
Na mais recente edição da série “Encontro com a Prevenção”, promovida mensalmente pela Med-Rio, tivemos a honra de receber o doutor Marco Antônio Guedes. Ele é um renomado odontólogo, especializado em prótese dental pela UFRJ e em implantodontia pela PUC-Rio. O tema abordado por Guedes foi “A saúde começa na boca”.
A escolha do tópico não foi aleatória. A saúde bucal é crucial e vai muito além da estética; estudos revelam que enfermidades gengivais, como a periodontite, estão ligadas a um risco elevado de problemas cardiovasculares, derrames e diabetes. Em resposta a essa realidade, a Med-Rio Check-up decidiu incluir o raio-X panorâmico das arcadas dentárias em seu programa de prevenção. Esse exame permite detectar precocemente lesões como fraturas, cistos e tumores.
O doutor Guedes começou sua apresentação sublinhando que muitas vezes o papel do dentista é esquecido dentro do conceito amplo de saúde. “Diversas condições da saúde bucal impactam diretamente na saúde geral. Nós, dentistas, devemos estar atentos a isso. O paciente não é apenas ‘uma boca’ — ele é um ser humano com várias dimensões. A nossa responsabilidade também está na prevenção”, enfatizou.
Ele observou que as pessoas costumam visitar mais o dentista do que o médico e lembrou que no passado havia recomendações para que dentistas verificassem a pressão arterial, já que poderiam identificar mais casos de hipertensão do que os próprios médicos. “Isso ocorre porque as visitas ao dentista são, muitas vezes, regulares devido à necessidade de limpezas profissionais”, esclareceu.
Guedes reforçou a relevância da radiografia panorâmica: “É um exame excepcional. Apesar de ser bidimensional, consegue revelar uma série de alterações, até mesmo para quem não é da área”, declarou. “Para o dentista, essa radiografia é comparável ao hemograma na medicina. Ela possibilita identificar perda óssea, infecções, cistos e tumores que muitas vezes não são percebidos clinicamente.”
Quando se fala sobre a interação entre odontologia e medicina, Guedes destacou que a doença periodontal, conhecida como periodontite ou piorreia, é um ponto central. “Ela é a principal causa de perda dentária ao longo da vida e interage significativamente com o organismo como um todo”, afirmou.
O especialista explicou que há uma relação comprovada entre doenças periodontais e problemas cardiovasculares, formação de placas de ateroma e complicações articulares. Além disso, essa relação pode ser bidirecional; doenças reumatológicas também podem ter impacto sobre a saúde periodontal.
Outro aspecto importante mencionado por Guedes foi o aumento no número de próteses articulares — como joelhos e quadris — especialmente entre os idosos. “Hoje em dia não se discute apenas profilaxia para endocardite bacteriana; pacientes com próteses articulares necessitam de cuidados preventivos odontológicos nos primeiros dois anos após as cirurgias. Com o tempo, doenças periodontais também podem afetar implantes dentários. Muitos pacientes acreditam que ao colocar um implante estão resolvendo todos os problemas; porém isso não é verdade,” alertou ele.
Guedes ainda mencionou as infecções odontogênicas originadas em dentes tratados frequentemente com canais radiculares. Essas infecções podem levar a sérias complicações como sinusites odontológicas. “Não adianta tratar apenas os sintomas nasais se o problema estiver na boca; deve-se resolver a origem do problema,” explicou.
Ele também abordou casos de tumores e cistos na cavidade oral frequentemente identificados nas radiografias panorâmicas. Um exemplo notório é o ameloblastoma — uma lesão visível como uma área “vazia” na mandíbula. Outro ponto crítico discutido foi sobre os bifosfonatos: “Há um certo conflito entre médicos e dentistas nesse tema; contudo, pacientes sob esses medicamentos devem receber acompanhamento adequado para prevenção,” ressaltou.
Para Guedes, a base da prevenção em odontologia reside na higiene bucal apropriada em qualquer faixa etária: “Sem uma boa higiene não há como garantir uma prevenção eficaz,” concluiu.
Outro aspecto relevante abordado foi o consumo de açúcar: “Não se trata necessariamente de eliminar totalmente esse tipo de alimento, mas sim compreender seu impacto — especialmente para aqueles com fluxo salivar reduzido.” A saliva desempenha um papel crucial na neutralização dos ácidos bucais, embora esse processo leve tempo — cerca de quatro horas em média.
O especialista ainda enfatizou a importância de evitar o tabagismo (que atua como imunossupressor local), moderar o consumo de álcool e realizar check-ups regulares para manter a saúde bucal em dia.
A maneira mais inteligente e elegante de cuidar da saúde é por meio da prevenção.
Gilberto Ururahy possui mais de 40 anos de experiência como médico e é reconhecido por seu trabalho em Medicina Preventiva. Em 1990 fundou a Med-Rio Check-up, que se tornou líder no Brasil em check-ups médicos e medicina preventiva. É agraciado com a Medalha da Academia Nacional de Medicina da França e membro honorário da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação. Coautor dos livros: Como tornar-se um bom estressado (editora Salamandra), O cérebro emocional (Rocco), Emoções e saúde (Rocco) e Saúde é prevenção (Rocco), juntamente com o médico Galileu Assis. Ururahy ocupa cargos importantes tais como diretor na Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Rio) e Chairman do Comitê de Saúde da Câmara de Comércio França-Brasil.
