Habitantes de Três Moinhos criticam ações higienistas e anti-populares da administração municipal de Juiz de Fora

Após as fortes chuvas que ocorreram entre o final de fevereiro e o início de março de 2026, a comunidade do bairro Três Moinhos, em Juiz de Fora, enfrenta sérios danos estruturais e incertezas quanto à habitabilidade das moradias locais.

A cobertura local da AND tem documentado a luta incessante dos residentes, que se esforçam diariamente para permanecer em suas casas.

As maiores perdas foram registradas na periferia da cidade, especialmente na área conhecida como “Margem Direita” do Rio Paraibuna, abrangendo bairros como Parque Burnier, Grajaú, Vitorino Braga, Linhares e, em particular, Três Moinhos. Apesar da gravidade da situação nas áreas periféricas, a Prefeitura direcionou recursos para obras e manutenção nos bairros centrais e mais abastados, como São Mateus, Paineiras e Bom Pastor, enquanto os bairros operários e favelas continuam sem atenção adequada por parte da PJF.

Despejos e promessas não cumpridas pelo estado

Durante esse período conturbado, a promessa de um auxílio de apenas vinte mil reais foi feita a diversos moradores do Três Moinhos para cobrir despesas relacionadas aos despejos e garantir abrigo aos desalojados. Entretanto, até agora esse valor não foi repassado. Vários moradores afirmam que restaram apenas o despejo e a interdição injusta de suas residências, afetando dezenas de famílias.

Apesar das dificuldades no Três Moinhos, muitos moradores estão retornando às suas casas rapidamente para proteger o pouco que conseguiram ao longo dos anos contra os assaltos que ocorrem na região. Eles também afirmam que a condição do bairro não é o “fim do mundo”, como a Defesa Civil e a Prefeitura alegam para justificar sua falta de ação. Os habitantes relatam um abandono sistemático do bairro: segundo eles, raramente recebiam apoio da Prefeitura.

Muitos compararam sua situação com a do bairro Paineiras, localizado na área central da cidade. Nesse local, residências estiveram sob risco de deslizamento devido ao Morro do Cristo — uma ameaça bem mais séria — e mesmo assim não houve interdições totais ou cortes generalizados no abastecimento de água. Uma moradora expressou em entrevista à AND:

— Aqui é favela de pobre e lá é “favela chique”, lá é alto de morro mas mora o pessoal rico, e aqui é alto de morro também mas somos pobres, mas nós também pagamos impostos. Está tendo essa discriminação sim. […] Lá eles recebem apoio, aqui a gente é obrigado a sair.

Organização comunitária diante das promessas vazias

Diante dessa realidade adversa, os moradores do Três Moinhos têm se mobilizado por meio de diferentes grupos e iniciativas para enfrentar as dificuldades após a calamidade. Um dos esforços inclui um comitê local em parceria com o jornal A Nova Democracia, além de outros ativistas democratas que oferecem suporte ouvindo as demandas da comunidade e participando de reuniões baseadas nas necessidades locais. Esses ativistas também se organizam para fornecer medicamentos aos moradores necessitados.

Reuniões comunitárias e manifestações têm sido as principais estratégias usadas pelos residentes para denunciar o descaso institucional em relação ao bairro, conforme já foi relatado anteriormente.

Recentemente, entre os dias 20 e 21 de junho (sábado e domingo), ativistas solidários confeccionaram uma faixa com os dizeres: “Abaixo a Prefeitura higienista!” e “O Três Moinhos é do povo!”. A faixa foi posicionada no muro da Escola Municipal Antônio Faustino, voltada para a Rua Diva Garcia — principal ligação entre o bairro e a cidade — mas foi rapidamente retirada.

Corte de água afeta idosos e famílias vulneráveis

A interrupção no fornecimento de água e a remoção dos hidrômetros resultaram em sérias dificuldades para muitos moradores — especialmente idosos — na busca por água potável. Com isso, as famílias têm enfrentado gastos adicionais com a compra desse recurso ou coletando água manualmente morro abaixo.

