São Lourenço: Moradores do maior bairro reclamam de descaso em meio a enchentes

Os habitantes do Beco 901, situado no bairro Nossa Senhora de Lourdes, em São Lourenço, expressam suas queixas em relação ao abandono que enfrentam há aproximadamente cinco décadas devido às enchentes, especialmente durante o período de novembro a março. “Nos meses de chuvas, não conseguimos dormir tranquilos. Há dias em que precisamos pular pela janela para acessar a casa do vizinho”, relata André, morador da área, em entrevista realizada no dia 20 de março.

As inundações tornam o beco completamente intransitável, prejudicando tanto a circulação dos moradores quanto causando danos significativos às residências e aos móveis. Para lidar com essa situação recorrente, os moradores frequentemente precisam contar com o apoio de amigos e familiares, já que estão sempre gastando com reformas e reposição de bens danificados. “Antes nossa cama era feita de palete. Não temos o luxo de adquirir móveis novos; a população aqui realmente sofre”, enfatiza André.

Em um retorno a um pedido feito pelo comitê local, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) informou que a única estrutura disponível para drenagem na região é um pequeno córrego. Este córrego inicia-se na Rua Henrique Cafasso, atravessa a Rua José Simeão Dutra e segue ao longo do Beco 901 até encontrar a linha férrea. A partir desse ponto, as águas seguem por um canal natural aberto até desaguar no Córrego Jardim, que corresponde ao antigo leito do Rio Verde. O SAAE reconhece que este sistema é característico de microdrenagem urbana; no entanto, admite que durante chuvas intensas nos meses mencionados, ele não consegue drenar adequadamente as águas pluviais, resultando em enchentes inevitáveis.

O SAAE também observou que após uma grande inundação em 2000 foram realizadas intervenções na área para substituir uma parte da canalização existente, embora não tenha havido ampliação do diâmetro dessa tubulação. Em 2019, outra obra foi feita com caráter paliativo, visando melhorar a drenagem em situações de chuvas fortes.

A localização do Beco 901 em uma das áreas mais baixas do bairro conhecido como Cafundó contribui para os alagamentos; é como se fosse o fundo de um funil. A combinação das características montanhosas da região com construções irregulares e sem planejamento adequado por parte do governo histórico resulta na persistência desse problema.

Segundo o SAAE, resolver a questão das enchentes no Beco 901 exige “ações integradas de planejamento urbano e intervenções mais abrangentes sobre o uso e ocupação do solo”. Isso implica na necessidade de desocupar as casas da área para que as obras possam ser realizadas. Em contrapartida, a prefeitura sugere que os moradores paguem por novas moradias antes das intervenções necessárias serem feitas.

André critica o projeto da prefeitura para construir habitações populares destinadas aos residentes do Beco 901: “A prefeitura só faz promessas. Dizem que vão construir casas populares para nós, mas nas reuniões afirmam que precisamos pagar por elas. Se tivéssemos condições financeiras já teríamos comprado outro lugar e saído daqui”.

No início de janeiro de 2023, a administração municipal anunciou uma força-tarefa destinada a enfrentar os problemas ocasionados pelas chuvas. “Estamos comprometidos em oferecer toda assistência possível para minimizar os danos causados pelas chuvas e atender todas as famílias afetadas… Queremos também solucionar os problemas das famílias muito impactadas no Beco 901. São 11 famílias e conversei com elas sobre realocação para evitar essa situação”, declarou Walter José Lessa (PSD), prefeito atual na ocasião. Essa declaração foi feita um ano antes dele conquistar seu segundo mandato como prefeito. Contudo, três anos depois, as condições no beco permanecem inalteradas.

Além disso, os moradores enfrentam rumores infundados por pessoas externas à comunidade que desconhecem sua realidade. É comum ouvir afirmações errôneas sobre a suposta oferta de casas pela prefeitura aos moradores, insinuando que eles se recusam a deixar suas residências. Esses comentários servem não apenas para justificar o abandono histórico do Estado como também para desacreditar as legítimas reivindicações dos moradores.

A farsa eleitoral

O bairro Nossa Senhora de Lourdes e seu vizinho Biquinha formam o maior “curral eleitoral” da cidade. Moradores do Beco 901 relatam frequentes visitas de políticos durante períodos eleitorais prometendo melhorias nas condições locais; porém, após serem eleitos, essas promessas frequentemente não são cumpridas.

Conforme apontado pela Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) em 2018: “[…] Este sistema político corrupto é composto por candidatos mentirosos e demagogos […] É ele quem perpetua um sistema semicolonial/semifeudal onde se desenvolve um capitalismo burocrático arcaico; é responsável pela exploração e miséria da maioria da população enquanto poucos desfrutam privilégios indecentes.”

As enchentes e outros problemas relacionados às chuvas em São Lourenço não são casos isolados; eles refletem uma política sistemática de negligência dos governantes locais. As fortes chuvas não estão na raiz dos danos significativos sofridos pela população; essa responsabilidade recai sobre a falta histórica de investimentos em planejamento urbano adequado e infraestrutura necessária. Torna-se claro que a dignidade dos trabalhadores jamais será alcançada através das promessas vazias feitas em gabinetes ou pelas manipulações eleitorais burguesas, mas sim pela organização independente e luta ativa do povo pelos seus direitos democráticos fundamentais.

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