Paraguai: agricultores e indígenas se mobilizam contra grandes proprietários e a presença militar dos EUA

A capital paraguaia, Assunção, se torna o palco de uma mobilização significativa em defesa da terra, com camponeses e comunidades indígenas se unindo para a “Mobilização Nacional pela Terra, Trabalho e Produção”, que acontecerá entre os dias 20 e 22 de abril. Organizada pelo Espaço de Unidade Indígena, Camponesa e Popular, a manifestação tem como objetivo paralisar 14 departamentos do país através de piquetes e comícios em 27 pontos estratégicos. A marcha representa um clamor contra a opressão do latifúndio e a entrega da soberania nacional ao imperialismo estadunidense sob a administração subserviente de Santiago Peña.

Atualmente, a realidade no campo paraguaio é marcada por um conflito aberto entre o Estado tradicional e os pequenos agricultores. De acordo com dados recentes, mais de 1.400 famílias camponesas foram forçadas a deixar suas propriedades entre dezembro de 2025 e março de 2026 devido à repressão policial e à ação de pistoleiros. Mario Rivarola, representante da Articulação Nacional Indígena por uma Vida Digna (Anivid), critica a estrutura semifeudal que permeia o país, destacando que mais de 80% das terras aráveis estão nas mãos de apenas 2,5% dos grandes proprietários, enquanto mais de 200 comunidades indígenas não possuem sequer títulos formais sobre suas terras.

“Mais de 200 comunidades indígenas estão completamente desprovidas de títulos legais e abandonadas. As comunidades camponesas também enfrentam falta de acesso à terra. Essa situação é uma forma de criminalizar as lutas sociais: quando os camponeses reivindicam terras ao governo, são criadas legislações para reprimir essas comunidades”, declarou Rivarola.

A política oficial do governo paraguaio tem se mostrado violenta em relação aos povos originários e aos trabalhadores rurais. Em um incidente ocorrido em 3 de fevereiro, as forças da Polícia Nacional realizaram uma invasão criminosa na Estancia Americana, localizada em Canindeyú, disparando armas e gás lacrimogêneo contra famílias indígenas. Essa ação foi autorizada pelo juiz Guillermo Trovato e teve como intuito proteger os interesses do latifúndio ligado à soja brasileira que atua na fronteira. Apesar das solicitações ao Instituto Indígena Paraguaio (INDI) para uma intervenção pacífica, a ordem foi pelo despejo violento.

Um exemplo marcante da resistência ocorreu em Pindoty Porã no dia 4 de fevereiro, onde policiais e oficiais de justiça atacaram a colônia utilizando balas de borracha para assegurar a posse por parte de um administrador judicial. No decorrer dessa repressão, ferramentas essenciais para o trabalho dos camponeses e motocicletas foram confiscadas numa tentativa clara de desestabilizar sua subsistência.

Diante dessas circunstâncias alarmantes, as demandas da marcha são diretas e abordam questões concretas do problema agrário. Elas incluem orçamento destinado à aquisição de terras para indígenas; recursos para o Plano Nacional dos Povos Indígenas; regularização dos assentamentos camponeses; revogação das leis que criminalizam as lutas sociais; apoio financeiro para fomentar a produção indígena e camponesa; além da anulação do acordo SOFA com os Estados Unidos. A mobilização em Assunção terá seu ponto central na Plaza Italia, mas faz parte de uma resistência mais ampla que se intensifica nas áreas rurais do país, especialmente em departamentos como Canindeyú, San Pedro e Amambay, onde o sangue dos camponeses fertiliza o solo da revolução agrária.

O manual da ocupação do imperialismo estadunidense

A aprovação do Acordo de Estatuto de Forças (SOFA – Status of Forces Agreement) marcou um avanço na submissão do Paraguai aos Estados Unidos. Sob o falso pretexto do combate ao “narcotráfico” e ao “terrorismo”, o Senado paraguaio cedeu sua soberania ao Departamento de Defesa norte-americano. Este tratado concede total imunidade diplomática às tropas estadunidenses que transitarem pelo território paraguaio. A mobilização indígena e camponesa exige imediatamente o fim deste acordo.

Além das implicações militares, o acordo SOFA serve como um mecanismo para espionagem e controle social. O Artigo 10 permite que o Departamento de Defesa dos EUA utilize sistemas próprios de telecomunicações sem custos adicionais, possibilitando vigilância completa na Tríplice Fronteira. Recentemente, o ministro do Interior Enrique Riera anunciou a criação de um “centro antiterrorista” treinado pelo FBI com o intuito claro de monitorar e reprimir qualquer forma de resistência popular ou movimentos camponeses como o Exército do Povo Paraguaio (EPP), garantindo assim que o Paraguai continue sendo um ponto estratégico para as operações estadunidenses na América Latina.

Marcial Gómez, secretário-geral da Federação Nacional Camponesa (FNC), ressalta que o Estado paraguaio favorece grandes propriedades agrícolas junto ao crime organizado em detrimento dos pequenos agricultores. O cenário no Paraguai reflete uma realidade semelhante à vivida no Brasil. O temor das elites dominantes é comum nos dois países: o avanço da Revolução Agrária.

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