Seis anos de silêncio: O mistério de Lichita e a luta pela justiça das meninas Villalba

Seis anos atrás, o Estado paraguaio perpetrava um crime que permanece sem punição. Em 2 de setembro de 2020, na cidade de Yby Yaú, no departamento de Concepción, policiais armados da Força Tarefa Conjunta (FTC) do Exército paraguaio assassinaram duas meninas argentinas, Lilian Mariana Villalba e María Carmen Villalba, ambas com apenas 11 anos. Durante a mesma operação violenta, outras três crianças de 14 anos foram cercadas e alvejadas, resultando no desaparecimento forçado de Carmen Elizabeth Villalba, conhecida como Lichita. A tragédia marca seis anos de encobrimentos e mentiras oficiais sobre a brutalidade cometida contra jovens pelo velho Estado.

A história do crime remonta a dezembro de 2019, quando as meninas viajaram da Argentina ao Paraguai para visitar familiares. Desde então, elas eram vigiadas por uma unidade militar que combate o Exército do Povo Paraguaio (EPP). No dia fatídico, o acampamento onde estavam foi atacado pelas forças repressivas. O ataque resultou na morte de Lilian e María Carmen Villalba. Exames forenses revelaram que os soldados dispararam seis vezes em uma das crianças e duas vezes na outra, fazendo-as cair com o rosto no chão — evidências claras de execução sumária enquanto tentavam fugir do cerco. As meninas eram oriundas da província argentina de Misiones e tinham pouco contato com familiares exilados no Paraguai devido à constante perseguição estatal a parentes associados ao EPP.

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A equipe de inteligência identificou o local onde as garotas estavam abrigadas fora das zonas de combate antes do ataque. Após a execução das crianças, os soldados incineraram suas roupas e vestiram-nas com fardas limpas para criar uma falsa narrativa que fosse celebrada pelo então presidente Mario Abdo Benítez. Durante a fuga desesperada após o ataque inicial, Lichita feriu seu pé e se escondeu no monte Sarambí com guerrilheiros.

No dia 20 de novembro daquele ano, novas emboscadas foram realizadas pelos militares utilizando rifles de precisão, resultando na morte dos combatentes que acompanhavam Lichita e ferindo-a levemente na cabeça. Após perder seus guias e ficar desorientada na mata densa por ter sido deixada temporariamente por sua tia Laura, a jovem deixou para trás um caderno que se tornaria um símbolo do seu desaparecimento forçado.

Investigadores independentes coletaram testemunhos que revelaram que os corpos das vítimas apresentavam múltiplos ferimentos provenientes de diferentes ângulos de tiro, corroborando a hipótese de execução sumária e contradizendo a versão oficial sobre um confronto armado. Peritos confirmaram que partes da pele foram removidas dos locais atingidos pela bala para eliminar vestígios de pólvora — uma ação que destruiu provas cruciais.

A denúncia internacional e o repúdio à farsa judicial

A brutalidade do Exército paraguaio gerou indignação internacional imediata e mobilizou advogados e ativistas exigindo justiça. Claudia Korol, ativista da Campaña de Solidaridad Internacional con la Familia Villalba, enfatizou que “pessoas de diversos países uniram esforços para enfatizar o que nossa campanha clamava desde o início — eram crianças inocentes torturadas e assassinadas”. Em janeiro de 2025, o Comitê dos Direitos da Criança da ONU divulgou um relatório responsabilizando o Estado paraguaio por graves violações aos direitos humanos.

Organizações como o Observatório dos Direitos Humanos denunciaram irregularidades sérias nas versões oficiais acerca da incineração das roupas das vítimas por motivos sanitários relacionados à covid-19 — já que mantimentos e outros itens do acampamento permaneceram intactos. Peritos independentes alegaram que a destruição das roupas representou uma ação deliberada para ocultar provas essenciais para a investigação penal.

No Brasil, atos solidários foram promovidos pelo Movimento Feminino Popular (MFP), que em março de 2022 estendeu uma faixa vermelha na fronteira com os dizeres em letras amarelas exaltando o Dia Internacional da Mulher Proletária e pedindo liberdade para prisioneiras políticas do EPP. A Associação Brasileira de Advogados do Povo (Abrapo) também expressou apoio incondicional à campanha internacional ao denunciar as evidências claras sobre as execuções sumárias durante os ataques às crianças.

Recentemente, visando amplificar a pressão internacional sobre os abusos cometidos pelo Estado paraguaio, foi iniciada uma semana global de solidariedade convocando sindicatos e movimentos populares para enviar vídeos e cartas aos consulados paraguaios denunciando a situação das prisioneiras políticas sob torturas sistemáticas em regime isolado absoluto.

O terror carcerário contra as prisioneiras políticas

A resistência também se faz presente nos presídios onde as detentas políticas Carmen Villalba e Laura Villalba estão realizando greves de fome no Complexo Penitenciário para Mulheres em Emboscada contra os maus-tratos sofridos diariamente. Mantidas em celas solitárias sob regime extremo de segurança máxima por longas horas diárias sem qualquer assistência adequada ou condições dignas.

Relatos indicam que durante transferências secretas em outubro de 2024 as presas foram algemadas e encapuzadas sem aviso prévio aos defensores legais — um cenário alarmante refletido pela crescente repressão enfrentada desde agosto de 2025 após o deslocamento compulsório da Carmen para setores confinados cercados por alas masculinas.

Relatos médicos indicam que Carmen enfrenta severas dores nas costas devido ao confinamento prolongado em solitário enquanto Francisca Andino cumpre pena há mais tempo sem acesso à educação formal dentro da prisão — sendo negado seu direito à continuação dos estudos em psicologia.

A resistência revolucionária e a continuidade da luta

Carmen Villalba compartilhou reflexões sobre o papel das mulheres na luta revolucionária durante entrevista recente destacando sua importância nas frentes combativas no Paraguai — salientando sua presença nas lutas rurais contra despejos ou reivindicações trabalhistas.

Quanto à experiência prisional ela afirmou ser um espaço ativo para todos os revolucionários continuarem lutando independentemente das condições adversas — afirmando ainda a necessidade vital dessa luta ser mantida viva mesmo diante das torturas infligidas às presas políticas.

Carmen recordou as atrocidades ocorridas em Yby Yaú comparando-as à brutalidade colonial histórica enquanto reafirmava sua determinação em lutar pela verdade sobre as execuções sumárias ocultadas pelo governo através das forças repressivas — mantendo firme sua convicção revolucionária mesmo diante do sofrimento pessoal.”

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