
As guerras são frequentemente vistas como conflitos por dominação, território e interesses estratégicos. Contudo, há uma faceta menos visível — e muitas vezes desconfortável — que pode afetar decisões cruciais: o perfil psicológico dos líderes envolvidos. Em meio às tensões com o Irã, uma análise provocativa surge: até que ponto a “fúria épica” mencionada poderia ser considerada uma forma de “fúria narcísica”? Embora não seja viável diagnosticar alguém apenas com base em suas ações sem uma avaliação adequada, é possível observar que Trump apresenta, ao menos, características narcisistas. De um magnata do setor empresarial a um apresentador de reality show, ele ascendeu à presidência da nação mais influente do planeta. No entanto, suas escolhas agora têm repercussões que vão além de sua esfera pessoal ou de negócios, impactando o mundo inteiro.
Durante o mandato de Donald Trump, a abordagem dos Estados Unidos em relação à política externa variou entre decisões estratégicas bem pensadas e reações influenciadas por aspectos pessoais. A decisão de romper com o acordo nuclear com o Irã, a implementação da estratégia de “máxima pressão” e, principalmente, a ação que resultou na morte do general Qasem Soleimani não se restringiram apenas ao campo das táticas. Esses atos também carregaram um simbolismo forte, demonstrando poder e, segundo alguns especialistas, uma dimensão de afirmação pessoal.
Um aspecto marcante no estilo de liderança de Trump foi sua dificuldade em lidar com críticas ou opiniões divergentes. Organizações tradicionais como a OTAN tornaram-se alvos frequentes de suas dúvidas; instituições multilaterais perderam importância; e figuras de autoridade moral, como o Papa Leão XIV, foram desafiadas diretamente. Em várias ocasiões, o cenário global pareceu ser reduzido a uma visão simplificada entre amigos e inimigos — uma interpretação binária para um mundo que raramente se apresenta dessa forma: “quem está contra mim é meu inimigo”. Nesse cenário, o conceito de “fúria narcísica”, oriundo da psicanálise, fornece uma perspectiva interessante. Ele descreve reações intensas quando a autoimagem é considerada ameaçada — respostas que podem não ser irracionais, mas costumam ter uma intensidade exagerada. Quando aplicado à política, esse conceito ajuda a entender decisões apressadas, demonstrações ostentosas de poder e a alternância entre confrontos diretos e tentativas de diálogo.
É importante ressaltar que isso não significa negligenciar os fatores tangíveis que influenciam qualquer conflito: interesses estratégicos, pressões internas e rivalidades regionais continuam sendo elementos fundamentais. No entanto, ignorar o aspecto humano — com suas vaidades e emoções — pode empobrecer a análise. Afinal, por trás de cada decisão estão pessoas. E em determinados momentos, compreender quem está por trás das decisões pode ser tão crucial quanto entender as dinâmicas do próprio conflito.
Analice Gigliotti possui mestrado em Psiquiatria pela Unifesp (CRM 5249669-2 e RQE 21502); é professora na PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.
