No dia 27 de setembro, uma agricultora teve um mal-estar e necessitou de atendimento médico em uma ambulância após confrontar o responsável por aplicar agrotóxicos nas proximidades do Assentamento Varões de Deus, localizado em Porto Velho (RO). As famílias da região registraram uma máquina realizando a aplicação de venenos na soja, a poucos metros de suas residências e plantações. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) tornou públicas as imagens e relatos no dia 30 de setembro.
A CPT acusa o uso de agrotóxicos como estratégia para forçar as 168 famílias a abandonarem uma área que considera terra pública, situada perto da estrada Expresso Porto. A organização também menciona que o proprietário da terra utiliza métodos intimidatórios, como a presença de homens armados, além de ter aberto, no mês de junho, uma vala entre as propriedades para direcionar água e produtos químicos das lavouras. Essa estrada é uma obra federal destinada ao transporte da soja até os portos graneleiros do Madeira.
Apesar das pressões enfrentadas, os habitantes do Varões de Deus permanecem em suas terras e cultivam alimentos. Um morador comentou à CPT: “nós temos muitas famílias cuidando e trabalhando em cima da terra, para que a cidade não perca o seu alimento”.
Expansão do latifúndio na AMACRO
Entre 2023 e 2024, houve um aumento de 54% nos casos de contaminação por agrotóxicos em Rondônia, conforme dados da CPT. No relatório divulgado em maio de 2025, Neia, uma agricultora da comunidade Triunfo em Candeias do Jamari, afirmou que a pulverização aérea tem impossibilitado as famílias de trabalharem: “não estamos mais conseguindo trabalhar por causa da pulverização de avião”, relatou.
Para a safra 2024/2025, a Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril do Estado de Rondônia (Idaron) projetava cerca de 687 mil hectares dedicados ao cultivo da soja no estado. Uma pesquisa publicada na Revista de Política Agrícola entre 2017 e 2021 indicou que a soja foi o principal destino dos agrotóxicos comercializados em Rondônia. Os pesquisadores alertam que essa expansão agrícola afeta áreas protegidas e territórios indígenas.
Porto Velho faz parte da AMACRO, uma região que se destaca pela expansão do latifúndio agroexportador nas áreas onde se encontram os estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Um estudo publicado na Revista NERA revelou que entre 2018 e 2021 houve um crescimento de 82% na área plantada com soja nos municípios analisados. Nos 12 municípios rondonienses incluídos nessa pesquisa, o aumento foi registrado em 69% dos casos.
A primeira reunião sobre a criação da AMACRO com foco na produção do latifúndio ocorreu em 2019 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Em 2025, a CPT registrou um total de 195 conflitos no campo em 27 municípios dessa fronteira, onde 186 desses casos diziam respeito a disputas por terras. Entre as formas documentadas de violência constam ameaças de expulsão (69 ocorrências) e incidentes relacionados à pistolagem (26 casos).
Maranhão: veneno para expulsar comunidades
No Maranhão, o Mapa do Veneno registrou 255 notificações relacionadas à pulverização contra comunidades em 33 municípios entre janeiro e junho de 2026. O levantamento foi realizado pela Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama), junto com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão (Fetaema) e pelo Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (Lepeng/UFMA), utilizando denúncias comunitárias e dados coletados por equipes no campo.
Dentre as comunidades afetadas, 38 foram alvo mais de uma vez. O relatório documentou um total de 46 ataques repetidos e incluiu relatos sobre adoecimento, perda nas colheitas agrícolas, contaminação das fontes hídricas e envenenamento dos babaçuais. Os pesquisadores destacam que o medo das represálias e as pulverizações noturnas dificultam ainda mais os registros dessas ocorrências, sugerindo que os números correspondem apenas a uma fração da violência efetivamente vivenciada.
A intenção clara de desalojar moradores já havia sido denunciada no povoado Carranca, localizado em Buriti (MA). Em uma matéria veiculada pela Agência Pública e pela Repórter Brasil em 2021 e reproduzida por AND, o camponês Vicente de Paulo Costa Lira relatou ter sofrido ameaças por parte dos funcionários ligados aos sojeiros: “iam colocar o veneno pior que eles tivessem na porta da minha casa pra que eu não suportasse e desocupasse a área”.
Roças e água sob ataque
A aplicação indiscriminada dos agrotóxicos compromete não apenas as roças mas também sustenta diretamente as famílias que habitam essas terras. Quando os venenos contaminam fontes hídricas, prejudicam o consumo humano, afetam os animais locais e comprometem futuras plantações. O avanço do latifúndio intensifica a pressão sobre os territórios camponeses ao destruir as condições necessárias para viver e produzir nessas áreas.
Nos quilombos Cocalinho e Guerreiro localizados em Parnarama (MA), o Mapa de Conflitos elaborado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) relaciona o crescimento das monoculturas — incluindo soja, milho e eucalipto — à grilagem das terras, obstrução da circulação dos residentes locais além das denúncias referentes à contaminação das águas prejudicando cultivos tradicionais. As aplicações químicas se somam às cercas impostas pelos proprietários rurais e tentativas frequentes de despejo contra comunidades que ocupam essas áreas há gerações. Apesar dessas comunidades terem sido certificadas como remanescentes quilombolas em 2015, aguardam desde abril de 2025 pela delimitação por parte do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), conforme indicado pelo levantamento.
Uma pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva em dezembro de 2024 revelou a presença de 22 ingredientes ativos encontrados nos agrotóxicos nas amostras coletadas nas comunidades Guarani Kaiowá Retomada Guyraroká e Aldeia Jaguapiru em Mato Grosso do Sul. As coletas realizadas entre 2021 e 2022 abrangeram fontes hídricas como nascentes, rios além das chuvas coletadas para abastecimento. Embora as concentrações identificadas estivessem abaixo dos limites estabelecidos pela legislação brasileira considerada pelo estudo técnico realizado pelos autores da pesquisa ressaltam os riscos associados à exposição simultânea a diferentes produtos químicos.
