
“Meu pai, já falecido, costumava afirmar que a canção Pedaço de Mim, de Chico Buarque, é a mais triste que existe, especialmente o trecho ‘a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu’. Nunca pensei que presenciaria essa cena.
Recentemente, minha esposa, Ana, e eu nos mudamos para um novo apartamento. É curioso como o destino age. Escolhemos um imóvel com dois quartos, pois acreditávamos ser importante oferecer um espaço exclusivo para nosso filho Chico, que estava crescendo.
Quase de maneira mágica, encontramos este apartamento com as dimensões ideais. Viemos aqui pensando exatamente no quarto dele, que mal conseguimos terminar de montar. Ser pai sempre foi meu maior desejo e agora me vejo tentando entender quem sou na ausência do Chico.
Diante dessa situação, percebi que tinha duas escolhas: projetar um futuro repleto de dor ou olhar para as memórias e celebrar os momentos que vivemos juntos. Optei por recordar. Ao entrar no quarto dele, sinto ainda seu perfume no ar. Pegando um brinquedo e revendo fotos de nossas viagens e dos jogos do Vasco no estádio… Decidi valorizar nossa história.
O consolo surge de formas inesperadas. Um amigo meu, o cartunista Allan Sieber, retratou meu filho em uma arte dizendo ‘Chico foi um menino muito feliz’. Nunca imaginei que ele seria lembrado dessa forma.
Meu filho convivia com diabetes, o que dificultava sua presença na escola e a prática de atividades físicas. Enquanto seus colegas podiam lanchar durante o recreio, ele precisava esperar para aplicar insulina. Eram mais de mil injeções anuais e, apesar desse desafio constante, o que mais se destacava era sua felicidade genuína.
<span Uma amiga comentou uma observação interessante: todas as crianças são referidas pelo nome dos pais; ele era apenas Chico, e rapidamente me tornei o pai do Chico. Ana e eu frequentemente conversávamos sobre quem ele se tornaria ao crescer. Ele completaria 10 anos em maio e, na minha memória, sempre permanecerá nessa idade.
Outra amiga me fez pensar sobre a singularidade dessa perda. Quem perde uma esposa é viúvo; quem perde os pais é órfão; mas quem perde um filho? Essa condição não tem nome.
Conversando com pessoas que enfrentaram tragédias semelhantes, ninguém me prometeu que ficaria bem; disseram apenas que aprenderia a viver com a dor.
Às vezes, sinto vontade de encenar o luto esperado pelas pessoas à minha volta: gritar ou me jogar no chão… Afinal, é uma dor incomensurável. Um pai não deveria sobreviver sem seu filho; porém busco transformar essa tristeza através da palavra e da memória.
A experiência do luto não precisa ser vista em preto e branco. As lembranças permanecem vivas e farei questão de preservá-las. Interagir com outras pessoas se tornou uma forma de manter minha mente ocupada; isso pode ser interpretado como coragem ou como covardia por não querer enfrentar a solidão em nenhum momento.
Lidar com o silêncio em casa é um desafio enorme.
Acompanho os comentários nas redes sociais e vejo pessoas me criticando ou elogiando por andar de bicicleta elétrica ao lado dos carros. Compreendo que o Rio tem seus perigos, mas a narrativa de um realismo cruel acaba priorizando a selvageria.
A população da Zona Norte enfrenta insegurança e falta de mobilidade porque suas vidas parecem ter valor insignificante. Dizer isso é difícil, mas elas são tratadas como facilmente substituíveis e desumanizadas.
A conscientização gira em torno de evitar usar celular na rua para não ser assaltado ou pedalar para escapar de atropelamentos… A solução para esses problemas parece distante; cada um deve se proteger como puder. Esse é o retrato da Zona Norte da cidade.
A teoria do marxismo da melancolia, proposta por Walter Benjamin (1892-1940), ressalta momentos em que a apatia domina, enquanto em outros surge uma fúria capaz de mover montanhas. Essa indignação torna-se tão intensa que não posso permitir-me sucumbir à tristeza. Esse sentimento está presente em mim agora.
A morte do Chico não pode ser em vão. Não posso deixar sua partida significar apenas a minha própria morte; devo lutar para evitar que outros sofram também.
*Depoimento dado a Pedro Coutinho