Certa família com um membro idoso quase nonagenário tem dependido da ajuda vizinhos para transportar água até sua casa. Outro morador denunciou que o Ministério Público deveria intervir em favor da população para resolver os problemas decorrentes das interdições amplas que afetam até mesmo ruas seguras no bairro. Segundo ele, até agora o MP se limitou a afirmar que os moradores não podem ser despejados à força.

Uma outra família que vive da reciclagem encontra-se completamente isolada no Alto Três Moinhos quatro meses após os desastres naturais.

A Prefeitura ainda não tomou providências para remover lama ou escombros deixados pelas chuvas em março. Muitos postes permanecem enterrados ou sem iluminação adequada nas áreas afetadas, contribuindo para um aumento nos riscos de assaltos nas redondezas.

Além disso, já foi informado aos moradores que há planos para demolir completamente o bairro. O primeiro alvo seria a Escola Municipal Antônio Faustino — reconhecida como um centro vital na comunidade — evidenciando que os interesses da Prefeitura estão mais voltados à demolição do que à reforma ou ao auxílio aos residentes.

Iniciativas individuais na recuperação das ruas

Os próprios habitantes relataram ter reaberto caminhos essenciais para suas residências sem qualquer assistência da Prefeitura. Uma rua inteira coberta por terra foi limpa pelo esforço coletivo dos próprios moradores visando permitir o retorno dos veículos ao local.

Essa situação reflete uma realidade comum em muitos bairros: ou os cidadãos tomam iniciativa própria ou pouco acontece por parte das autoridades competentes.

Dentre os vários residentes que tiveram coragem de voltar para suas casas após as chuvas devastadoras, muitos afirmam não ter recebido nenhum tipo de auxílio prometido pela administração pública — seja aluguel emergencial ou recursos destinados à reconstrução das habitações.

Um proprietário com várias locações na área conhecida como Avenidinha comentou:

— Pra mim, eu acho que tá muito fora. Se fosse R$ 200 mil cada propriedade até passa. Se tem 100 anos que as casas estão no mesmo lugar sem trinca nem nada… O terreno tá quietinho; por que demolir agora?

Ponte insegura representa risco à comunidade

A ponte local enfrenta riscos devido à destruição parcial do seu muro lateral — um fator preocupante especialmente considerando que crianças costumam brincar nas proximidades correndo risco real de cair no córrego adjacente.

Um morador mencionou ao jornal que um idoso quase caiu no córrego onde o muro cedeu recentemente sem qualquer proteção instalada pela Administração municipal.

Nossa visita ao local revelou que não há qualquer tipo de segurança lateral na ponte. As margens já foram tratadas utilizando rip-rap — técnica com sacos compactados para estabilizar solos — demonstrando assim alternativas viáveis e econômicas para melhorar essa infraestrutura tão importante.

Especulação imobiliária abusa dos recursos públicos destinados às vítimas

A calamidade proporcionou uma oportunidade para especuladores imobiliários explorarem a situação vulnerável dos afetados. De acordo com relatos dos moradores, os valores oferecidos como auxílio já não são suficientes nem mesmo para cobrir aluguéis superiores aos R$ 800 exigidos pelas propriedades locais — além disso, muitos requerem três cauções adicionais.

Ainda há outro problema: o subsídio destinado à aquisição de imóveis limitados a R$ 200 mil torna-se inviável na compra sequer nas áreas adjacentes ao centro urbano como Vitorino Braga ou Santa Rita.

Descontentamento popular frente à inação política durante crise

A partir das chuvas ocorridas em dezembro passado até março deste ano ficou evidente uma apatia política por parte das autoridades municipais — tanto pela Prefeitura quanto pela Câmara Municipal. Os R$ 200 mil prometidos são considerados pelos moradores uma solução insuficiente frente às enormes proporções dos danos enfrentados por eles ao longo dos anos devido ao abandono histórico da região.

<pNesse sentido, os cidadãos do Três Moinhos têm se organizado ativamente buscando reivindicar soluções concretas através de ações coletivas inclusive manifestações públicas. Em uma dessas iniciativas foi estendida uma faixa com dizeres: “Sem solução! Menos 2.000 votos!”.

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