O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, conhecido como Itamaraty, rejeitou os pedidos de visto apresentados pelo governo do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para dois membros do Departamento de Estado americano. Os requerentes, Riley M. Barnes e Samuel Samson, planejavam visitar Brasília entre 27 e 30 de julho. Fontes governamentais que preferiram não se identificar indicaram que a intenção da viagem era semear desconfiança sobre “a integridade e a transparência do sistema eletrônico de votação” brasileiro, além de tentar influenciar o processo eleitoral no país.
Os pedidos foram protocolados no dia 20 de julho e a resposta negativa foi dada em 24 de julho. Apesar disso, a recusa à missão foi seguida por um convite para uma nova apresentação institucional aos diplomatas dos EUA. Em comunicado emitido no dia 25 de julho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que realizará uma apresentação sobre o funcionamento das urnas eletrônicas no dia 17 de agosto, direcionada a embaixadores e representantes diplomáticos, incluindo os dos Estados Unidos. A corte também mencionou que sua área internacional havia sido contatada pela embaixada americana, mas não havia informações sobre o tema específico da reunião desejada. Vale ressaltar que nenhuma agenda foi marcada devido ao recesso do mês de julho.
Informações divulgadas pelo jornal The Washington Post indicam que a delegação incluía Riley Barnes, secretário-assistente do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto da mesma divisão. O periódico destacou que Samson tem trabalhado em diversos países na África e na Europa com o objetivo de promover as políticas conservadoras do governo Trump e estabelecer laços com grupos ultraconservadores.
<pUm funcionário sênior do Departamento de Estado e três “autoridades” brasileiras, também sob anonimato para o jornal mencionado, afirmaram que a visita tinha como objetivo lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Em resposta às acusações, o Departamento de Estado classificou as alegações como “falsas” e descreveu a missão como uma atividade “normal”. Segundo esse órgão, os representantes discutiriam temas como “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão” com autoridades do governo local.
No entanto, essa suposta “visita normal” ocorreu durante um período eleitoral delicado sem que o TSE fosse informado sobre os itens específicos da pauta discutida. Esse movimento coincidiu com pedidos do clã Bolsonaro por maior envolvimento estrangeiro nas eleições. Sob a bandeira da “liberdade” e da “integridade eleitoral”, Washington buscava legitimar sua intervenção nos assuntos internos brasileiros.
Aumento da ingerência americana
A tentativa de envio dos representantes norte-americanos faz parte de uma estratégia mais ampla de intervenção dos EUA no Brasil. Essa estratégia inclui pressões comerciais relacionadas ao acesso aos recursos minerais essenciais do país e alianças políticas com o clã Bolsonaro. Nos meses anteriores à negativa dos vistos, os Estados Unidos iniciaram negociações com o Brasil sobre cadeias produtivas desses minerais; em abril, a empresa americana USA Rare Earth anunciou um acordo no valor de 2,8 bilhões de dólares para adquirir a Serra Verde Resources, proprietária da mina Pela Ema em Goiás. Em julho passado, Washington impôs tarifas adicionais de 25% sobre diversos produtos brasileiros e logo após implementou uma sobretaxa extra de 12,5%. Com isso, os EUA tentam aumentar seu controle econômico sobre o Brasil através da pressão comercial enquanto buscam influenciar até mesmo as eleições.
A solicitação dos vistos coincidiu com declarações feitas por Luiz Inácio Lula da Silva sugerindo que se o secretário de Estado Marco Rubio quisesse apoiar Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras deveria vir ao país pessoalmente para organizar um “comitê”. Em resposta à solicitação feita pelo Departamento de Estado americano sobre interesse nas eleições brasileiras três dias após essa declaração pública ocorreu uma manifestação oficial onde Washington defendeu seu envolvimento alegando interesse na defesa da “liberdade” e “integridade” dos processos democráticos: “Os Estados Unidos possuem um interesse histórico na promoção da liberdade de expressão em todo o mundo.”
Após a recusa da missão diplomática dos EUA, Luiz Inácio reafirmou sua posição patriótica ao afirmar que quem tentasse interferir nas eleições brasileiras enfrentaria consequências severas nas urnas. Contudo, sua atitude prática foi contraditória: embora tenha negado os vistos solicitados pela missão americana, imediatamente convidou os diplomatas para uma nova apresentação das urnas eletrônicas enquanto não respondia adequadamente às pressões comerciais vindas dos EUA.
A ofensiva imperialista não é um caso isolado; ela remete ao episódio em março deste ano quando o governo brasileiro revogou o visto concedido a Darren Beattie, conselheiro do Departamento de Estado encarregado das relações com o Brasil que queria se encontrar com Jair Bolsonaro na prisão. O pedido inicial não mencionava tal encontro e apenas citava compromissos oficiais no país. O Itamaraty justificou sua decisão pela falta de informação clara no pedido; Luiz Inácio afirmou que Beattie só poderia entrar no Brasil novamente se Washington restabelecesse o visto do ministro Alexandre Padilha.
