Posto policial no Paraguai é devastado em ataque do EPP sob vigilância militar e americana intensa

Um ataque em larga escala resultou na destruição total do posto policial nº 4 situado na colônia Naranjito, no distrito de Ybyrarobaná, que integra o departamento de Canindeyú. A ação, que ocorreu em meio a uma tempestade intensa na noite de 21 de julho, deixou um saldo trágico de três vítimas fatais: dois membros da polícia e um residente local. O ataque, conduzido por um grupo composto por aproximadamente 20 a 30 indivíduos, aconteceu por volta das 22h30 em uma propriedade rural ao longo da rodovia PY03, incendiando a sede policial, uma viatura e outros veículos. Isso provocou uma resposta imediata das forças policiais e militares e gerou grande repercussão na mídia paraguaia. Inicialmente, o governo, liderado por Santiago Peña, considerou como possíveis autores tanto o Exército do Povo Paraguaio (EPP), que se envolve em atividades revolucionárias armadas no país, quanto facções ligadas ao “crime organizado”. Contudo, posteriormente atribuiu o ataque ao EPP com base em análises balísticas comparativas com um incidente registrado em maio de 2025.

Em decorrência do ataque brutal, perderam a vida o suboficial maior Atilio Martínez Barrios, de 40 anos; o suboficial inspetor Herminio Ojeda González, de 33 anos; e um cidadão identificado como Josemar Escobar Piris, de 37 anos, que estava presente no local durante a investida contra a unidade policial. O suboficial maior Víctor Raúl Gavilán, de 47 anos, foi ferido com três tiros de raspão, mas não corre risco de morte. Por sua vez, o suboficial inspetor Édgar Adalberto Núñez Vázquez, de 36 anos, conseguiu escapar sem ferimentos.

<pApós o evento trágico, o ministro do Interior Enrique Riera se dirigiu à imprensa e afirmou: “Esse é um ataque ao Estado que será respondido com toda a força legal e estatal disponíveis; não permitiremos que isso fique impune”. O representante do governo anunciou também um aumento nas operações conjuntas das forças de repressão no departamento de Canindeyú, contando com a colaboração de equipes forenses e peritos em criminalística. Ele garantiu que os responsáveis pela ação seriam identificados e levados à Justiça. Naquele momento, Riera mencionou que ainda não havia confirmação sobre quem seria o autor do ataque.

Por outro lado, o general Alberto Gaona, comandante do Comando de Operações de Defesa Interna (CODI), explicou em entrevista à emissora ABC Cardinal que as ações táticas da força militar estavam sendo guiadas pelas informações coletadas pelo Batalhão de Inteligência Militar (BIMI). Ele comentou sobre as operações realizadas em grandes áreas indígenas como Mbaracayú e Morombí, porém destacou que as chuvas torrenciais impunham dificuldades logísticas para encontrar indícios no campo. Além disso, questionou a responsabilidade do EPP pelo ataque ao afirmar que essa organização guerrilheira normalmente não utiliza espingardas em operações dessa magnitude e que seus dados indicavam menos de 15 combatentes ativos.

No entanto, poucas horas após a declaração inicial sobre a indefinição da autoria do crime, Riera informou que um relatório recente apresentado ao presidente Santiago Peña atribuía oficialmente o ataque ao EPP. Segundo ele, as análises balísticas confirmaram que uma das armas usadas na ofensiva era a mesma utilizada em um incidente anterior datado de 3 de maio de 2025 contra o 10º posto policial da mesma região. “A atribuição é feita ao EPP. O último relatório técnico confirma que a arma utilizada é idêntica àquela empregada no ataque à esquadra policial”, reforçou.

Canindeyú: epicentro dos conflitos agrários e ações militares

Enquanto segmentos do governo tentavam diminuir a capacidade bélica do EPP – alegando que o grupo contava com menos de 15 integrantes ativos e não costumava utilizar armamento pesado –, os veículos da mídia paraguaia rapidamente atribuíram o ataque à organização guerrilheira e relataram diversas mortes civis associadas aos conflitos nos últimos anos. Poucas horas depois da tragédia no posto policial, as autoridades oficiais passaram também a responsabilizar diretamente o EPP pela ação perpetrada por um grupo entre 20 e 30 indivíduos. Essa narrativa tende a ocultar as causas profundas dos conflitos agrários e as disputas violentas pela terra entre camponeses e comunidades indígenas contra os latifundiários agroexportadores na parte oriental do país.

