Recentemente, o Oriente Médio Ampliado, epicentro da atual guerra imperialista mundial, tem testemunhado movimentações significativas e arriscadas que não receberam a atenção devida, ofuscadas pela atenção voltada para o Estreito de Ormuz. Este cenário se estende até a África, especialmente nas margens da África Islâmica, uma histórica linha divisória do Dar al-Islam.
No Corno da África, a Somalilândia, uma região autônoma há mais de três décadas e efetivamente independente da Somália, tem procurado desvincular-se completamente de Mogadíscio. Para isso, conta com o apoio de Israel, que já manifestou intenções de reconhecer a independência desta área africana.
Na região do Sahel, entre os dias 25 e 26 de abril, a Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), principal grupo jihadista salafista local, lançou uma ofensiva significativa contra o governo militar do Mali. Os atacantes ampliaram suas operações até as imediações de Bamako, a capital maliana, realizando ataques coordenados em várias cidades. Uma dessas ações resultou na morte do ministro da Defesa, general Sadio Camara, e de sua família em um ataque com carro-bomba perto de sua residência.
Ainda que separadas por mais de 5 mil quilômetros, essas atividades podem não aparentar conexão imediata. No entanto, ambas estão inseridas em um contexto de instabilidade sistêmica que os Estados Unidos precisam manter para adiar seu declínio relativo. Trata-se de um caos gerenciado que atinge também os “organismos internacionais” e alianças historicamente utilizados por Washington sob a bandeira do “multilateralismo”.
O caos é personificado em figuras como Trump, que tem tentado navegar nesse cenário complexo por meio de ameaças e negociações em diferentes frentes (Groenlândia, Ormuz e Malvinas) na mesma semana. Embora consiga algumas vitórias táticas em locais como a Venezuela, na realidade acaba por acelerar sua derrota estratégica ao alienar aliados e desgastar sua base interna insatisfeita com a situação socioeconômica e as intervenções externas.
Esse estado caótico desmantela as fronteiras nacionais tradicionais e coloca diversos territórios em jogo, permitindo uma nova configuração nos mapas. Onde essas fronteiras são mais vulneráveis senão na África delineada pelo Congresso de Berlim (1884-1885) e no Oriente Médio estabelecido pelos Acordos Sykes-Picot (1916)?
Conflitos no Sahel: Jihad no Mali
Mali, que já foi o centro do maior império da África Ocidental, hoje é um dos países mais pobres e instáveis do mundo. Após conquistar formalmente sua independência da França em 1960, o país permaneceu sob forte influência imperialista europeia durante décadas, caracterizada pela presença militar francesa e pela exportação de commodities a preços desfavoráveis.
Diante das insurgências jihadistas e separatistas no Norte nos últimos anos, um grupo das Forças Armadas depôs o presidente eleito em 2020 e consolidou o poder militarmente. Desde então, Mali tem se distanciado da França enquanto busca novos parceiros internacionais como a Rússia. As principais ações do governo militar incluem aprofundar contratos com Companhias Militares Privadas russas (como o Afrika Corps), retirar tropas francesas completamente e revogar o francês como idioma oficial. Além disso, estreitar laços econômico-militares com Rússia, China e Irã segue uma lógica pragmática de troca: acesso a commodities em troca de infraestrutura e armamentos.
Juntamente com Burkina Faso e Níger, Mali formou a Aliança dos Estados do Sahel (AES), visando maior integração regional e autonomia frente às estruturas tradicionais dominadas pelo Ocidente.
Ao longo dos últimos meses e com apoio da AES — especialmente da Rússia — Mali conseguiu recuperar uma parte considerável dos territórios anteriormente dominados por grupos separatistas tuaregues ou jihadistas. Contudo, permanece como o país mais afetado pela atividade jihadista na região do Sahel.
A diversidade étnico-geográfica profunda do Mali representa um desafio estrutural significativo; pode ser dividida entre duas zonas principais. O Sahel age como uma faixa semiárida que separa o deserto do Saara ao norte das savanas tropicais ao sul. Enquanto as áreas mais ao sul são favorecidas para agricultura sedentária devido à maior umidade; ao norte predominam pastores nômades ou seminômades. Os povos sudaneses (como os bambara e malinke) habitam principalmente o sul; enquanto minorias nômades como tuaregues coexistem no norte.
As tensões entre agricultores sedentários do sul e pastores nômades do norte têm raízes históricas profundas que se manifestaram através de conflitos dinásticos, comerciais e religiosos ao longo dos séculos. A complexidade desses conflitos persiste ainda hoje — embora sejam secundários frente à violência jihadista — exacerbados pela desertificação crescente e pelas pressões demográficas.
Os governos pós-independência frequentemente favoreceram interesses agrícolas sedentários nas elites do sul gerando ressentimento entre as comunidades do norte marginalizadas. Essa situação propiciou o crescimento dos levantes tuaregues; desde então ocorreram três grandes rebeliões no norte desde 2012; sendo esta última a mais prolongada.
Dentre os grupos atuantes destaca-se o Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), que embora tenha buscado independência recentemente perdeu espaço para grupos jihadistas-salafistas como Estado Islâmico no Sahel e JNIM.
O JNIM é relativamente novo em comparação aos demais grupos insurgentes em Mali; formado em 2017 pela fusão da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico com outros movimentos locais buscando uma identidade nacional mais forte; afastando-se assim da retórica jihadista global similar ao caso da Hayat Tahrir al-Sham, surgido na mesma época na Síria visando ganhar aceitação internacional.
