Autoridades paraguaias detêm líder rural em contexto de repressão à defesa da terra

No dia 28 de abril, Elvio Benítez, um líder camponês, foi detido ao se apresentar à 18ª Delegacia de Polícia em Santa Rosa del Aguaray, localizada no departamento de San Pedro, na região oriental do Paraguai. Ele era alvo de um processo judicial por “apologia ao delito” e estava sendo perseguido pelo governo desde o final de 2025. Após prestar depoimento à promotora Laura Romero, Benítez permaneceu sob custódia enquanto aguardava a decisão da Justiça. Sua prisão faz parte da repressão política que o Estado paraguaio exerce sobre os líderes que lutam pela reforma agrária no país. 

A repressão contra Benítez ganhou força em novembro de 2025, quando a promotoria local emitiu mandados de prisão para ele e Rodolfo Salazar, ambos figuras proeminentes na Coordenadoria Interdistrital dos Sem Terra de San Pedro. O motivo alegado para essa ação judicial foi a declaração pública sobre a intenção dos camponeses de retomar as terras da Lusipar, um latifúndio que abrange cerca de 11 mil hectares. A Secretaria Nacional de Administração de Bens Apreendidos e Confiscados (Senabico) mantém essas terras arrendadas a grandes proprietários enquanto milhares de famílias continuam sem acesso à terra. 

A propriedade Lusipar foi confiscada do narcotraficante brasileiro Luiz Carlos da Rocha, conhecido como “Cabeça Branca”, mas não foi destinada aos camponeses necessitados. Sob a administração da Senabico, o local é explorado por agricultores de soja, enquanto os trabalhadores rurais enfrentam cercas e repressão. Os camponeses exigem que a terra seja imediatamente destinada ao assentamento das famílias sem terra e denunciam que o governo utiliza o argumento do combate ao crime organizado como uma desculpa para manter o controle sobre as terras e excluir as massas.

A detenção de Elvio Benítez provocou uma onda de protestos e manifestações solidárias. O Espaço de Unidade Indígena, Camponesa e Popular divulgou um comunicado denunciando sua prisão como arbitrária. “Essa detenção não é um caso isolado; representa a política sistemática do governo paraguaio para criminalizar o protesto social e a luta pela terra. Aqueles que se opõem à inação do governo diante da fome e da falta de terras estão sendo perseguidos e presos”, afirmaram.

“Elvio Benítez é um líder comunitário, não um criminoso. Seu único ‘delito’ é organizar o povo para reivindicar seus direitos: terra, produção e uma vida digna. Responsabilizamos o governo nacional e o sistema judiciário pela integridade física e psicológica dele e exigimos sua libertação imediata, além do fim da perseguição aos defensores sociais e terra para quem trabalha nela. A luta por terra é um direito!”, completaram.

<pAinda em 2025, após uma tentativa de ocupação da fazenda Lusipar, Elvio Benítez revelou durante uma entrevista a uma rádio local que havia um complô para assassiná-lo. Ele contou que pessoas próximas lhe alertaram sobre um plano atribuído a setores ligados ao latifúndio e ao governo. O dirigente recordou que seu nome, assim como o de seu irmão Ernesto Benítez, foram mencionados em uma gravação atribuída à ex-presidente do Instituto Nacional de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert), Gail González Yaluff, na qual se falava sobre criar um "plano" para eliminar os irmãos Benítez.

Nessa ocasião, Benítez apontou diretamente para Horacio Cartes, ex-presidente e atual líder do Partido Colorado, acusando-o de influenciar decisões governamentais em benefício do crime organizado e dos latifundiários. “Ele é o principal responsável por toda essa situação”, enfatizou. Para ele, a política agrária do governo se resume em oferecer “balas de borracha e prisões”.

A batalha pela Lusipar e o terrorismo estatal

O conflito culminante que resultou na prisão de Benítez ocorreu em 5 de dezembro de 2025, quando uma caravana com 50 veículos rompeu um cerco policial para ocupar a área conhecida como Toro Vevé. Durante esse confronto direto, os camponeses demonstraram sua força; dois agentes das forças repressivas ficaram feridos e veículos foram danificados. Como resposta do governo, houve uma onda de repressão: 29 camponeses foram detidos e enviados ao superlotado presídio de San Pedro.

A Associação Rural Paraguaia (ARP), representante dos grandes proprietários rurais e pecuaristas, rapidamente pediu “punição severa” contra os manifestantes camponeses. As elites agrárias clamaram pela manutenção da “ordem no campo”, que na prática equivale ao silêncio dos cemitérios diante da concentração fundiária onde 77% das terras pertencem a apenas 1% dos grandes proprietários.

Enquanto isso, o Judiciário atua com rigor contra os camponeses; Lino Morel, dirigente da Federação Nacional Camponesa (FNC), denunciou que o Estado favorece grupos privilegiados com acesso às melhores áreas enquanto marginaliza os trabalhadores rurais. O cenário em San Pedro exemplifica as feridas abertas pelo monopólio agrário no Paraguai: enquanto capitais estrangeiros dominam impressionantes 23,4 milhões de hectares no país, estima-se que cerca de 300 mil famílias estejam sem nenhum espaço para cultivar.

Diante do aumento das mobilizações populares, o governo liderado por Santiago Peña está apostando na militarização das áreas rurais sob influência dos Estados Unidos. Em dezembro de 2025 foi firmado um acordo militar com os EUA sob a justificativa do combate a “grupos armados”. No entanto, essa ação visa garantir a exportação das commodities paraguaias e assegurar controle territorial estratégico. O uso do Exército do Povo Paraguaio (EPP) como justificativa serve apenas para legitimar a presença militar estrangeira e reprimir os camponeses que buscam seus direitos básicos.

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