No dia 4 de maio, o governo de Luiz Inácio (PT) revelou a nova edição do programa “Desenrola Brasil”, que visa a transferência de recursos públicos para instituições financeiras com o objetivo de facilitar o parcelamento das dívidas da população. Atualmente, 80,4% das famílias brasileiras enfrentam problemas de endividamento, conforme dados da Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo.
A iniciativa rapidamente conquistou o apoio de líderes do setor financeiro. Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú, havia criticado a versão anterior do programa em 2023, considerando-a um “risco moral” por facilitar o pagamento dos devedores e estimular novos empréstimos. Naquele momento, cerca de 77,6% das famílias estavam com dívidas em atraso.
No entanto, com o aumento da inadimplência para mais de 80%, Maluhy Filho alterou sua posição e declarou que não há um momento específico para iniciar um novo programa, enfatizando a urgência da situação. A justificativa para essa pressa é clara: os valores “descontados” dos cidadãos endividados serão direcionados aos bancos credores.
Para a maioria da população brasileira – composta por trabalhadores assalariados, agricultores e pequenos proprietários –, a proposta que promete “reduzir dívidas” na prática resulta em um maior número de parcelas a serem pagas. Isso inclui uma taxa de juros máxima que pode chegar a 1,99% ao mês.
A quantia que será “adiada” para os bancos varia conforme o tipo de crédito e as condições de pagamento. No caso do crédito rotativo, onde os gastos superam o limite da fatura bancária, é possível adiar entre 40% e 90% do valor. Para dívidas originadas em empréstimos pessoais, esse adiamento pode variar entre 30% e 80%.
O programa se destina a débitos com até dois anos de atraso e abrange apenas famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos ou R$ 8.105. Contudo, esse valor está no limite considerado mínimo para garantir uma vida digna, que deve incluir acesso a alimentação adequada, moradia adequada, lazer, educação e trabalho.
Conforme informações do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), os valores necessários para garantir uma vida digna variam entre R$ 5 mil até R$ 8 mil mensais.
Expectativa de aumento no endividamento
Em vez de apresentar soluções efetivas para a questão da dívida crescente entre os brasileiros, Luiz Inácio afirmou que “é ótimo querer adquirir bens”, mas ressaltou que as pessoas devem estar cientes das suas capacidades financeiras ao contrair dívidas, insinuando uma responsabilidade individual pelo estado atual das finanças pessoais.
Na prática, a proposta do governo federal não traz melhorias significativas ao salário mínimo atual – considerado insuficiente para atender às necessidades básicas – nem aos insumos essenciais para garantir uma vida digna.
Os brasileiros enfrentaram um aumento nos preços dos alimentos em impressionantes 162% entre 2012 e 2024. Dados do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas indicam que somente em 2025 houve uma alta adicional nos preços alimentícios de até 3,7%.
As condições habitacionais também têm sido severamente impactadas. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) revela um crescimento no preço dos imóveis em 54,1% entre os anos de 2016 e 2025.
A situação é ainda mais alarmante quando se considera que 54% dos inquilinos não contam com renda fixa. Segundo o Anuário sobre Aluguéis da FC Análise, cerca de 60% das famílias que ganham entre R$ 2.500 e R$10.885 comprometem até 60% da sua renda apenas com despesas relacionadas à moradia.
A Taxa Selic também contribui para agravar as dificuldades financeiras da população brasileira ao atingir os 14,5% ao ano. Essa taxa não melhora as condições de vida dos cidadãos comuns; pelo contrário, beneficia os investidores financeiros que possuem títulos da Dívida Pública brasileira e lucram com a deterioração das condições sociais do povo.
