No dia 14 de setembro, os primeiros-ministros da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte formalizaram um pedido para que o Reino Unido reconheça a validade dos referendos sobre a independência de suas nações. O documento, que foi assinado em Cardiff, a capital galesa, destaca que “o tempo de Westminster está se esgotando”, referindo-se ao Parlamento britânico localizado em Londres. Juntos, esses três países, juntamente com a Cornualha, fazem parte das nações celtas que foram colonizadas pela Inglaterra desde o século X e posteriormente integradas ao que conhecemos como “Reino Unido”.
O ato contou com a assinatura de Rhun ap Iorwerth, primeiro-ministro do País de Gales pelo partido Plaid Cymru, além de John Swinney do SNP escocês e Michelle O’Neil do Sinn Fein da Irlanda. Apenas o País de Gales não estipulou uma data específica para a realização do referendo.
Esse não é um tema novo na política britânica. Em agosto, Andy Burnham, primeiro-ministro do Reino Unido, fez sua primeira visita à Irlanda do Norte e foi interrogado sobre a possibilidade de um referendo visando a reunificação da Irlanda, que está dividida desde 1921 devido à colonização britânica. Ele respondeu que essa questão estava “fora de cogitação”.
A Ação Anti-Imperialista da Irlanda (AIA) criticou a negativa de Burnham, afirmando que ela revela uma contradição fundamental na estratégia reformista voltada à libertação nacional. A organização denunciou que “nas últimas três décadas o povo irlandês tem sido enganado” por promessas vazias de referendos populares nunca realizados. Segundo eles, foi dito ao povo que gerenciar o controle britânico seria mais eficaz do que confrontá-lo diretamente.
Além disso, a AIA argumenta que partidos considerados “reformistas”, como o Sinn Fein, não têm capacidade para acabar com a dominação britânica. Eles sustentam que as estratégias desses grupos permanecem limitadas por parâmetros estabelecidos pelo Estado britânico e exigem uma reflexão honesta por parte dos oportunistas e seus apoiadores.
Subjugação semicolonial
A AIA frequentemente critica a continuidade da opressão econômica e militar do Reino Unido sobre toda a ilha da Irlanda. Isso ocorre mesmo sob a fachada do chamado “Estado Livre”, um termo utilizado para descrever uma independência apenas formal da “República da Irlanda”.
Atualmente, cerca de 90% da carne produzida na Irlanda é exportada para fora do país. Deste total, impressionantes 63% são destinados ao mercado britânico — embora esse número tenha caído de 80%, em função da concorrência da carne proveniente da agroindústria sul-americana, especialmente brasileira. Essa situação acentua a crise agrícola irlandesa. Os restantes 23% são enviados para outros países da União Europeia. Esses dados são provenientes da Meat Industry Ireland (MII).
Ainda há uma dependência significativa da Irlanda em relação ao aço inglês para o funcionamento de sua indústria — predominantemente focada no setor farmacêutico — já que o país não possui capacidade interna para refinar ferro em aço. Como consequência dessa vulnerabilidade industrial, os estaleiros ingleses e alguns europeus são essenciais para manter sua reduzida frota naval.
A fraqueza naval irlandesa é clara: atualmente, a Marinha britânica controla as águas irlandesas. Essa vigilância é vista como uma nova forma de dominação semicolonial. Com a implementação de tarifas comerciais elevadas entre o Reino Unido e a União Europeia — chegando até 50% — as dificuldades econômicas tendem a se intensificar ainda mais.
Reconhecimento dos limites pela liderança pró-britânica
As reclamações sobre os baixos repasses orçamentários enviados pelo Reino Unido à Irlanda do Norte não são novas. Até mesmo Jon Burrows, líder do Partido Unionista do Ulster e defensor das políticas britânicas na região, admitiu problemas orçamentários existentes, embora tenha atribuído tais questões a gastos considerados “irresponsáveis”.
No entanto, até agora o Parlamento britânico ainda não definiu o orçamento oficial para os seis condados irlandeses sob ocupação para o ano fiscal de 2026/27. Na sua visita ao País de Gales, Burnham também enfrentou pressões referentes à necessidade de um orçamento mais robusto.
Jovens clamam por independência
A luta pela independência escocesa, galesa e irlandesa parece encontrar forte ressonância entre os jovens adultos dessas regiões. Estudos recentes indicam que entre aqueles com idades entre 18 e 24 anos existe uma disposição crescente para se desvincular do Reino Unido.
Uma pesquisa realizada pela Survation em agosto mostrou que 52% dos escoceses estão favoráveis à separação do Reino Unido; entre os jovens dessa faixa etária essa porcentagem salta para impressionantes 77%. Isso é significativo já que representa indivíduos nascidos após a criação do Parlamento escocês em 1999. Entre aqueles com idades entre 25 e 34 anos, 76% também apoiam essa causa em comparação aos apenas 24% favoráveis à permanência no Reino Unido.
Por outro lado, no dia 22 de setembro, o parlamento escocês aprovou uma moção afirmando por ampla maioria (84 votos contra 18) que “a Escócia é uma nação com direito à autodeterminação”.
No País de Gales também se observa essa inclinação jovem pela independência; conforme dados da Survation, 59% dos galeses jovens entre 18 e 24 anos defende romper laços com Westminster.
Uma pesquisa conduzida pela Lucid Talk/Sunday Times revelou que 57% dos jovens nessa mesma faixa etária estão inclinados à reunificação da Irlanda e emancipação em relação ao Reino Unido. A pesquisa ainda identificou um aumento significativo no número de pessoas que se consideram apenas irlandesas ou oriundas do norte da Irlanda (Ulster), sem qualquer vínculo ideológico com a colonização britânica; assim apenas 15% desse grupo se identifica como lealista à coroa britânica.
No entanto, essa identificação lealista parece prevalecer entre as gerações mais velhas: aproximadamente 41% dos idosos não se consideram irlandeses mas sim britânicos; entre eles, 43% se veem como lealistas.
A luta pela libertação sob liderança proletária
Os Socialistas Republicanos Irlandeses enfatizam particularmente qual deve ser o conteúdo dessa luta pela libertação nacional. Em sua declaração alusiva ao Ano-Novo de 2026, eles estabeleceram um vínculo indissolúvel entre libertação nacional e revolução socialista: destacaram que essa primeira continua sendo uma prioridade fundamental para todos os verdadeiros revolucionários irlandeses. Assim posicionaram suas organizações — como a AIA — na vanguarda dessa luta tanto por Libertação Nacional quanto por Revolução Socialista.
Os revolucionários acreditam que somente através da substituição da antiga ordem será possível estabelecer uma República Popular composta por todos os 32 condados “sob controle democrático da classe trabalhadora”; portanto, defendem que a emancipação nacional vai além das simples alterações territoriais ou institucionais existentes; requer efetivamente direção proletária e conquista real do poder político.
