
Quando deixou Contagem, em Minas Gerais, para assumir um papel na série Suburbia (2012), Erika Januza pediu que não mexessem em seu cargo na secretaria de uma escola. Achava que era sorte passageira e logo voltaria à rotina. Quase quinze anos depois, a exceção virou regra.
Aos 40 anos, a atriz soma inúmeros personagens na TV e no cinema, e atravessa uma das fases mais intensas da carreira: está no ar em Dona Beja, novela com selo da HBO Max, exibida pela Band; voltará no final de abril ao quadro de apresentadoras do programa Saia Justa, do GNT; e estreia na segunda (16) como Niara, a rainha de Batanga, no folhetim global das 6, A Nobreza do Amor.
Na trama, que se desenrola no Brasil, mas em profunda conexão com a África, ela dá vida à mãe da protagonista (Duda Santos) e precisa fugir junto à filha para se proteger de Jendal, primeiro vilão interpretado por Lázaro Ramos. De sua casa no Recreio, Erika conversou sobre a importância da representatividade, falou sobre seu retorno à Viradouro após ser desligada do posto de rainha de bateria e abriu o jogo sobre o relacionamento com o cantor Arlindinho e o desejo de ser mãe.
Qual a força de uma história como essa na TV? A novela traz muito do que sempre sonhamos em ver na televisão. É uma reconexão com as nossas raízes. Ela apresenta uma realeza preta, sem precisar ficar reforçando isso. Fora a estética que, além de linda, é cheia de significado. Os figurinos usam os adinkras, que são símbolos africanos, e cada personagem tem o seu. Toda a referência para cabelo, maquiagem e acessórios vem daí, e é lindo ver isso chegar a tantas pessoas.
Isso existia na sua infância? Já fiz rodas com mulheres pretas para falar de vários assuntos, e os dilemas são os mesmos, independentemente da origem. Essa é uma questão. A gente acabava brincando de faz de conta com personagens que não eram negras, como as paquitas. Claro que tínhamos Zezé Motta, Léa Garcia e depois Tais Araújo, mas não havia um desenho da Disney no qual se espelhar.
Neste contexto, de que forma se deu a criação da sua identidade enquanto mulher negra? Demorei a entender o meu lugar. Cresci sem debater essas questões em casa e só fui ganhar consciência quando me mudei para o Rio e me tornei atriz. Cheguei com o cabelo alisado, que era uma estética que me protegia, e foi doloroso abrir mão. Suburbia me fez enxergar outras possibilidades e entender situações de racismo que eu já tinha vivido, mas não sabia nomear. Hoje me sinto segura. Posso usar meu cabelo crespo, uma lace loira ou lisa, e nada diminui meu discurso sobre negritude.
Você também está em Dona Beja, que é ambientada no século XIX. Como as temáticas dialogam com os dias atuais? Há uma discussão sobre violência de gênero que é aberta logo na primeira cena, quando a minha personagem é arrastada em praça pública. Foi bem impactante, até difícil de assistir depois. A trama mostra como, naquela época, não tínhamos voz. Com a Lei Maria da Penha, há mais respaldo, e ainda assim é difícil para muitas mulheres romperem o ciclo de violência. Esse é um tema que esteve presente desde a primeira novela e fico feliz em debater vieses sociais relevantes com o meu trabalho.
Em A Nobreza do Amor, você viverá a mãe da protagonista. A maternidade é um desejo? Nunca tratei como um plano rígido, mas ele sempre esteve ali. Só que eu fui adiando, primeiro pelo imaginário do casamento, depois porque o foco estava na carreira. Gostaria de ter um filho pensando na minha continuidade no mundo, mas tenho 40 anos e, embora não me sinta com essa idade, as células sabem. Tentei congelar óvulos aos 38, mas não deu certo. Agora estou tranquila: se tiver que acontecer, vai acontecer.
Como está o namoro com Arlindinho? Na contramão de tudo, sou romântica e estou vivendo o meu melhor momento assim. Esses dias, ele lembrou que já nos conhecíamos desde a época de Suburbia. Eu me recordo dele em vários shows, mas nunca tinha acontecido nada. Era só uma questão de tempo — duas pessoas vivendo suas histórias até se encontrarem na hora certa. A gente se cuida muito e faz de tudo para estar perto, apesar das rotinas corridas.
Está mais segura para mostrar o relacionamento nas redes? Era reservada nesse sentido, mas, depois dos 40, decidi não me podar mais ou ter medo de ser cancelada. Se quero postar foto, eu posto. Se quero acompanhar um show dele, eu vou. Isso se potencializou como apresentadora do Saia Justa, onde falo sobre o que domino e o que não domino. Passei a me posicionar sobre as coisas de uma forma que não fazia na vida pública. Não me preocupo mais tanto e respeito as minhas verdades.
Por isso não quis dar entrevistas no desfile das campeãs? Eu falei com a imprensa nos três dias de desfile, praticamente sobre os mesmos assuntos. Ali nas campeãs, sabia que iam resgatar algo que já estava com as possibilidades de resposta esgotadas e tentar fazer polêmica. Podia ter mentido e dito que estava cansada, mas fui sincera e expliquei que não havia mais nada a ser dito. Estava feliz e em um momento de comemoração — qualquer um podia ver isso. Foi uma sábia decisão. Às vezes tenho esses lapsos de maturidade, mas tem horas que sou “sincericida”, depende do dia (risos).
É cedo para falar sobre o Carnaval do próximo ano? Sim. Estou com a sensação de missão cumprida. Sempre vou amar a Viradouro, vivi coisas incríveis ali, mas meu coração ficou leve com o encerramento de um ciclo. Eu não saí para a Juliana (Paes, atual rainha) entrar. E, mesmo se tivesse sido, essa decisão é da escola. Foram quatro anos de dedicação intensa e, de repente, essa rotina acabou, então ainda carregava a dúvida de quem eu seria no Carnaval. Veio o convite para voltar, aceitei e revivi o amor da comunidade. No fim, tudo se encaixou: deixei de ser rainha de bateria e virei rainha na ficção.
