
Em Florianópolis e Joinville, entregadores de aplicativos participaram de protestos e paralisações que se uniram ao Breque Nacional, uma mobilização que ocorreu entre os dias 31 de julho e 2 de agosto em várias cidades brasileiras. No estado de Santa Catarina, esses profissionais destacaram a crescente precarização do trabalho imposta pelos monopólios digitais, com foco especial no sistema “Mais Entregas”, lançado pelo iFood. Os trabalhadores exigiram melhores condições de pagamento, infraestrutura adequada e respeito aos seus direitos.
Embora cada município tenha elaborado suas próprias atividades de mobilização, todos os protestos compartilham um objetivo central: impedir o avanço de um modelo de gestão que intensifica a carga de trabalho, diminui os rendimentos dos entregadores e aumenta o controle das plataformas sobre a rotina desses profissionais.
Modelo “Mais Entregas”: mais exploração em troca de menos pagamento
A modalidade “Mais Entregas”, recentemente introduzida pelo iFood, foi o principal alvo das manifestações. Esse sistema permite o agendamento prévio das áreas onde os entregadores atuam e a concentração de múltiplas entregas para um único trabalhador.
Segundo informações da empresa, essa abordagem visa reduzir os deslocamentos e aumentar a eficiência nas entregas. No entanto, motoboys criticam que essa medida acentua o controle sobre o tempo disponível para trabalho, a localização e a disponibilidade dos entregadores, enquanto diminui drasticamente o valor pago por cada entrega.
Na prática, a plataforma agrupa vários pedidos em uma única rota sem compensar adequadamente pela distância percorrida ou pela quantidade de trabalho realizada. Isso resulta em uma maior intensidade de trabalho sem um aumento correspondente na remuneração, ao passo que todos os custos relacionados ao combustível, manutenção da moto, equipamentos e os riscos diários do trânsito continuam sendo responsabilidade dos trabalhadores.
Além disso, esse sistema cria divisões entre os próprios entregadores ao conceder prioridade nas chamadas para aqueles que optam por aderir à nova modalidade. Enquanto parte da categoria luta pela valorização das tarifas mínimas, a plataforma tenta atrair trabalhadores dispostos a aceitar condições financeiras inferiores, dificultando assim a união do grupo frente às pressões dos monopólios digitais.
Durante o período de paralisação, alguns trabalhadores relataram que o iFood tentou desmobilizar o movimento oferecendo promoções e incentivos financeiros temporários para estimular as entregas durante o breque.
“Durante a semana não temos promoção nenhuma. Agora que estamos em greve o iFood tenta nos forçar a aceitar essas condições. Mas não vamos ceder”, afirmou um grupo de motoboys participantes da paralisação em Joinville.
Mobilização em Florianópolis antecede Breque Nacional
A mobilização em Florianópolis teve início antes do Breque Nacional, no dia 27 de julho, com uma manifestação na Praça da Fraternidade onde dezenas de entregadores se reuniram para expor as precariedades enfrentadas no trabalho devido às práticas das plataformas digitais e convocar outros trabalhadores para se juntarem ao Breque Nacional.
A partir desse ponto inicial, eles se dirigiram aos principais centros comerciais e pontos estratégicos da cidade com o intuito de interromper as operações dos serviços de entrega.
Um correspondente local acompanhou as atividades e ouviu relatos de diversos entregadores. Para muitos deles, a principal consequência do sistema “Mais Entregas” tem sido a queda na renda obtida nas corridas.
“No passado lutamos pela tarifa mínima de sete reais e cinquenta centavos; hoje nos oferecem apenas três reais e cinquenta para trabalharmos muito mais. É mais entrega por menos dinheiro. Essa é a proposta deles”, declarou Vitor Couto, motoboy envolvido na mobilização.
Outro trabalhador que preferiu não ser identificado comentou que essa modalidade atrai principalmente novos entrantes na profissão que acabam aceitando as condições sem compreender plenamente suas implicações.
“Tem muitos motoboys novatos que aceitam porque ainda não entendem como funciona. Mas quem já está aqui sabe que essa modalidade só beneficia o lucro do sistema enquanto precariza ainda mais nosso trabalho”
Conforme Vitor Couto destacou, uma das estratégias definidas foi paralisar os maiores centros de distribuição da cidade.
“Planejamos parar locais como Beiramar Shopping e Villa Romana para reivindicar melhorias para toda a categoria”, revelou ele.
A mobilização também contou com apoio de trabalhadores vindos de outras cidades catarinenses como Itapema e Balneário Camboriú, ressaltando assim a dimensão estadual das reivindicações.
No ato, o prefeito Topázio Neto (PODE) compareceu para inaugurar um ponto de apoio aos entregadores. Contudo, segundo relatos dos manifestantes, sua presença parecia ter motivação eleitoral e não abordou as principais demandas da categoria como a revogação do “Mais Entregas” ou melhorias na remuneração.
