
Quatro amigos vindos do interior paranaense se relocam para o Rio de Janeiro. Eles encontram um apartamento em Copacabana e se esforçam para continuar seus estudos na faculdade. Enfrentando sérias dificuldades financeiras, decidem organizar eventos sombrios voltados para a elite carioca com o intuito de arrecadar dinheiro. Essa é a premissa de Jantar Secreto, obra lançada por Raphael Montes em 2016 e que, no ano passado, conquistou as listas de ficção mais vendidas do Brasil, ampliando sua popularidade internacional.
+ Clique aqui para receber VEJA RIO em sua casa
O livro será lançado em agosto nos Estados Unidos e já foi destacado pelo New York Times como uma das leituras imperdíveis do verão. No Brasil, o autor, reconhecido como uma voz importante no gênero suspense, planeja uma nova edição da obra que incluirá um capítulo inédito. Além disso, seu próximo lançamento, A Estranha na Cama, chegará às prateleiras em julho e será adaptado para um filme da Netflix, com Paolla Oliveira, Bella Campos e Vera Fischer no elenco.
Após o sucesso das três temporadas de Bom Dia, Verônica e do sucesso estrondoso da novela Beleza Fatal, que estreou na HBO Max, Montes também está envolvido na criação e produção do roteiro de Elize — A Sombra de uma Mulher, inspirado na história real de Elize Matsunaga. Em uma entrevista recente, ele compartilha suas reflexões sobre o reconhecimento internacional e seu interesse pelo horror.
O que fez com que uma publicação de 2016 retornasse ao topo das listas no ano passado?A trajetória dos livros muitas vezes é gradual, com leitores sendo conquistados ao longo do tempo através de recomendações. Momentos decisivos ocorreram, como um vídeo viral em 2024 e a visibilidade obtida por meio dos meus projetos audiovisuais. Esse fenômeno ocorreu em um período em que não só autores brasileiros como Socorro Acioli, Carla Madeira e Itamar Vieira Junior estão sendo apreciados, mas também toda a nossa cultura artística está recebendo atenção devido ao sucesso dos filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. O mundo voltou seus olhos para o Brasil.
O que representa essa internacionalização para sua carreira?A diferença é clara: há um abismo entre ser um autor exótico com obras traduzidas e ser reconhecido como um autor global. A literatura latino-americana muitas vezes é apresentada sob uma ótica quase fetichista quando publicada fora do nosso continente. Graças ao apoio de uma agente literária renomada, consegui estabelecer parceria com uma editora disposta a investir seriamente na minha trajetória. Recebi uma proposta atrativa, com cifras de seis dígitos — um valor elevado até mesmo pelos padrões internacionais.
A história vai ressoar entre os leitores estrangeiros?Embora ambientada em Copacabana, Jantar Secreto aborda jovens lutando para sobreviver em meio a altos índices de desemprego. A narrativa explora ambições e os limites éticos que cada personagem está disposto a transgredir. Utilizei uma trama intensa para discutir temas como poder, desigualdade e os excessos de uma elite autoproclamada superior que marginaliza os menos favorecidos — tudo isso antes da ascensão da inteligência artificial e dos escândalos envolvendo Jeffrey Epstein.
Nos últimos dois anos, o Brasil ganhou três milhões de novos leitores. As redes sociais tiveram algum papel nisso?A leitura deixou de ser exclusivamente um tema tratado pela crítica literária especializada; agora são as pessoas comuns quem compartilham suas opiniões sobre livros nas redes sociais. Isso transformou a literatura em um assunto cotidiano assim como dicas gastronômicas ou tendências de moda. Essa mudança ajudou a desmistificar a ideia de que ler é algo restrito a poucos privilegiados. Além disso, eventos literários como bienais ampliaram o acesso à leitura pelo país.
Qual é a origem do seu fascínio pelo perturbador?Nós temos curiosidade sobre o porquê das pessoas cometerem atos monstruosos. Curiosamente, 80% do público que consome conteúdo relacionado ao true crime é composto por mulheres que buscam entender as razões por trás da violência que enfrentam. A ficção nos permite explorar esses medos dentro da segurança oferecida pela leitura enquanto também exercitamos nosso lado sombrio. Ademais, vivemos tempos repletos de crises sociais, guerras e transformações tecnológicas; o horror se revela como uma ferramenta poderosa para abordar esses medos contemporâneos.
A recente situação envolvendo o filme A Orfã, onde uma mulher se fez passar por criança para ser adotada, levanta questões: a ficção pode inspirar crimes?Pode sim ocorrer essa inspiração; entretanto, frequentemente a realidade superará qualquer narrativa ficcional em termos de absurdidade. As histórias alcançam os leitores de maneiras inesperadas. Ao escrever meus romances, não me preocupo com o impacto específico que eles terão sobre cada leitor; aprendi que essa é uma variável impossível de calcular.
Qual é sua fórmula para criar um bom suspense?A chave está em desenvolver personagens complexos que não se revelam imediatamente nas primeiras páginas da narrativa. Assim como na vida real, precisamos descobrir quem são aos poucos. Também valorizo bastante reviravoltas inesperadas e considero essencial oferecer um final surpreendente. Meu objetivo sempre é compor algo que provoque reflexão ou inquietação no leitor — essa motivação me leva a dedicar anos à elaboração de cada livro.
Como você se sente ao ver seus personagens ganhando vida nas adaptações cinematográficas?Compreendo que essas versões são apenas uma das várias interpretações possíveis. De certa forma, ao serem transpostas para o cinema ou streaming, as histórias perdem parte da liberdade imaginativa proporcionada pela leitura. Quando ingressei no audiovisual não tinha muita influência sobre o processo criativo; minha chance surgiu com Bom Dia, Verônica, onde atuei como criador e produtor executivo supervisionando todo o desenvolvimento — desde então não abro mão dessa participação ativa.
E qual é sua fonte de inspiração?Criar exige estar atento ao mundo ao redor — ouvir as pessoas e observar tendências sociais são fundamentais. Em Uma Família Feliz, utilizei conversas com amigas sobre maternidade como ponto de partida e logo descobri a comunidade das mães que adotam bebês reborn; isso foi antes dessa prática ganhar notoriedade maior na sociedade atual. Mantenho sempre meu ouvido aberto até mesmo nas conversas cotidianas à mesa do jantar — especialmente aquelas onde alguém traz à tona ideias absurdas com naturalidade.
