Paraguai suspende desfile militar devido à crise nas ações contra o EPP e à impunidade no caso Villalba

Em uma decisão inusitada, o ministro da Defesa Nacional do Paraguai, Óscar González, declarou que o tradicional desfile militar em homenagem ao “dia da independência” do país será cancelado. A justificativa apresentada pela autoridade do governo de Santiago Peña é que a prioridade agora são as operações de busca por indivíduos sequestrados por guerrilheiros do Exército do Povo Paraguaio (EPP), entre eles Almir Brum da Silva, filho de um proprietário rural brasileiro, que foi capturado em 21 de fevereiro de 2026.

No entanto, essa justificativa não convenceu os familiares dos sequestrados. Beatriz Denis, filha do ex-vice-presidente Óscar Denis, que está desaparecido há mais de cinco anos, questionou em entrevista à mídia local se, nos anos anteriores em que ocorreram desfiles, as buscas pelos sequestrados não eram realizadas.

Para justificar o cancelamento do evento festivo, González destacou que a mobilização de 8.000 militares para o desfile comprometeria as “operações de inteligência”, já em curso. Contudo, essa suposta “prioridade” revela a crise enfrentada pelas forças armadas. Enquanto milhões são dispendidos na manutenção das ações do Comando de Operações de Defesa Interna (Codi), a guerrilha — que o governo afirma estar “reduzida a poucos combatentes” — continua a influenciar a agenda nacional e expõe a vulnerabilidade das tropas paraguaias, treinadas pelos Estados Unidos (EUA), mas incapazes de lidar com as táticas guerrilheiras.

A proteção aos responsáveis pelo massacre das meninas Villalba

Enquanto os líderes militares se afastam dos desfiles em meio à crise atual, no sistema judicial paraguaio avança um esforço para garantir a impunidade dos soldados envolvidos no assassinato das meninas Lilian Mariana Villalba e María Carmen Villalba, ambas com apenas 11 anos.

O promotor Giovanni Grisetti formalizou um pedido para arquivar as acusações contra os doze membros da Força-Tarefa Conjunta (FTC) implicados no crime ocorrido em 2 de setembro de 2020 na fazenda chamada “Paraíso”. Ele argumenta que os militares agiram em “legítima defesa”, alegando terem sido atacados inesperadamente na área rural de Yby Yaú, no departamento de Concepción.

A lista dos soldados beneficiados pelo pedido inclui o subtenente Aldo Iván Ayala Bogado; o tenente Gabriel Hermenegildo Guerrero Roa; além de diversos sargentos e suboficiais. Para Grisetti, atirar contra duas crianças seria uma “conduta típica para proteger vidas”, argumento que ressalta a natureza genocida das estruturas estatais paraguaias.

Esse pedido de arquivamento se tornou um verdadeiro “fogo cruzado”, conforme reportagens locais indicam, já que nenhum juiz deseja assumir a responsabilidade pelo caso. Em julho de 2025, o juiz Miguel Palacios alegou incompetência territorial e encaminhou o processo ao tribunal local. O juiz Manuel Benítez Mongelós manteve o caso parado por dez meses sem emitir qualquer decisão.

Somente em 24 de abril deste ano, Mongelós também se declarou incapaz e enviou o caso ao Juizado Penal Especializado em Crime Organizado. Atualmente, é sob a supervisão do juiz Osmar Legal que o processo está tramitando, com um conflito sobre competência sendo levantado perante a Corte Suprema de Justiça (CSJ).

Esse fluxo processual não é meramente um reflexo da desorganização burocrática; trata-se de uma estratégia deliberada para prolongar o processo e potencialmente permitir sua prescrição. Ao atrasar decisões sobre o massacre das meninas Villalba, o Estado assegura que seus agentes repressivos continuem operando impunemente como esquadrões da morte. A gravidade da situação é tal que informações sobre as condições dos corpos e a manipulação das evidências na fazenda “Paraíso” permanecem como segredos estatais.

Forças Armadas perdidas em meio à crise

No departamento de Canindeyú, durante uma operação conhecida como “Nova Aliança”, policiais e agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) chegaram a disparar uns contra os outros devido a erros na identificação durante uma ação contra o EPP. Esse nível alarmante de descoordenação evidencia que o aumento no número de tropas do Codi e os destacamentos especiais com suporte aéreo nas fronteiras servem mais para propaganda e intimidação dos camponeses do que para efetividade militar real.

Além disso, a recente troca no comando do Batalhão de Inteligência Militar (Bimi), em Arroyito, indica tensões internas nas forças armadas. Essa mudança ocorreu após graves denúncias sobre militares sendo utilizados como mão-de-obra doméstica em uma propriedade privada relacionada ao ex-comandante Carlos Casco. Embora González tenha afirmado rapidamente que as investigações não encontraram evidências dessas acusações, ele reconheceu que a troca foi solicitada pelo general Gaona devido à necessidade urgente por mais recursos de inteligência e preocupações relacionadas ao sequestro de Almir De Brum.

O sequestro de Almir De Brum Da Silva aconteceu em 21 de fevereiro de 2026 em Curuguaty e catalisou uma intensa ofensiva militar além da crise interna nas forças armadas. Com mais dois meses sem provas concretas sobre sua vida ou pedidos formais por resgate, este incidente evidencia as falhas nas operações militares paraguaias e mostra como investimentos significativos em tecnologia estrangeira não garantem conhecimento adequado da região onde atuam os guerrilheiros.

Panfletos deixados pelos guerrilheiros no local indicam que despejos forçados constituem uma “dívida histórica com o povo”, cujo pagamento não tem prazo definido. Esse contexto levou o governo a assinar um decreto permitindo às forças repressivas maior capacidade operacional — essencialmente criando um estado velado de emergência nas áreas rurais afetadas pela guerra.

Enquanto isso, enquanto Enrique Riera caracteriza Canindeyú como um “coquetel explosivo” acusando camponeses por ligações ao narcotráfico, outras autoridades afirmam erroneamente que a guerrilha foi reduzida quase à insignificância — contradizendo assim as razões apresentadas para cancelar desfiles nacionais e mobilizar tropas tanto por terra quanto por ar enquanto buscam apoio desesperado nos EUA.

A rendição da soberania nacional

Todo esse cenário revela uma entrega total da soberania paraguaia ao imperialismo ianque. Em fevereiro passado, o Senado ratificou um acordo conhecido como Sofa (Acordo sobre o Estatuto das Forças), concedendo imunidade diplomática aos soldados norte-americanos. Isso permite que tropas dos EUA circulem armadas pelo território paraguaio sem serem sujeitas à jurisdição criminal local por crimes cometidos.

A presença dessas tropas e armamentos — como demonstrado pela chegada da aeronave C-17 Globemaster III — visa consolidar ainda mais o controle sobre a Tríplice Fronteira e assegurar exportações livres das commodities agroexportadoras dominadas pelos latifundiários. A atuação dos militares norte-americanos junto ao Federal Bureau of Investigation (FBI) nos centros destinados ao combate ao terrorismo representa uma aplicação direta da Guerra de Baixa Intensidade com foco no extermínio das lideranças camponesas e movimentos revolucionários contrários à exploração desenfreada do país.