No dia 3 de julho, em El Alto, o governo boliviano prendeu Vicente Salazar, secretário executivo da Federação Camponesa Túpac Katari. Essa detenção faz parte de uma campanha de repressão política e judicial contra líderes e movimentos sociais que participaram de 53 dias de bloqueios em todo o território nacional. Sob a administração de Rodrigo Paz, que se alinha aos interesses do grande capital e dos Estados Unidos (EUA), as mobilizações populares têm sido rotuladas como terrorismo, justificando assim a prisão de ativistas e dirigentes.
Salazar foi levado à Força Especial de Combate ao Crime (FELCC) em La Paz, integrando um contexto de repressão intensificada pelos Ministérios do Interior e da Defesa. O governo apresentou uma denúncia formal contra ele, além do ex-presidente Evo Morales e do líder da Central Operária Boliviana (COB), Mario Argollo, acusando-os de crimes relacionados a levante armado, associação criminosa e financiamento do terrorismo. O Ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo, reconheceu que já foram protocoladas 44 denúncias no Ministério Público, evidenciando a intenção de punir severamente qualquer forma de desobediência ao regime institucional.
O Comitê Pró-Santa Cruz, representando os interesses do setor agropecuário na região de Santa Cruz, tem liderado essa onda punitiva. A entidade exige que o governo trate as manifestações como ações bélicas. Agustín Zambrana, vice-presidente do comitê, afirmou que busca responsabilizar criminalmente aqueles que provocaram danos econômicos devido aos bloqueios.
Durante um discurso na Escola Cóndores das forças especiais do exército boliviano, o presidente Rodrigo Paz reiterou seu apoio à repressão ao declarar que “os conspiradores devem ser penalizados” pelos bloqueios, caracterizando a mobilização popular como “narcoterrorismo”. O Ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, reforçou essa estratégia opressora ao encorajar a população a denunciar novos casos: “Há todo um processo sendo conduzido pelo Ministério do Interior e pelo Ministério da Defesa. Além disso, esperamos que denúncias criminais sejam feitas pela sociedade civil”, disse Justiniano.
Roger Mariaca, Procurador-Geral do Estado, destacou a extensão da repressão jurídica ao informar que mais de 300 indivíduos estão sob investigação por sua participação nos bloqueios. “Diversos processos estão em andamento por todo o país, com prisões e acusações em curso. Mais de 300 pessoas estão sendo investigadas em várias localidades como La Paz, Cochabamba, Santa Cruz, Chuquisaca, Oruro e Potosí”, afirmou Mariaca.
Traições e manobras de capitulação
<pNa madrugada do dia 20 de junho, a liderança da COB, sob Mario Argollo, firmou um acordo questionável com o governo de Paz para encerrar os bloqueios sem assegurar conquistas significativas. Essa capitulação excluiu intencionalmente organizações como a Federação Túpac Katari e a Confederação Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), permitindo ao governo recuperar seu fôlego e iniciar uma forte repressão até mesmo contra aqueles que se submeteram.
Enquanto isso, Evo Morales tenta se desvincular do movimento popular ao negar qualquer envolvimento nos bloqueios. Em uma coletiva à imprensa, ele declarou não conhecer os grupos armados dos Ponchos Vermelhos e buscou dissociar sua imagem da resistência radicalizada. No entanto, esta tentativa ocorre paralelamente às ações judiciais enfrentadas por ele devido à reação governamental.
Aproveitando-se da desmobilização social atual, o governo e setores conservadores no parlamento iniciaram um ataque aos direitos sindicais na tentativa de revogar decretos que garantem licenças remuneradas para dirigentes. A deputada Lucero Justiniano usou o argumento da eliminação de privilégios para atacar as organizações sindicais enquanto o Executivo justifica medidas austeras com base nos custos econômicos dos protestos.