Os motoboys também criticaram a falta de cobertura midiática sobre sua mobilização por parte dos grandes veículos de comunicação.
“As grandes emissoras não vieram aqui nos apoiar. Contamos apenas com o apoio da imprensa independente porque parece que mostrar nossa indignação não é do interesse deles”, disse Vitor Couto.
Um aspecto importante ressaltado durante as manifestações foi a defesa da autonomia do movimento. Muitos trabalhadores enfatizaram que as ações estavam dissociadas de partidos políticos ou interesses eleitorais específicos.
“Nós somos autônomos e lutamos pelos direitos da nossa classe. Aqui há pessoas com diversas posições políticas unidas contra essa exploração”
Paralisação em Joinville afeta grandes redes e reforça Breque Nacional
Em Joinville, entre os dias 31 de julho e 2 de agosto, entregadores percorreram diversos bairros distribuindo panfletos e dialogando com moradores para convocar outros profissionais ao Breque Nacional. A paralisação resultou na interrupção dos serviços delivery em importantes redes alimentícias como Bob’s, McDonald’s e Habib’s, configurando-se como uma das maiores mobilizações já realizadas pela categoria no município.
Além das críticas à exploração promovida pelo iFood, os trabalhadores também apontaram práticas semelhantes adotadas por outras plataformas como Uber e 99, afirmando que todas elas têm avançado na direção da intensificação da exploração laboral e redução dos ganhos dos entregadores.
De acordo com os manifestantes, o sistema “Mais Entregas” representa um novo nível deste processo exploratório. Ao reunir diferentes pedidos numa mesma rota com horários determinados para atuação dos entregadores, as plataformas potencializam a carga laboral enquanto diminuem o valor recebido por cada entrega realizada.
Um exemplo mencionado pelos trabalhadores ilustra essa situação: uma entrega anteriormente remunerada integralmente pode receber apenas um acréscimo mínimo quando novos pedidos são adicionados ao trajeto necessário à realização dela. Dessa forma, os motoboys são obrigados a percorrer distâncias maiores sem receber pagamento proporcional enquanto arcam com todos os custos referentes ao combustível e manutenção da motocicleta além dos riscos diários do trânsito.
Ainda sob denúncia está o fato do novo sistema procurar dividir a categoria ao oferecer prioridade nas chamadas aos motoboys que optam pela nova modalidade, gerando uma concorrência interna constante entre os próprios trabalhadores.
Ironicamente durante as greves mencionadas pelos manifestantes, o iFood lançou promoções temporárias buscando incentivar novas entregas e diminuir adesão ao movimento. No entanto tal estratégia não surtiu efeito significativo conforme relatado pelos participantes.
“Durante toda semana não há promoções. Agora na greve tentam nos pressionar com ofertas baixas. Não vamos aceitar isso”, resumiu um grupo presente nas paralisações nas zonas Norte e Sul da cidade.
Cabe destacar que aqueles trabalhadores mais experientes são exatamente aqueles que rejeitam este novo sistema proposto pelo aplicativo.
“Apenas freelancers aceitam esse +Entregas. Em dias chuvosos são nossos esforços contínuos que mantêm tudo funcionando na cidade. Portanto não aceitaremos ser explorados dessa forma”, declarou um trabalhador.
Damião é um dos organizadores dessa paralisação e comentou sobre como a implementação do “Mais Entregas” impactou diretamente nos ganhos dos motoboys.
“Desde que esse modelo entrou no iFood estamos ganhando muito pouco. Mal conseguimos cobrir despesas básicas como combustível ou manutenção das motos”, lamentou Damião.
Reivindicações por valorização salarial e melhores condições laborais
Nossa categoria também aproveitou essas mobilizações para reivindicar melhores condições gerais enfrentadas diariamente pelos trabalhadores além da revogação do “Mais Entregas”. p >
- Valorização adequada por quilômetro rodado;
- Paga justo pelo tempo desperdiçado à espera;
- Cessação das penalizações aplicadas pelas plataformas aos motoboys que rejeitam entregas;
- Estabelecimento de pontos convenientes equipados com banheiros limpos; água potável; áreas adequadas à pausa durante jornadas longas;
- Criar locais específicos dentro shoppings para coleta do iFood;
- Pautar políticas municipais voltadas à manutenção eficiente das motocicletas utilizadas bem como segurança no trânsito;
De acordo com esses trabalhadores essas solicitações representam condições mínimas necessárias ao exercício efetivo dessas atividades diante da crescente intensificação imposta pelas plataformas digitais.
As manifestações realizadas em Florianópolis assim como em Joinville demonstraram que o descontentamento entre os entregadores extrapola questões locais refletindo um movimento nacional contra as crescentes precarizações impostas pelo uso desses aplicativos.
