O candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), alocou R$ 200 mil em emendas parlamentares destinadas a Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, um paramilitar condenado pela sua participação na execução sumária da ativista e vereadora Marielle Franco. Essa informação foi revelada em uma investigação realizada pela Polícia Federal (PF) que teve início em julho.
A negociação da emenda ocorreu em 2023 entre Robson Calixto e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar do gabinete de Flávio, com o propósito alegado de financiar um “projeto esportivo” promovido por Calixto. No entanto, a PF levantou suspeitas sobre a possibilidade de que os recursos tivessem sido desviados.
As conversas realizadas por meio do aplicativo WhatsApp foram analisadas pela PF após o início das apurações. As mensagens sugerem que Maria de Fátima e Calixto estavam facilitando a comunicação entre Flávio Bolsonaro e Chiquinho Brazão, então deputado estadual do Rio de Janeiro e considerado mandante do assassinato de Marielle.
Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em fevereiro deste ano a nove anos de prisão e à perda do cargo de policial militar reformado, devido ao seu papel na mediação entre os executores do crime e os mandantes, os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão. O assassinato de Marielle ocorreu em 2018, junto com seu motorista Anderson Gomes, pouco antes da intervenção militar federal no Rio de Janeiro.
Durante as trocas de mensagens, Maria de Fátima indaga se “Peixe” estava com Chiquinho Brazão. Após receber uma resposta afirmativa, ela enviou convites para um evento policial no Rio, onde poderia “reforçar o pedido com o senador”. A PF destacou que o evento tinha como objetivo a entrega de 396 coletes para a Polícia Militar e seria utilizado para aumentar as solicitações relacionadas ao suposto “projeto esportivo”.
Verba destinada a empresa suspeita
Após o evento mencionado, Flávio transferiu R$ 199.999,79 ao Ministério do Esporte para que fosse repassado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), supostamente para um programa chamado “Jogadores do Futuro”, localizado no bairro Taquara, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
No entanto, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU) datado de 2025 indicou que esses recursos foram desviados. A gestão do projeto foi atribuída à empresa Romulo Alves – Sociedade Individual de Advocacia, que pertence a José Rômulo Oliveira Alves, presidente do IFOP.
Além disso, foi registrado o envio de R$ 399.128 por meio de uma “emenda Pix” para o município de Barra do Piraí, como parte da Emenda Parlamentar n° 92190012 proposta por Flávio Bolsonaro, que incluía o IFOP entre os beneficiários.
Relação entre assessora e paramilitar envolve troca de favores
No início de janeiro de 2024, a assessora de Flávio voltou a contatar Robson Calixto para solicitar ingressos para um camarote durante o desfile das campeãs do Carnaval carioca.
Maria De Fátima perguntou: “Será que consegue quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador?” O paramilitar então pediu os ingressos a uma terceira pessoa.
Cinco dias depois, às 8h11 da manhã, Maria agradeceu pelos ingressos recebidos e confirmou que foram entregues conforme solicitado. A PF não revelou quem utilizou os ingressos no evento na Sapucaí.
Em março de 2024, Calixto fez uma nova solicitação relacionada às emendas: “Consultamos as destinações parlamentares e não havia nada do nosso Senador”, expressou ele em tom exigente. Até o momento, não existem registros disponíveis sobre respostas fornecidas pela PF.
A defesa de Flávio Bolsonaro apenas declarou que o repasse dos recursos públicos ao paramilitar seguiu todas as normas legais vigentes e ressaltou que a responsabilidade pela utilização dos recursos é da entidade beneficiária e não do parlamentar.
Contudo, a equipe dele não se pronunciou sobre sua relação com Calixto nem sobre as trocas de favores ocorridas, sugerindo que essas questões deveriam ser investigadas pelos “órgãos competentes”, evitando aprofundar-se na situação.