Aliados abrem espaço para intervenção
No dia 21 de julho, Flávio Bolsonaro organizou um evento privado reunindo embaixadores e representantes diplomáticos de mais de 40 países. Durante essa reunião fechada ao público ele levantou questionamentos sobre as urnas eletrônicas usadas no Brasil e fez comparações com equipamentos fornecidos pela Smartmatic à Venezuela. Flávio pediu aos presentes que enviassem “o maior número possível” de observadores para acompanhar as eleições brasileiras.
Essa acusação carece de fundamento já que a Smartmatic não é responsável pelas urnas ou programas utilizados nas eleições brasileiras. No entanto, serviu como pretexto para justificar uma maior intervenção internacional no pleito nacional. O pedido por mais observadores surgiu logo após os pedidos feitos pelos EUA para os vistos dos funcionários mencionados anteriormente; essa proximidade gerou desconfiança quanto à real intenção por trás das movimentações. Fontes diplomáticas indicaram que havia uma conexão entre esses eventos indicando que Flávio tentava preparar uma narrativa legitimadora para contestar uma possível derrota utilizando apoio externo.
Em análise realizada no programa A Propósito #370 no dia 23 de julho passado , Victor Bellizia destacou que Flávio estava intensificando ataques às urnas para reforçar sua base ultrabolsonarista: “Ele busca reconhecimento dentro desse grupo”. No entanto ressalvou que essa postura não representa necessariamente uma alternativa viável às práticas eleitorais vigentes: “As massas estão insatisfeitas tanto com esta democracia quanto com suas negações”.
Dois dias após esse encontro fechado , Eduardo Bolsonaro participou também dessa dinâmica ao realizar uma transmissão ao vivo junto ao consultor político argentino Fernando Cerimedo , conhecido por seu envolvimento na campanha presidencial de Javier Milei e investigado pela Polícia Federal brasileira por supostas ligações com um plano golpista em 2022 . Durante a transmissão ambos reafirmaram acusações relacionadas à integridade das eleições brasileiras , insinuando a possibilidade real de fraudes através da manipulação parcial das urnas .
A realização desse evento aconteceu logo depois que Eduardo conquistou residência permanente nos EUA através da categoria EB-1A destinada a indivíduos considerados portadores excepcionais habilidades. Desde então ele reside nos Estados Unidos buscando proteção contra perseguições judiciais alegadas em seu país natal . Recentemente ele havia sido condenado à pena privativa liberdade por coação durante processo judicial relacionado à aplicação sanções contra membros do judiciário brasileiro .
A concessão desse visto ocorreu em meio à implementação adicional por parte do governo Trump das tarifas econômicas elevadas sobre diversos produtos brasileiros . Em 24 julho , Washington anunciou mais uma tarifa adicional elevando assim as taxas totais para cerca 37% sobre parte significativa das exportações nacionais destinadas aos EUA . Essa sequência tarifária reflete estratégias semelhantes adotadas anteriormente relacionadas às ações promovidas Eduardo durante sua passagem por Washington .
Ataques refletem crise democrática
No evento denominado “Debatendo o Brasil”, ocorrido em junho último , o presidente do TSE apresentou medidas adotadas pela corte visando garantir segurança nas eleições nacionais . Nunes Marques enfatizou iniciativas voltadas combate desinformação além esforços fortalecer confiança pública nesse sistema eleitoral .
Tais ações ocorrem num contexto onde há crescente distanciamento das massas perante sistema político vigente ; caracterizado especialmente pela burocracia arcaica latifundiária . Em 2025 , mais cinco milhões títulos eleitorais foram cancelados devido ausência injustificada ou multas relativas três votações consecutivas , representando cerca 3% total eleitores habilitados naquele ano . Segundo estimativas feitas pelo cientista político Antônio Alkmin cerca oito milhões brasileiros elegíveis nem sequer possuem documento necessário votar ; isso corresponde aproximadamente cinco porcento total eleitorado potencial . Alkmin salientou também como taxa abstenção impacta desigualmente diferentes classes sociais regiões educativas diversas
No A Propósito #370 transmitido dia 23 julho , jornalista Enrico Di Gregório junto diretor-geral AND, Victor Bellizia analisaram crise extrema direita farsa eleitoral crescente rejeição popular pleitos atuais . Victor ressaltou como insatisfação geral frente velha ordem política não implica necessariamente adesão fascismo ; mas bolsonaristas tentam tirar proveito desse descontentamento popular visando capturá-lo enriquecer suas próprias ideias ultrarreacionárias
O representante AND concluiu apontando contribuição falsa esquerda oportunista nesse cenário defendendo velha ordem contradizendo promessas feitas às massas : “A crise democracia burguesa reflete ciclo enganosos ; caso persistam nesse caminho extrema direita sairá ganhando imediatamente”. Portanto revolucionários devem lutar impedir captura maior número possível pessoas por ideologias fascistas ; raiz problema encontra-se enraizada nessa velha democracia.”