A queda do regime liderado por Assimi Goïta no Mali certamente seria atraente para os interesses imperialistas estadunidenses que buscam reduzir influências russas ou chinesas na região. Além disso, isso também interessa ao imperialismo francês visando reconquistar influência sobre Mali; uma possível secessão do Norte poderia enfraquecer aproximações entre países africanos com potências como Rússia ou Irã.
A natureza jihadista desse regime é uma preocupação secundária para EUA e França; apesar das incertezas associadas à lealdade desses grupos insurgentes pode-se supor que gastarão suas energias lutando guerras internas antes que possam se voltar contra seus aliados temporários.
No atual contexto emergente relacionado à Palestina — onde diversas facções se unem contra Israel — ainda não foram observadas movimentações significativas por parte da Al-Qaeda ou Estado Islâmico nas áreas afetadas pelo conflito recente exceto pelo envolvimento pontual do Estado Islâmico em Gaza através desse grupo específico contra Hamas.
A depender dos resultados desta recente ofensiva geral no Mali não seria surpreendente se líderes jihadistas apresentassem uma nova imagem moderada semelhante à estratégia adotada por Ahmad Al-Shaara após transformações recentes na Síria buscando legitimidade internacional.
Fragmentação na Somália
A região estratégica do Corno da África tem implicações diretas sobre toda logística global. Embora o Estreito de Ormuz tenha sido foco das atenções globais nos últimos dois meses; igualmente importante é o Estreito de Bab-Al-Mandeb cujas barreiras são formadas pelo Iémen controlado pelos houthis ao sul e pelo norte da Somália. Historicamente fragmentada desde os anos 1980 as preocupações quanto à possibilidade de fechamento desse estreito sempre foram dirigidas ao lado asiático; porém nesta semana a Somália enviou um alerta através de seu embaixador sobre possíveis restrições à navegação naquele estreito direcionadas a Israel após reconhecimento israelense da Somalilândia.
Diferente da maioria dos Estados africanos definidos artificialmente pelo Congresso de Berlim a Somália possui características favoráveis à integridade nacional: aproximadamente 85% da população é composta por somalis compartilhando idioma comum (somali), cultura religiosa (Islã sunita) além de ocuparem um território relativamente homogêneo sob aspectos étnicos-linguísticos. Contudo essa unidade não resultou em estabilidade política duradoura.
Duas razões principais explicam essa fragilidade:
- A colonização fragmentada: O território somali foi dividido entre duas potências europeias — Itália (Somália Italiana) e Reino Unido (atual Somalilândia) — criando modelos administrativos distintos que dificultaram sua unificação após independência apressada em 1960;
- Um sistema clânico profundamente enraizado exerce forte influência centrífuga sobre um Estado já fragilizado pelas guerras internas decorrentes das lutas pós-coloniais;
A derrota sofrida pelo regime somali liderado por Siad Barre entre 1969-1991 após tentativas infrutíferas de anexar Ogaden — majoritariamente habitada por somalis — resultou na fragmentação definitiva iniciada em 1991 quando regiões como Somalilândia começaram a governar autonomamente sem reconhecimento formal por parte do governo central.
Diante dessa incapacidade estatal para impor autoridade reconhecida legalmente sobre as facções regionais diversas autonomias foram concedidas sem aceitação explícita quanto à secessão formal propondo-se assim manter uma política unificada conhecida como “Uma só Somália”. Além disso opera dentro deste cenário também o movimento insurgente salafista Al-Shabaab, afilhado à Al-Qaeda, controlando cerca de 30% do território somali atualmente.
A exceção são poucos países reconhecendo essa fragmentação incluindo Israel tentando contrabalançar poderio houthis controladores daquele estreito ou Etiópia cujo interesse reside numa Somália fraca para evitar instabilidades próprias envolvendo somalis no Ogaden especialmente após independência Eritreia privando-a acesso marítimo.
A União Africana opera ainda forças transnacionais combatendo diretamente Al-Shabaab , enquanto Egito busca contrabalançar influência etíope na região assim como Turquia investindo esforços significativos para reestruturar forças armadas locais utilizando bases navais estabelecidas ali.
Diante dessa realidade militar insignificante reconhecida até mesmo oficialmente pela Somália tornando-a dependente assistencial externa ao combate jihadista convém ressaltar que tal ameaça verbal proferida pelo seu representante diplomático dificilmente teria ocorrido sem anuência implícita turca dado seu histórico militar robusto representando segundo exército OTAN além número elevado bases militares globais apenas superadas pelos EUA.
Embora Turquia não tenha se posicionado abertamente quanto bloqueios reafirmou apoio soberano nacional somali podendo ter sido provocação direta à Israel diante recentes tensões surgidas entre ambos países relacionados interesses estratégicos regionais incluindo tentativas desestabilizadoras associadas Irã ou bombardeios sírios além aproximação Grécia-Cipriota cuja litígios territoriais afetam diretamente interesses turcos.
No geral pode-se observar Israel tentando morder um pedaço maior pode suportar empurrando toda região para caos antes admitir derrotas notórias diante comunidade árabe; pois suas ações desde conflito Gaza não apenas isolaram-no mas criaram coalizões adversárias abrangendo várias potências regionais contrárias às suas políticas expansionistas militares significando consequências potenciais bem maiores conforme evoluções futuras nas relações internacionais relacionadas aquele continente africano estratégico onde ainda existem tensões latentes esperando resolução definitiva.
Luiz Messeder é professor na rede pública atuando também como tradutor literário especialista temas políticos internacionais demográficos vivendo atualmente nas serras brasileiras onde escreve acerca assuntos ligados geopolitica contemporânea.
Este artigo reflete exclusivamente opinião pessoal autor acima mencionado.
