
O girassol, que se move em sintonia com o sol, inspirou o título de uma das canções mais conhecidas de Alceu Valença. Para celebrar seus oitenta anos, o artista pernambucano nomeou sua nova turnê em homenagem à flor, com um girassol representando cada ano vivido.
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Em comemoração ao seu aniversário emblemático, que será celebrado na próxima quarta-feira (1º), Valença está percorrendo diversas cidades do Brasil com um espetáculo que apresenta sua trajetória musical. As canções se entrelaçam como uma narrativa cinematográfica, complementadas por projeções de fotografias que documentam sua infância em São Bento do Una.
Ao longo de sua carreira, o artista se destaca como o mais jovem octogenário da música brasileira. Ele mantém um estilo de vida ativo, caminhando cerca de 10 mil passos diariamente. Com mais de trinta álbuns lançados, ele é responsável por clássicos como Anunciação, Tropicana (Morena Tropicana) e La Belle de Jour. Em sua incansável busca por expressão artística, Valença planeja lançar um auto-documentário e um livro de crônicas e poesias após suas apresentações agendadas na Europa entre outubro e novembro.
Pouco antes de encerrar sua turnê nacional na sexta-feira (3), na Fundição Progresso, ele compartilhou detalhes sobre seu processo criativo e expressou preocupação com a diminuição dos lucros provenientes das plataformas de streaming.
Como está sendo a experiência de comemorar nos palcos? Nunca fui muito de celebrar aniversários, nem mesmo quando morava com meus pais. O que realmente gosto é de cantar; por isso, criei um show que retrata minha história através da música. Temos projeções com fotos antigas e obras da minha coleção. O público tem a sensação de entrar na minha casa e me acompanhar em diversas fases da minha vida.
Ao revisitar essas diferentes etapas da vida, quais mudanças você percebe no Brasil? Atualmente, vivemos em um cenário político confuso, mas nada comparável ao período da Ditadura Militar. O Brasil avançou, mas agora é urgente uma distribuição mais justa da renda. A concentração econômica é tão acentuada que parte dela não circula. Quando vivi na França no final dos anos 1970, havia um estado que oferecia suporte social significativo à população.
A canção Anunciação reflete o período da redemocratização? Toda arte possui múltiplas interpretações. Cada pessoa entende a música à sua maneira, baseada em suas vivências. Muitas mulheres já me disseram que a letra fala sobre a chegada dos filhos; outros a veem como uma reflexão sobre a volta da democracia após os anos difíceis. Na verdade, essa canção surgiu espontaneamente enquanto eu aprendia flauta transversa em casa em Olinda.
Seu processo criativo é sempre espontâneo? Sim. Minha esposa costuma dizer que tenho “surtos criativos”. Não adianta me pedir para compor; só faço isso quando sinto inspiração. Sou bastante visual: por exemplo, Como Dois Animais nasceu de uma cena durante um Carnaval à noite, onde vi uma menina fantasiada de onça pintada apaixonada por um rapaz vestido como cachorro. “Meu olhar vagabundo de cachorro vadio / Olhava a pintada e ela estava no cio / E era um cão vagabundo e uma onça-pintada / Se amando na praça como os animais.” A pergunta que fica é: será que esse cachorro sou eu? (risos).
A sua intelectualidade demorou para ser reconhecida? Enfrentei dificuldades ao deixar Pernambuco para buscar uma carreira artística no Rio, onde estavam as gravadoras. A verdadeira mudança aconteceu com a internet; meus vídeos começaram a viralizar, como uma performance improvisada no Leblon quando fui convidado por uma banda de rua para cantar. Desde então, minhas músicas ganharam visibilidade e atingiram pessoas que ainda não conheciam meu trabalho.
Qual sua opinião sobre as plataformas de streaming? Sempre me apresentei na Europa e o público era predominantemente brasileiro vivendo fora do país. Hoje percebo franceses e alemães cantando junto às minhas músicas; até mesmo torcedores do Cerro Porteño adaptaram Anunciação para seus cânticos nas arquibancadas. Isso mostra o impacto da tecnologia. Contudo, os ganhos para os artistas são muito baixos; quem realmente se beneficia são aqueles que fazem shows ao vivo. Uma coisa bonita é ver meu público abrangendo várias gerações; especialmente aprecio o carinho das crianças — elas percebem meu lado infantil também.
Dizem que você não ouve música? Esse nunca foi um hábito meu. Meu pai não incentivava essa prática porque queria que eu focasse nos estudos na faculdade de direito. Nunca guardei discos; tenho apenas algumas gravações da minha mãe. Recentemente comecei a explorar meu repertório novamente pelo Spotify — foi uma experiência interessante que me fez relembrar momentos do passado: recordei quando gravei Cavalo de Pau, lá nos anos 1980; andei pela barca com Geraldo Azevedo em Niterói fazendo arranjos com músicos mais experientes e lembrei-me também de um encontro fugaz com uma moça vestida de bailarina cheia de purpurina na frente da Igreja Nossa Senhora da Misericórdia em Olinda — ela serviu como inspiração para minha canção A Mensageira dos Anjos.
O que o Brasil aprendeu com o Nordeste?No passado, cantar forró era motivo para zombarias; era visto como algo ultrapassado enquanto os jovens eram atraídos pelo rock’n’roll. Havia uma certa vergonha relacionada à cultura popular nordestina. Com o tempo essa percepção mudou: hoje o forró é respeitado e reconhecido como um gênero sofisticado — algo semelhante ao ocorrido com samba e bossa nova. Espaços como o Circo Voador foram essenciais para dar visibilidade aos artistas desse ritmo e conectar novas audiências.
E como você se sente aos 80 anos?A percepção do tempo é curiosa; parece se estender como um fio delicado. Vivo intensamente o presente enquanto também reflito sobre passado e futuro — numa espécie de “Embolada do Tempo”: “Eu marco o tempo / Na base da embolada / Da rima bem-ritmada / Do pandeiro e do ganzá”. Isso leva à reflexão filosófica: sinto-me muito jovem ainda! E quem me vê no palco também provavelmente não acreditaria que tenho 80 anos!
