeceu pelo evento com comentários humorísticos sobre seu estado.

Do diálogo com Vorcaro à menção a Netanyahu

Numa conversa datada de 2 de outubro de 2024 e atribuída a Kachar e Vorcaro, divulgada pela Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Kachar se vangloriava afirmando: “Até o Netanyahu me retornou”, adicionando humor ao mencionar sua origem libanesa. A suposta resposta do primeiro-ministro israelense parecia ser mais uma credencial que ele apresentava ao banqueiro em meio ao genocídio palestino.

A história do conglomerado midiático da família Marinho está enraizada em financiamento proveniente do grupo americano Time-Life. O próprio Memória Globo reconhece que os contratos foram considerados inconstitucionais por uma comissão parlamentar em 1966, sendo regularizados sob uma ditadura militar repressiva.

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No contexto da cobertura sobre a Palestina, o conglomerado é visto como parte do lobby sionista que facilita a propaganda para os ocupantes e ajuda na criminalização daqueles que denunciam tais ações. Em novembro de 2023, O Globo classificou um debate acadêmico sobre racismo e sionismo como potencial discurso de ódio e utilizou o crescimento populacional palestino para contestar acusações de genocídio.

A cumplicidade desse conglomerado já era alvo de protestos antes mesmo das revelações sobre as conversas entre Kachar e Vorcaro. No dia 29 de fevereiro de 2024, mais de cem manifestantes se reuniram em frente à sede da Globo em Belo Horizonte. A logomarca da emissora foi coberta com tinta vermelha enquanto bonecos ensanguentados simbolizavam as crianças palestinas assassinadas.

A partir das conversas expostas envolvendo Vorcaro, os Marinho tentam agora limpar sua imagem pública através da saída de Kachar. No dia 15 de outubro, eles anunciaram sua demissão após reconhecer seus quase três décadas dedicadas à empresa e reafirmaram sua suposta “independência editorial”. Garantiram que a cobertura relativa ao Master é sempre “crítica, isenta e independente”. Enquanto isso, Kachar foi dispensado mas as matérias previamente prometidas ao banqueiro continuaram sendo publicadas.

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