Em declarações ao jornal A Nova Democracia (AND), residentes do Siderlândia, em Barra Mansa (RJ), relataram que continuam a enfrentar erosões, danos em suas residências e promessas de apoio que não foram cumpridas. Os depoimentos foram obtidos após a abertura de um buraco na Rua Gabriel Gonçalves de Brito, ocorrida em setembro. Entre os moradores que falaram com a reportagem está o pai de Maria Eduarda dos Reis Norberto, uma menina de 5 anos que perdeu a vida em um deslizamento em fevereiro, além da artesã Margarida, de 62 anos, que sofreu ferimentos ao cair na erosão.
Deslizamento e tragédia familiar
No dia 9 de fevereiro, um deslizamento atingiu uma residência na Rua A, no bairro Siderlândia, soterrando membros da mesma família. Maria Eduarda faleceu no dia seguinte ao incidente. A Defesa Civil local registrou 63 ocorrências relacionadas à chuva em Barra Mansa, resultando na decretação do estado de emergência. Antes da tragédia, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já havia alertado sobre o risco elevado de deslizamentos na área entre Volta Redonda e Barra Mansa, especialmente em encostas vulneráveis.
Os problemas enfrentados pelo bairro não eram novidade. Em janeiro de 2023, profissionais do Departamento de Recursos Minerais do Estado inspecionaram locais críticos no Siderlândia após deslizamentos; a Defesa Civil apontava pelo menos sete áreas preocupantes. Em março do mesmo ano, moradores da Rua Gabriel Gonçalves de Brito reportaram fissuras e afundamentos em mais de dez casas, alegadamente ligadas ao vazamento de uma tubulação antiga. Um residente relatou que um engenheiro contratado recomendou a demolição de sua casa devido ao risco iminente de desabamento. Esses relatos demonstram a continuidade das advertências feitas pela comunidade.
A nova ameaça se manifestou com as chuvas em abril. Nos dias 2 e 3 daquele mês, Barra Mansa registrou um acúmulo de 160,9 milímetros em apenas 24 horas, conforme dados da Defesa Civil. Durante esse período chuvoso, ocorreram alagamentos e três deslizamentos; felizmente, sem vítimas fatais. Moradores entrevistados pela correspondência do AND afirmaram que durante as emergências precisaram se apoiar mutuamente enquanto aguardavam por socorro e soluções definitivas para as questões do bairro.
Demandas por reparos e assistência
Julio Cesar, pai da pequena Maria Eduarda, relatou ao AND que após a perda da filha não recebeu o suporte necessário para sua família. Ao invés do aluguel social esperado, foi proposto um auxílio único de R$ 1 mil – quantia considerada insuficiente para reparar os danos à sua residência. Ele compartilhou suas dificuldades emocionais e financeiras após o desastre, incluindo um empréstimo no valor de R$ 15 mil e a venda do seu carro por apenas R$ 1 mil.
Outra família preferiu manter-se anônima e afirmou que embora a prefeitura tenha retirado lama das ruas afetadas, as reformas estruturais essenciais ainda não foram realizadas. Os entrevistados mencionaram promessas referentes ao aluguel social e compensações pelos bens perdidos que nunca chegaram até eles.
Em setembro recente, novas chuvas abriram outro buraco na Rua Gabriel Gonçalves de Brito. Margarida relatou à reportagem que se machucou no local e um dos seus netos também caiu; outra moradora o ajudou a evitar uma queda mais grave. A artesã mencionou ter conseguido uma reunião com o prefeito Luiz Furlani, mas saiu sem respostas concretas sobre os problemas vivenciados no bairro. Após uma intervenção no buraco mencionado, os moradores relataram que entulhos foram deixados na via.
Os moradores expressaram sua frustração com a sensação de abandono das áreas periféricas em comparação às regiões centrais de Barra Mansa. Apesar disso, destacaram a solidariedade entre vizinhos durante os períodos críticos. Margarida enfatizou a importância da mobilização comunitária para exigir medidas efetivas e vinculou sua experiência às críticas à democracia superficial e ao processo eleitoral atual.
Desafios estruturais exigem soluções orçamentárias
A situação enfrentada pelo Siderlândia reflete um padrão preocupante no estado do Rio de Janeiro. Informações coletadas pelo Instituto Água e Saneamento revelam que há 1.144 residências suscetíveis a inundações em Barra Mansa; somente 31,7% das ruas urbanas possuem sistemas subterrâneos adequados para drenagem das águas pluviais. Em outubro deste ano, o Cemaden voltou a emitir alertas sobre riscos potenciais de deslizamentos nas áreas entre Volta Redonda e Barra Mansa. A professora Franciele Zanandrea da Universidade Federal Fluminense destaca que fatores como drenagem inadequada, condições do solo e ocupação irregular influenciam severamente os danos causados por chuvas intensas.
A pressão exercida pelos moradores deve resultar em ações concretas com financiamento adequado. A proposta orçamentária da prefeitura para 2026 estima despesas totais em torno de R$ 940 milhões. Contudo, apenas R$ 1,389 milhão estão alocados para obras específicas relacionadas à rede pluvial municipal sem qualquer menção direta aos investimentos necessários para drenagem ou contenção no Siderlândia. Embora intervenções pontuais tenham sido anunciadas anteriormente para a rede pluvial do bairro, os relatos recentes reafirmam que os cidadãos continuam exigindo uma solução efetiva para as suas ruas e residências danificadas.
