As bases organizativas dos distritos 5, 7, 8 e 14 de El Alto manifestaram sua total reprovação aos acordos estabelecidos entre a Central Operária Boliviana (COB) e o governo de Rodrigo Paz. Em um comunicado divulgado pelo Periódico Bandera Roja – Bolívia, trabalhadores, jovens e comitês de luta afirmaram que as negociações ocorreram sem a participação das massas, servindo apenas para validar a repressão por parte do Estado. Esses grupos reiteraram que não participarão de quaisquer mesas de diálogo convocadas nem pelo governo nem pela liderança da COB, desconsiderando qualquer pacto que não reflita os interesses das bases organizadas.
A cisão dos distritos de El Alto em relação à liderança da COB revela uma profunda divisão entre a elite operária, que busca conciliação com o antigo Estado, e o movimento popular que mantém viva a resistência tanto armada quanto pacífica nas ruas. No seu manifesto, as bases afirmaram que “as chamadas ‘mesas de conversações’ não visam solucionar os problemas da população, mas sim legitimar acordos entre o governo e uma direção que já abandonou há tempos os reais interesses dos trabalhadores”. Para esses setores, não há espaço para endossar iniciativas que busquem enterrar a luta e negociar às custas do sangue dos que faleceram no conflito.
Os grupos organizados de El Alto demandam a liberação imediata de todos os detidos por seus atos de resistência e o fim da perseguição política, enfatizando que “nossa dignidade não é negociável” e “não se negocia com nossos mortos”. As bases convocaram sindicatos combativos, estudantes e distritos a se unirem na organização desde suas origens, rejeitando a burocracia sindical e defendendo uma saída independente para os trabalhadores. O clamor é por unidade tanto no campo quanto nas cidades, exigindo uma greve geral até que as reivindicações populares sejam atendidas.
Capitulação da cúpula sindical
O acordo assinado na madrugada do dia 20 de junho entre o governo reacionário de Rodrigo Paz e a direção da COB, liderada por Mario Argollo, buscou desmantelar um movimento que havia realizado mais de 50 dias ininterruptos de greves e bloqueios, afetando sete dos nove departamentos bolivianos. A nota divulgada pelas bases organizadas critica os dirigentes da COB por nunca terem implementado mecanismos democráticos reais para decidir o caminho da luta. “Não lutamos por migalhas; lutamos por uma Bolívia digna e soberana ao serviço dos que geram a riqueza deste país”, destacam.
O documento prevê um período de 90 dias como uma suposta “trégua” com o governo, sem assumir compromissos concretos sobre questões como crise econômica ou melhorias salariais. Entre os pontos mencionados na nota oficial divulgada pela imprensa governamental está a promessa do Executivo em não criminalizar protestos, evitar perseguições a líderes sindicais e criar uma comissão bipartidária para revisar a libertação dos detidos durante as manifestações. Ademais, o governo se comprometeu a não privatizar empresas públicas essenciais e evitar entregar recursos nacionais a interesses privados estrangeiros, em uma tentativa de mitigar o descontentamento popular que clamava por mudanças estruturais significativas no país.
Contrariando todas as solicitações dos manifestantes, o acordo não assegura a libertação imediata de nenhum prisioneiro político, mesmo sendo essa uma condição primordial para qualquer negociação conforme exigido pelas mobilizações. De fato, a liderança da COB concedeu ao governo tempo suficiente para se reorganizar politicamente. O acordo também não revoga as medidas de austeridade previamente implementadas. Com isso, Rodrigo Paz, em conluio com a COB, agora tem liberdade para avançar com sua agenda enquanto o movimento popular sofre sob essa ofensiva imobilista.
A manobra da liderança da COB ignorou intencionalmente organizações como a Federação Tupac Katari e a Confederação Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), que não foram incluídas no processo negocial. A mudança na postura de Mario Argollo – passando do discurso assertivo sobre “Bolívia não se vende” à submissão ao diálogo – provocou revolta nas organizações base. Vicente Salazar, líder da Túpac Katari, denunciou abertamente que os líderes da COB traíram a causa: “Todos se venderam. Nenhum líder nacional é digno. A COB perdeu sua credibilidade”, declarou Salazar.
A decisão da direção da COB em desmobilizar e dividir o movimento foi rapidamente aproveitada pelo governo. Assim que ganhou espaço para manobras políticas, o Poder Executivo declarou um “estado de emergência”, expandindo os poderes repressivos do velho Estado. A intenção do governo é utilizar esse estado excepcional para recuperar sua autoridade frente aos novos protestos e reprimir aqueles setores que continuam mobilizados. Paralelamente, foi aprovada pelo governo a lei 1742, que altera normas penais com o objetivo de facilitar operações encobertas.
A repressão ao movimento popular boliviano ocorre sob vigilância direta do imperialismo americano (EUA) e governos locais reacionários. Durante a 56ª Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o presidente panamenho José Raúl Mulino afirmou que a Bolívia enfrenta uma “campanha deliberada de desestabilização” e ofereceu apoio ao governo Rodrigo Paz através do envio de uma comissão. O imperialismo americano também classificou os bloqueios como uma “grave ameaça à democracia” (que significa seu domínio), alegando que “uma minoria violenta tenta ignorar a vontade expressa pela maioria dos bolivianos nas últimas eleições”.
Ofensiva do latifúndio e do grande capital
No bicentenário da Polícia, Paz declarou que sob pretexto de “reivindicações sociais”, o país enfrenta uma “lógica política narcoterrorista”, segundo ele infiltrada nos protestos. O Comitê Pró-Santa Cruz anunciou ações judiciais contra os organizadores dos bloqueios exigindo identificação e punição aos manifestantes mais ativos. Em um vídeo divulgado à mídia, Stello Cochamanidis, presidente do comitê afirmou: “Decidimos abrir processos contra cada um dos líderes”, alegando prejuízos superiores a 3 bilhões de dólares.
A Câmara Nacional de Exportadores (Caneb) junto à Câmara Agrícola de Cochabamba (CAC) pressionam o governo para impor sanções às organizações populares. A Caneb argumenta que apenas restabelecer livre trânsito é insuficiente; exige ainda identificação judicial daqueles considerados “organizadores e financiadores” das manifestações disruptivas argumentando que tal paralisia econômica causada pela revolta é insustentável.
A Câmara Agrícola de Cochabamba foi mais longe ao solicitar ao Legislativo criação de uma “Lei Antibloqueio” para prevenir futuras mobilizações sociais. Este setor agroexportador também demanda linhas preferenciais de financiamento com juros variando entre 0,5% até 3% anuais além de condições estendidas para recuperação financeira após perdas estimadas em mais de 2,8 bilhões dólares segundo cálculos do governo. Os discursos dessa elite ignoram completamente as condições degradantes enfrentadas pelos camponeses e trabalhadores responsáveis pelos bloqueios nas estradas.
