Estudante de Medicina da UFPR recebe ameaças de estupro de quadrilha criminosa

Recentemente, o Diretório Acadêmico Nilo Cairo (DANC) do curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR) tornou pública uma grave denúncia sobre a tentativa de agressão contra uma de suas alunas. A nota divulgada pela entidade estudantil revela que a estudante tem sido alvo de perseguições por um grupo criminoso que promove apostas financeiras, premiando aqueles que conseguem estuprar alunas que constam em uma lista elaborada pelo grupo, com fortes indícios de que os envolvidos sejam colegas da própria vítima. Felizmente, a estudante conseguiu evitar o ataque e recebeu suporte de uma equipe, mas o DANC aconselha todos a manterem-se atentos e reportarem quaisquer comportamentos suspeitos.

Ainda conforme o comunicado do DANC, a organização afirmou: “As autoridades policiais já estão investigando o caso. Além disso, membros da polícia militar de patamar superior estão cientes da situação. A vítima está recebendo todo o apoio necessário tanto do diretório quanto de outras instituições. Contudo, pedimos que todas as alunas fiquem atentas ao se deslocar nas proximidades do poli, na reitoria e durante festas, pois a estudante ameaçada foi seguida nesses locais. A polícia nos orientou a informar o maior número possível de pessoas sobre essa situação alarmante”.

Uma aluna que preferiu não ser identificada relatou que há grande possibilidade de que esse ataque tenha sido planejado por colegas do curso. “Circula um boato há algum tempo sobre a existência de uma lista com as alunas mais vulneráveis da nossa turma”, comentou ao Comitê de Apoio ao AND – Curitiba e Região. “Agora, com essa questão das apostas para cada estupro, fica difícil não pensar que esses fatos estejam interligados”. Ela também mencionou rumores indicando que quanto mais brutal fosse o ato, maior seria a quantia oferecida ao agressor.

Até o presente momento, a Reitoria da UFPR não se manifestou ou apresentou medidas para assegurar a proteção das estudantes, afastar indivíduos suspeitos ou acolher vítimas de violência sexual que sintam receio em retornar às aulas. As atividades acadêmicas seguem normalmente, mesmo com o risco iminente enfrentado por todas as alunas do curso.

Mobilização estudantil para garantir segurança contra agressões

Diante desse cenário preocupante, alunas dos cursos de Medicina e outras áreas decidiram se unir em busca de proteção. “Formamos um grupo para garantir que ninguém circule sozinha”, disse outra estudante que também optou por não se identificar. “Vamos sempre acompanhar os trajetos umas das outras e utilizar o transporte intercampi juntas. Neste momento, não há como andar sozinha. Não sabemos se somos alvos também, pois existe uma grande probabilidade de estes estupradores estarem nas mesmas turmas que nós. Já iniciamos algumas oficinas de autodefesa para nos prepararmos caso alguém tente nos atacar”.

Conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2023, atingindo a maior marca desde 2011. Isso representa cerca de um caso a cada seis minutos no país. Vale ressaltar que esses números oficiais provavelmente são subestimados; segundo o IPEA, estima-se que ocorram cerca de 822 mil estupros anualmente no Brasil, considerando os casos não denunciados — ou seja, apenas uma fração é levada ao conhecimento das autoridades ou dos serviços médicos.

Essas estatísticas evidenciam que as situações relatadas pelas estudantes da UFPR refletem uma tendência social mais ampla na qual as mulheres são tratadas como propriedade, sendo a violência sexual uma manifestação dessa posse e uma negação do direito fundamental à autonomia sobre seus corpos.

Em uma entrevista marcante ao AND, Sandra Lima (1955-2017), fundadora do Movimento Feminino Popular, declarou: “Na sociedade existe um pensamento arraigado de que homens têm domínio sobre os corpos femininos independentemente do consentimento: isso é uma relação de posse. E essa mentalidade não se limita aos homens; ela materializa ideologias dominantes na sociedade. A burguesia perpetua a ideia de que as mulheres são cidadãs em segundo plano e devem ser tratadas como tal. As mulheres proletárias são particularmente vulneráveis à opressão sexual.”

Nessa mesma conversa histórica, Sandra Lima alertou sobre a falta de confiança nas instituições policiais e judiciais tradicionais: “A trajetória mostra que as forças policiais estupraram prisioneiras políticas no Brasil e globalmente; denúncias semelhantes surgem frequentemente entre prisioneiras comuns. Nunca houve proteção verdadeira às mulheres oferecida por este velho Estado; muito pelo contrário. O código penal vigente em 1988 restringia a definição de estupro apenas à penetração acompanhada da presença de esperma; assim sendo, se uma mulher gritasse e seu agressor sufocasse sua respiração até resultar em morte isso era considerado apenas um crime sexual.”

No combate à opressão feminina justificada sob diversas formas por esta sociedade antiga, surgem dois caminhos opostos: nutrir ilusões dentro deste sistema opressor ou lutar ativamente por uma verdadeira democracia e pela construção de uma nova sociedade capaz de romper com séculos de subjugação feminina.

Leia na íntegra as notas publicadas pelo DANC:

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