Parentes de dançarino falecido em operação policial no Rio organizam homenagem no Complexo do Alemão

Amigos e familiares de Gabriel dos Santos Vieira, um jovem dançarino que faleceu aos 17 anos em 30 de abril de 2025 enquanto se dirigia ao trabalho, estão organizando um ato em sua memória. O evento ocorrerá no próximo sábado, 25 de julho, às 14h, na Estrada Adhemar Bebiano, nº 3006, na entrada das Casinhas, um dos principais acessos ao Complexo do Alemão, situado na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Durante a cerimônia, será inaugurada uma obra do artista Airá Ocrespo em homenagem ao jovem. A escolha deste local foi feita pela família, que deseja que o espaço se torne um memorial permanente e uma denuncia da violência policial que afeta as comunidades das favelas e periferias cariocas.

Convocação para a homenagem

Desde a perda de Gabriel, sua família tem se mobilizado por meio de uma campanha contínua em busca de justiça e lembrança. A inauguração da obra de Airá Ocrespo na entrada das Casinhas será mais um passo nesse esforço.

<pAo fazer o convite à comunidade, Liliane Santos, mãe de Gabriel, destacou que a escolha do local reflete um espaço onde seu filho vivia plenamente, em contraste com Engenho da Rainha, onde ele perdeu a vida.

“Essa data é extremamente significativa. Ele já possui uma homenagem no Engenho da Rainha, mas aquele lugar representa muito mais dor para mim. Este é o espaço onde ele realmente deveria estar”, declarou.

Liliane também fez um apelo à população para que participe da cerimônia, ressaltando a importância de manter viva a memória de Gabriel e denunciar a violência que afetou sua família. “Espero contar com todos que puderem comparecer. Será muito gratificante ter a presença de vocês”, acrescentou.

Airá Ocrespo, responsável pela obra, enfatizou que honrar as memórias das vítimas é essencial para evitar que suas histórias sejam apagadas ou distorcidas após suas mortes. Ele alertou que além do ato brutal de matar, o Estado frequentemente tenta vincular as vítimas ao chamado “crime organizado”, impondo às famílias uma “dor dupla ou tripla”, já que os mortos não podem se defender.

Para Ocrespo, essa homenagem simboliza tanto uma luta por justiça quanto pelo direito à memória e dignidade dos envolvidos.

Contexto do caso

Gabriel dos Santos Vieira tinha apenas 17 anos e trabalhava como dançarino em eventos para ajudar nas despesas familiares. Na noite de 30 de abril de 2025, ele estava a caminho de uma festa de 15 anos pilotando uma motocicleta quando foi atingido por tiros nas proximidades do Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio.

A tragédia ocorreu durante uma ação policial na Estrada Adhemar Bebiano. Conforme relatado pela Polícia Militar, agentes da UPP do Complexo do Alemão tentaram abordar um veículo suspeito; segundo a versão oficial, os ocupantes deste carro dispararam contra os policiais e houve troca de tiros. Gabriel estava na garupa da moto conduzida por Vanderson Ferreira Nascimento Pinto, um homem de 40 anos que também foi ferido durante o incidente.

No mês seguinte à morte do jovem, em fevereiro de 2026, Liliane criticou a morosidade na responsabilização dos culpados pelo crime e comparou sua dor à vivenciada por outras mães que perderam seus filhos devido à violência nas favelas.

“Até quando vamos viver nessa dor? Não sou apenas eu passando por isso. O mesmo aconteceu com Priscilla e Jaqueline. Nossa bandeira está cheia com muitos inocentes. Cada dia essa bandeira vai aumentar?”, questionou ela.

Na mesma ocasião, Jaqueline também denunciou as desigualdades no sistema judiciário frente aos crimes cometidos contra jovens provenientes das classes menos favorecidas. “Se fosse um filho rico envolvido nisso tudo teria sido diferente; mas por sermos pobres não vemos justiça”, afirmou.

A família continua exigindo uma investigação minuciosa sobre as circunstâncias que cercam a morte de Gabriel.

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