O Exército brasileiro deu luz verde a uma nova abordagem que denomina “política de transformação”, com foco na preparação para os chamados “conflitos contemporâneos” e as “guerras do futuro”. O plano, segundo informações da CNN, inclui alterações significativas na doutrina militar, na capacitação de soldados e na estrutura organizacional das Forças Armadas. Uma das principais metas é assegurar que “pelo menos 20% das tropas estejam prontas para uma resposta imediata a ameaças”.
Em termos práticos, isso implica que cinco das 25 brigadas operativas devem estar sempre em condições de mobilização rápida, com habilidade para se deslocar para qualquer parte do Brasil. Entre as unidades citadas estão a Brigada Paraquedista, localizada no Rio de Janeiro, a Brigada Aeromóvel em Caçapava (SP) e a Brigada de Infantaria de Selva em Marabá (PA). Segundo análises feitas por militares à CNN, o conceito que está sendo adotado é o de “dissuasão assimétrica”, que visa compensar limitações materiais com uma capacidade de resposta ágil.
A proposta surge em um contexto de agravamento da situação internacional, mencionando diretamente os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, além do aumento global nos investimentos militares. A reportagem traz dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), indicando que mais de 30 países enfrentaram conflitos armados em 2024, afetando cerca de 45% da população mundial e resultando em aproximadamente 1,9 milhão de mortes nos últimos 15 anos.
Em relação ao Brasil, o texto destaca que o governo destinou cerca de R$ 30 bilhões fora do orçamento fiscal nos últimos seis anos para impulsionar a “modernização das Forças Armadas”. Contudo, o documento do Exército considera esse investimento como insuficiente frente às demandas urgentes por reaparelhamento, especialmente em um cenário onde a “demanda global por equipamentos militares já ultrapassa a capacidade produtiva existente”.
Investimentos escassos?
Apesar da narrativa sobre a “falta de recursos”, dados recentes do orçamento federal indicam que a maior parte dos recursos da Defesa ainda é aplicada no pagamento de pessoal. Isso inclui principalmente os altos oficiais, enquanto praças e oficiais inferiores recebem salários consideravelmente mais baixos.
A própria reportagem ressaltou essa contradição: cerca de 78% dos gastos militares atuais são direcionados a salários, aposentadorias e pensões, limitando assim o potencial “de investimento em equipamentos e modernização” das tropas.
Esse cenário se reflete na remuneração dentro das Forças Armadas. Reportagens recentes destacaram aumentos salariais expressivos para os altos comandos, incluindo reajustes que alcançam até 69% para generais. Em contraste, praças e segmentos inferiores continuam recebendo salários muito abaixo em um contexto marcado por uma crescente elevação no custo de vida.
Ao mesmo tempo, diversos casos envolvendo desperdício e uso indevido de verbas públicas têm sido expostos. Um caso notório envolve o custo elevado das refeições do comandante do Exército, que chega a R$ 684 mil aos cofres públicos. Esse cenário já havia sido manchado por compras volumosas de alimentos caros destinados aos oficiais generais. O cardápio inclui iguarias como mousse de gorgonzola com frango e bacalhau à Gomes de Sá.
Além disso, repercutiram nacionalmente as aquisições superfaturadas realizadas em 2020, como os 700 mil quilos de picanha e 80 mil cervejas premium. Em seguida, surgiram denúncias sobre compras inusitadas como medicamentos como Viagra. Esses episódios geraram questionamentos no Congresso e foram alvo do Tribunal de Contas da União (TCU).
A recorrência desses gastos contrasta fortemente com a justificativa sobre a “insuficiência financeira para o preparo militar”. Enquanto o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) defende uma ampliação dos investimentos para enfrentar possíveis ameaças, observa-se que uma grande parte do orçamento continua sendo destinada a despesas com folha salarial e privilégios internos.
Quem determina as ‘ameaças’?
No âmbito estratégico, o documento do Exército menciona que a América do Sul possui abundância de recursos naturais visados por potências estrangeiras e assume uma posição relevante no cenário global. Ele ressalta explicitamente “a necessidade de assegurar a soberania nacional nesse contexto”, caracterizando a região como uma “área potencialmente disputável geopolítica”.
No entanto, paralelamente ao discurso sobre soberania nacional, o Exército mantém uma colaboração contínua com forças estrangeiras, especialmente os Estados Unidos (EUA), notáveis por suas violações históricas da soberania nacional. Essa cooperação enfraquece sua própria justificativa.
Exercícios conjuntos como a Operação CORE (Combined Operations and Rotation Exercise) estabelecem treinamentos anuais entre tropas brasileiras e americanas até pelo menos 2028, focando na “interoperabilidade” e padronização operacional.
O governo brasileiro já permitiu a entrada de centenas de soldados americanos em seu território para participar desses exercícios, incluindo operações na Amazônia — área conhecida pelo interesse dos EUA. Essa integração abrange desde treinamentos táticos até cooperações nos campos da inteligência e guerra cibernética.
No cenário interno, as Forças Armadas têm sido empregadas extensivamente em operações repressivas sob o pretexto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO’s), especialmente contra levantamentos populares ou movimentos sociais considerados contrários à ordem vigente ou ao combate ao crime.
Caso emblemático ocorreu em abril de 2019 quando militares dispararam cerca de 257 tiros contra o carro do músico Evaldo Rosa no Rio de Janeiro, resultando em sua morte. Os envolvidos inicialmente foram condenados à prisão fechada; porém, em dezembro deste ano passado o Superior Tribunal Militar (STM) reduziu suas penas para três anos em regime aberto.
Operações desse tipo também têm sido relatadas nas áreas rurais. Em Rondônia, mais de 3 mil militares participaram de ações contra cerca de 800 famílias camponesas na Área Tiago Campin dos Santos. Tal operação foi realizada para proteger interesses latifundiários e contou com apoio logístico das forças armadas federais. Os camponeses relataram abusos graves como destruição das moradias e intimidações sem receber cobertura adequada nos meios tradicionais.
A subordinação se estende também ao domínio da inteligência e guerra cibernética. O exercício Southern Defender, realizado em 2025 sob orientação do Comando Sul dos EUA evidenciou operações cibernéticas americanas ocorrendo fisicamente no Brasil pela primeira vez. Nesta ocasião houve integração entre militares americanos e brasileiros com foco na mapeação das vulnerabilidades operacionais.
A Marinha brasileira também participou do exercício Cyber Flag 25, coordenado pelo Comando Cibernético dos EUA. Sob pretextos como “cooperação internacional”, áreas estratégicas relacionadas à inteligência cibernética acabam subjugadas aos interesses do Pentágono. Assim sendo, enquanto proclamam preocupações quanto à “soberania nacional”, as forças brasileiras aprofundam sua dependência operacional diante do imperialismo americano.
A nova política estratégica será integrada ao plano atual do Exército referente ao período entre 2024 e 2027 e guiará as ações subsequentes entre 2028 e 2031. O documento reconhece limitações estruturais como falta capacidade produtiva até mesmo para reposição dos estoques necessários. Entretanto, persistem elevados gastos voltados ao pessoal associado à manutenção dos privilégios internos junto à continuidade nas operações repressivas internas alinhadas aos interesses estrangeiros dentro do território brasileiro.
