O governo de Daniel Noboa instituiu um novo estado de exceção em dez províncias e três cantões do Equador, seguido pela reclassificação da situação como “conflito armado interno”. Essa decisão abre as portas para a atuação de tropas de países aliados no território equatoriano. A Frente de Defesa das Lutas do Povo do Equador (FDLP-EC) criticou essas ações, considerando-as parte de uma estratégia de militarização, submissão da soberania nacional e repressão às massas populares.
O estado de exceção foi proclamado no dia 17 de junho, afetando mais de 65% da população equatoriana. Apenas dois dias após o anúncio, Noboa recorreu à designação de “conflito armado interno”, declarando que forças aliadas poderiam se integrar ao chamado “bloco de segurança” em áreas identificadas pelo governo como mais vulneráveis à violência.
Além disso, a nova medida amplia as garantias legais para militares, policiais e civis envolvidos nas operações. Informações divulgadas por um veículo internacional indicam que essa disposição também se estende a soldados estrangeiros que operam no Equador, criando a possibilidade de indultos ou reduções de pena para aqueles que participarem das ações repressivas.
Em um comunicado emitido em 23 de junho, a FDLP-EC acusou Noboa de estar intensificando a militarização do país e abrindo espaço para a presença de mercenários estrangeiros. A organização exigiu o cancelamento das normas que permitem a inserção de forças militares e policiais estrangeiras no Equador, alegando que o governo se submete aos interesses imperialistas.
Referendo rejeitou bases estrangeiras
A ofensiva acontece poucos meses após um referendo realizado em novembro de 2025, quando a maioria da população equatoriana rejeitou a proposta que permitiria o retorno das bases militares estrangeiras ao país. Aproximadamente 60% dos eleitores votaram contra essa medida apoiada por Noboa.
Mesmo com o resultado contrário da votação, o governo continuou a fortalecer sua cooperação militar com os Estados Unidos. A FDLP-EC denunciou que a presença de tropas estrangeiras sob a justificativa do combate ao narcotráfico reforça a dependência do país às estratégias imperialistas na região.
A organização alertou que conceder imunidade ou tratamento especial a agentes e tropas estrangeiras cria condições propícias para abusos e violências direcionadas principalmente contra as populações mais vulneráveis. Segundo eles, o discurso oficial sobre o combate ao crime organizado serve apenas para legitimar uma expansão dos mecanismos repressivos em bairros pobres e comunidades indígenas.
Estado de exceção aprofunda repressão
A FDLP-EC denunciou que as novas medidas do estado de exceção comprometem garantias fundamentais como a inviolabilidade da residência e da correspondência, além de aumentar os poderes dos órgãos policiais e militares sobre as atividades cotidianas da população.
De acordo com a entidade, os novos regulamentos possibilitam um aumento significativo nas invasões domiciliares, detenções arbitrárias e vigilância em áreas urbanas e rurais. A Frente destacou casos ocorridos no cantão Las Naves, na província Bolívar, onde camponeses estão resistindo à exploração por grandes corporações mineradoras.
A organização lembrou que em março passado, durante outro estado de exceção acompanhado por toque de recolher, tropas das Forças Armadas realizaram invasões nas residências e propriedades dos líderes que resistem às mineradoras nas províncias Los Ríos e Bolívar. Segundo a FDLP-EC, essa ação visou intimidar as comunidades locais e desarticular o movimento popular contra o saque dos recursos naturais.
A Frente declarou ainda que os repetidos estados de exceção se tornaram instrumentos permanentes para reprimir o povo equatoriano. “A violência enfrentada pelas massas é resultado da agressiva influência imperialista ianque, da crise do capitalismo burocrático e da ganância de um regime subserviente aos interesses da grande burguesia e dos latifundiários”, conclui o comunicado.