A história recente mostra que ações atribuídas ao EPP têm causado danos significativos às forças repressivas governamentais desde 2004. Segundo dados extraídos pelo veículo ABC Color, ataques resultaram na morte de 20 agentes da Polícia Nacional e 14 militares em emboscadas ocorridas nas áreas rurais dos departamentos estratégicos como San Pedro e Amambay. Esses números evidenciam não apenas a efetividade tática do grupo guerrilheiro como também sua resiliência frente à violência sistemática perpetrada pelo Estado. Casos notáveis incluem a morte de três policiais na colônia Yaguareté Forest em 2015 e um ataque com explosivos caseiros contra uma patrulha militar do CODI em San Pedro em 2021.

A atual intensificação das operações militares teve início em fevereiro deste ano após o sequestro de Almir de Brum da Silva, filho do proprietário rural brasileiro Valmir de Brum na região Curuguaty. Este evento foi utilizado pelo governo para justificar um aumento nas atividades militares no campo paraguaio. Em reunião extraordinária do Conselho Nacional de Defesa foi autorizada a mobilização flexível das Forças Armadas além dos limites departamentais da Força Tarefa Conjunta para responder às ameaças identificadas.

No local onde ocorreu o sequestro supostamente vinculado aos guerrilheiros foram encontrados panfletos dirigidos ao latifundiário produtor de soja denunciando práticas violentas contra camponeses pobres como uma “dívida histórica” cujo pagamento “não tem prazo”, além da exigência pela retirada das forças repressivas da área. Essa mobilização estatal contrasta fortemente com as alegações governamentais sobre uma suposta diminuição das atividades do EPP: tropas especiais foram deslocadas para intensificar as operações na fronteira transformando-a num verdadeiro campo militarizado.

A região Canindeyú é descrita pelo ministro Enrique Riera como um autêntico “coquetel explosivo”. A administração atual busca unificar sob uma única narrativa tanto os movimentos guerrilheiros quanto organizações relacionadas ao tráfico ilícito e disputas por terras. Este enquadramento segue os moldes impostos pelos Estados Unidos ao associar movimentos revolucionários locais ao narcotráfico – estratégia utilizada para justificar uma presença militar mais significativa nas áreas rurais e legitimar ações repressivas contra as comunidades resistentes aos ataques dos grandes proprietários rurais.

Intervenção estadunidense no movimento revolucionário

A crescente militarização interna coincide com uma intensificação da presença militar dos Estados Unidos no Paraguai. Em janeiro passado, uma aeronave C-17 Globemaster III desembarcou armamentos destinados ao treinamento das Forças Especiais paraguaias. Dias depois desse acontecimento Washington confirmou um investimento adicional de US$ 11 milhões para aprimorar essas tropas.

No mês seguinte, o Congresso paraguaio ratificou um acordo assinado em Washington em dezembro passado sobre o Estatuto das Forças. Esse pacto estabelece diretrizes jurídicas para a presença temporária dos militares estadunidenses durante treinamentos ou outras atividades acordadas entre os dois países.

Essa crescente militarização reflete a entrega progressiva da soberania paraguaia às influências imperialistas norte-americanas bem como à submissão aos interesses dos grandes proprietários rurais locais – fatores fundamentais por trás tanto da resistência armada quanto dos levantes populares no país. A presença militar estrangeira reforça o controle ianque sobre áreas estratégicas como a Tríplice Fronteira e permite aplicar métodos intervencionistas contra movimentos sociais revolucionários.

No programa A Propósito #369, Victor Bellizia — diretor-geral da AND — caracterizou essa abordagem sob a perspectiva da “Doutrina Donroe” como uma “estratégia preventiva contrarrevolucionária” planejada para evitar desestabilizações dentro da ordem semicolonial vigente na América Latina. Bellizia ressaltou ainda que essa preocupação imperialista possui fundamentos concretos: “No Paraguai existe luta armada; portanto há também uma luta anti-imperialista presente neste subcontinente”.

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