
No dia 16 de maio, o governo interino da Venezuela, sob a liderança de Delcy Rodríguez, transferiu o empresário colombiano Alex Saab para os Estados Unidos. Ele agora enfrenta novas acusações de lavagem de dinheiro perante o sistema judiciário norte-americano. Essa ação coincidiu com a declaração do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, sobre a liberação de 300 detentos durante esta semana, representando um novo movimento do governo interino em busca de uma “distensão” nas relações com Washington. Segundo informações da agência Associated Press, Saab foi apresentado algemado e com uniforme prisional em um tribunal federal em Miami. A agência Reuters destacou que essa entrega sinaliza um “novo nível de coordenação entre Washington e Caracas”, no contexto da administração interina que surgiu após o sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026.
Durante muitos anos, Saab foi considerado uma das figuras mais influentes no círculo próximo a Maduro, assumindo um papel central na gestão econômica do governo bolivariano. Ele era responsável por operações cruciais relacionadas à importação de alimentos e à distribuição das cestas básicas do programa Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP), criado como resposta ao bloqueio econômico imposto pelos EUA à Venezuela. Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, chegou a descrevê-lo como “o homem do dinheiro de Maduro”. Sua influência foi tal que, após retornar à Venezuela em 2023, ele foi nomeado ministro da Indústria e da Produção Nacional.
As alegações contra Saab incluem supostos esquemas que envolveriam lavagem de dinheiro totalizando até 350 milhões de dólares através do sistema cambial venezuelano. Os promotores americanos afirmam que ele e seus associados desviaram significativas quantias destinadas à compra de alimentos para os cidadãos venezuelanos e realizaram transações irregulares envolvendo petróleo utilizando contas bancárias nos EUA. Além disso, investigações indicam que funcionários públicos venezuelanos poderiam ter recebido subornos para facilitar essas operações.
Saab também é alvo de acusações relacionadas a irregularidades em contratos habitacionais estabelecidos com o governo da Venezuela. Segundo apurações da BBC News Brasil, ele teria recebido 159 milhões de dólares entre 2012 e 2013 para importar materiais de construção, mas entregou apenas o equivalente a 3 milhões. O governo americano afirma que “várias unidades habitacionais vinculadas a esses contratos nunca foram concluídas ou foram construídas com preços exorbitantes”.
A nova etapa das acusações preocupa especialmente os grupos alinhados ao chavismo, pois há receios de que Saab possa ser utilizado como peça-chave na estratégia judicial dos EUA contra Maduro. A Reuters reportou que autoridades americanas consideram o empresário fundamental para reforçar as ações legais contra o presidente venezuelano sequestrado pelas forças especiais dos EUA em 2026. O governo Trump planeja levar Maduro a julgamento por acusações relacionadas ao “narcotráfico e corrupção”, enquanto intensifica a pressão política e econômica sobre Caracas.
Em sua justificativa para a deportação, Delcy Rodríguez afirmou que essa decisão foi tomada “pelo interesse da Venezuela”, tentando dissociar Saab politicamente do Estado venezuelano. “Alex é um cidadão colombiano […] As questões são entre os Estados Unidos e Alex”, declarou a presidente interina. O ministro da Justiça, Diosdado Cabello, corroborou essa narrativa ao afirmar que Saab utilizava documentação venezuelana possivelmente fraudulenta e que existiam investigações abertas sobre “fraudes ao Estado venezuelano”.
A atual postura do governo interino contrasta significativamente com as posições defendidas pelo governo Maduro nos últimos anos. Quando Saab foi preso em Cabo Verde em 2020, as autoridades venezuelanas chamaram sua detenção de “sequestro” realizado pelos EUA e promoveram uma campanha internacional por sua libertação. Maduro chegou a nomeá-lo como embaixador na tentativa de assegurar proteção diplomática ao empresário. Após sua liberação em 2023, fruto de uma troca negociada pelo governo Biden, Saab retornou à Venezuela como símbolo da resistência às sanções impostas pelos EUA e foi imediatamente integrado ao alto escalão governamental.
A comunicação sobre a deportação de Saab ocorreu simultaneamente à nova rodada de solturas promovidas pelo governo interino. Jorge Rodríguez anunciou que durante esta semana serão libertados 300 presos, incluindo idosos e pessoas com problemas de saúde, além daqueles considerados prisioneiros políticos por organizações defensoras dos direitos humanos. O governo apresenta essas iniciativas como passos rumo à “pacificação” e “normalização”, aumentando assim sua colaboração com Washington enquanto demonstra sinais claros de submissão às exigências americanas.
Entre resistência e subjugação nacional
A deportação de Saab também se insere em um contexto mais amplo de aproximação entre o governo interino liderado por Delcy Rodríguez e Washington. Em janeiro deste ano, Marco Rubio confirmou no Senado dos EUA que o país passou a “controlar diretamente as receitas do petróleo venezuelano”, depositando-as em um fundo sob supervisão do Tesouro americano no Catar. Informações apontam que os EUA sequestraram receitas petrolíferas venezuelanas para esse fundo legalmente vinculado à Venezuela mas operado sob controle americano, obrigando Caracas a obter autorização para gastos essenciais junto aos EUA.
Além disso, estão sendo propostas reformas para abrir o setor petrolífero venezuelano ao capital estrangeiro, principalmente proveniente dos Estados Unidos. Relatos indicam que discussões estão em andamento sobre mudanças na Lei de Hidrocarbonetos que permitiriam quebrar o monopólio estatal da PDVSA e aumentariam a influência direta das corporações imperialistas nas reservas petrolíferas do país sul-americano. Donald Trump chegou a afirmar publicamente que empresas americanas estariam “perfurando o solo venezuelano” buscando petróleo.
O governo interino também tem adotado outras medidas favoráveis às imposições norte-americanas. Entre elas estão a libertação gradual de prisioneiros pró-ianques, encontros frequentes entre Delcy Rodríguez e representantes da CIA e reiteradas declarações favoráveis à “normalização das relações” com os EUA. Em um vídeo divulgado pelo jornal La Hora de Venezuela, Delcy revelou ter decidido cooperar com os EUA após receber ameaças diretas durante uma operação militar resultante no sequestro de Maduro e sua esposa Cilia Flores; segundo ela, autoridades venezuelanas tiveram pouco tempo para decidir entre cooperar ou enfrentar novos bombardeios.
Editoriais têm descrito a situação atual na Venezuela como “paradoxal”, marcada pela manutenção formal do regime bolivariano enquanto cresce a colaboração com as exigências imperialistas dos EUA. Esse paradoxo evidencia uma luta entre posturas opostas: resistência nacional versus subjugação nacional; refletindo uma tentativa desesperada do regime para sobreviver custe o que custar enquanto promove uma ilusão de “soberania limitada” respaldada por potências imperialistas como Rússia e China.
Em nota divulgada no blog Servir ao Povo, a Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) denunciou o sequestro de Maduro junto à crescente ingerência dos EUA na Venezuela como parte da tentativa americana para aprofundar seu controle sobre toda América Latina. O documento defende mobilizações nacionais contra as pressões exercidas por Trump e as tentativas imperialistas visando recolonizar a Venezuela; enfatizando que essa resposta requer “medidas revolucionárias capazes de fortalecer nossa economia nacional” além da mobilização popular contra o imperialismo.
