Escândalo Master envolve Hugo Motta e Jaques Wagner em nova reviravolta

No dia 18 de junho, a Polícia Federal (PF) deu cumprimento a mandados de busca e apreensão direcionados ao senador Jaques Wagner (PT-BA), que é o líder do governo Luiz Inácio no Senado. Esta ação faz parte de uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master e suas conexões com o banqueiro Daniel Vorcaro. Além disso, conversas obtidas pela PF no celular de Vorcaro também envolvem Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara dos Deputados, revelando um pedido para liberar pelo menos R$ 22 milhões do banco para uma empresa relacionada à cunhada do deputado.

Esses novos avanços na investigação indicam que o caso do Banco Master vai além das interações individuais de Daniel Vorcaro com alguns políticos. A apuração abrange o governo, o “centrão” e até a extrema direita, revelando uma complexa rede de interesses financeiros que se entrelaça com a política oficial.

Entre as evidências apresentadas pela PF está um apartamento luxuoso em Salvador, no empreendimento Poème Horto, avaliado em R$ 2,45 milhões e adquirido através de uma empresa intermediária, o que os investigadores consideram como um indicativo de ocultação do verdadeiro proprietário. A PF também menciona R$ 3,5 milhões transferidos pela empresa de Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro e “principal interlocutor privado de Jaques Wagner”, para a BN Financeira Ltda., que tem vínculos familiares com Wagner por meio de sua nora.

A investigação ainda revela a apreensão de US$ 49 mil em espécie em um endereço relacionado ao senador em Brasília, além de € 33,5 mil encontrados na Bahia. Também foram descobertos ingressos para camarote em um show em Los Angeles, totalizando R$ 63 mil, pagos à família do senador, e o uso gratuito de aeronaves associadas tanto ao Banco Master quanto a Augusto Ferreira Lima.

A PF identificou ainda três áreas em que Wagner teve atuação parlamentar direta relacionadas aos interesses do Banco Master: a ampliação da margem consignável para trabalhadores e beneficiários do BPC; a proposta da PEC 65/2023 que altera os limites da cobertura do FGC (denominada “Emenda Master”); e a supervisão sobre uma possível venda do banco ao BRB.

Em uma mensagem enviada em 29 de março de 2025, Augusto Ferreira Lima se dirigiu a Wagner dizendo: “Você mais do que ninguém sabe da minha história e faz parte disso!!”. A PF concluiu que o senador não era apenas um receptor passivo de informações, mas sim um interlocutor importante em questões sensíveis ligadas ao grupo econômico investigado.

Wagner refuta qualquer acusação de irregularidade. Em declarações anteriores citadas por veículos de comunicação, ele afirmou que sua nora teve relações comerciais com o Banco Master durante a administração Bolsonaro e negou ter atuado como intermediário. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, saiu em defesa do correligionário afirmando em nota que Wagner é “depositário da nossa confiança” e garantiu que o senador esclarecerá todos os fatos para provar sua inocência.

Hugo Motta, R$ 22 milhões e o jatinho de Vorcaro

As informações sobre Hugo Motta (Republicanos-PB), atualmente na presidência da Câmara dos Deputados, já haviam sido divulgadas nos dias anteriores e se somam ao panorama geral da investigação. Conversas encontradas no celular de Daniel Vorcaro sugerem que Motta solicitou a liberação dos R$ 22 milhões do Banco Master para uma empresa ligada a Bianca Medeiros, irmã da sua esposa. Quando questionado repetidamente sobre esse pedido durante cinco ocasiões distintas, Motta evitou responder diretamente e apenas comentou que tudo estava “dentro da legalidade”.

Além disso, foi revelado que Motta confirmou ter utilizado o jatinho particular de Daniel Vorcaro para viajar ao Fórum Jurídico de Lisboa em junho de 2024 — evento conhecido como “Gilmarpalooza”, organizado pelo ministro Gilmar Mendes. De acordo com informações divulgadas pela mídia, mensagens recuperadas pela PF mostram que Vorcaro fez reservas no hotel Four Seasons Ritz Lisboa para “Ciro e Hugo”, referindo-se a Ciro Nogueira (PP-PI) e ao próprio Motta. As diárias totalizaram cerca de R$ 91,3 mil para cada parlamentar.

Num áudio enviado a um assistente, o banqueiro expressou preocupação com questões relacionadas à segurança do evento: “Preciso muito que você preste atenção na questão da segurança… É fundamental garantir que ninguém não autorizado entre”. Ele complementou mencionando: “Até mesmo alguém tão importante quanto o papa não deve ser admitido sem estar na lista.”

Quando indagado sobre isso, Motta declarou estar “tranquilo” e afirmou não ver problema na hospedagem custeada pelo ex-banqueiro: “É um evento corporativo; participei como presidente da Câmara.”

Governismo, “oposição” e “centrão” sob o mesmo guarda-chuva

Os novos elementos revelados no caso Master enfatizam como as investigações permeiam diversos setores da política nacional. O apartamento atribuído a Wagner, os R$ 22 milhões relacionados à empresa da cunhada de Motta, as suítes reservadas no Four Seasons para Ciro Nogueira e as despesas cobertas por jatinhos destacam-se como partes integrantes de uma rede onde interesses financeiros sustentam relações pessoais e transações comerciais junto ao poder político. A atuação do Banco Master sobre decisões cruciais ligadas ao setor financeiro torna-se evidente através das questões relativas ao FGC, crédito consignado e propostas constitucionais.

A situação não se resume apenas à escolha entre grupos políticos como extrema direita ou falsa esquerda; as provas coletadas pela PF apontam para uma intersecção clara entre esses grupos dentro da esfera política oficial. O PT governante, os Republicanos na presidência da Câmara e o PP fazendo oposição são exemplos das várias facetas desse esquema envolvendo um banqueiro disposto a oferecer favores, viagens e recursos financeiros.

No programa A Propósito, exibido pelo AND em 22 de maio de 2026, foi abordada também a participação dos Bolsonaro nas conexões do Banco Master com diferentes esferas políticas brasileiras. Na ocasião foi destacado que mesmo se Flávio Bolsonaro fosse preso isso não solucionaria toda a problemática relacionada à extrema direita; trata-se antes de tudo de um dilema ideológico profundamente enraizado na política nacional.