A carta de Jair Bolsonaro, na qual ele apresentou Flávio como seu porta-voz e candidato à Presidência, evidencia a influência que o ex-mandatário ainda detém sobre a direita. Contudo, essa declaração não resolveu os conflitos existentes com figuras como Michelle Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas e partidos que atuam nesse mesmo espaço político.
No episódio A Propósito #370, veiculado em 23 de julho no canal da AND no YouTube, Victor Bellizia, diretor-geral do veículo, comentou que Jair Bolsonaro permanece uma figura proeminente no espectro da direita, embora sua autoridade tenha perdido a força quase indiscutível que tinha anteriormente. “Bolsonaro ainda mantém uma posição hegemônica entre os direitistas. Ele continua tendo a capacidade de transferir votos e por isso ainda reúne forças. Contudo, sua liderança está sendo contestada”, disse ele.
Bellizia também ressaltou que personagens que se opuseram a Bolsonaro em seus momentos de maior poder foram ou afastados ou se tornaram irrelevantes. Sérgio Moro teve que voltar ao seu círculo após romper com o governo, e generais que se distanciaram perderam espaço político. Mourão foi gradualmente excluído enquanto Janaína Paschoal praticamente desapareceu do cenário político nacional.
A dinâmica atual é distinta. Caiado critica Flávio e mantém sua própria candidatura, enquanto Tarcísio manifesta publicamente suas divergências sobre as urnas sem perder força em São Paulo. Esses eventos indicam que Bolsonaro já não tem o mesmo poder para eliminar politicamente aqueles que questionam suas orientações.
A deterioração de sua influência também é visível nas ruas. Uma manifestação realizada em fevereiro de 2024 na avenida Paulista atraiu aproximadamente 185 mil pessoas, conforme estimativas do Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo. Em junho de 2025, outro ato contou com uma participação entre 12,4 mil e 16,4 mil indivíduos.
Nas eleições municipais de 2024, apenas sete dos 25 candidatos respaldados pessoalmente por Bolsonaro no segundo turno conseguiram vencer. Simultaneamente, o PL ampliou sua atuação nas prefeituras, evidenciando que a direita pode se fortalecer institucionalmente sem depender tanto da transferência direta de votos do antigo líder.
De acordo com Victor, a candidatura de Flávio visa preservar o legado político de Jair Bolsonaro. Mesmo sem vencer, o ex-presidente poderá reivindicar a liderança do grupo caso prove continuar sendo um importante transferidor de votos.
“O triunfo nas eleições pode não ser a prioridade imediata para Bolsonaro. O principal objetivo dele é reafirmar sua posição e manter sua hegemonia no campo da direita. Para isso, é necessário lançar seu filho como candidato, mesmo que ele não vença”, afirmou ele.
No entanto, Bellizia advertiu que a diminuição da influência pessoal de Bolsonaro não elimina os riscos representados pela extrema direita. Figuras como Caiado e Tarcísio podem adotar suas propostas antipopulares relacionadas às questões agrárias, policiais e militares.
“Bolsonaro pode continuar ativo politicamente mesmo se for derrotado, e o enfraquecimento de sua liderança não significa necessariamente um declínio dos princípios da extrema direita”, finalizou.
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