
A cantora Ariana Grande anunciou recentemente uma pausa em sua carreira de sucesso, surpreendendo tanto os fãs quanto a imprensa. Reconhecida como uma das artistas mais influentes de sua geração e estrela de produções como “Wicked”, Ariana é um verdadeiro fenômeno mundial. Essa decisão pode ser uma resposta à pressão constante que vem enfrentando.
Em um show recente, Ariana afirmou: “O comunicado realizado ontem não foi uma decisão repentina ou impulsiva. É algo que eu venho planejando há muito tempo, de maneira discreta. É fundamental estabelecer limites; todos nós precisamos de um tempo para recarregar as energias às vezes.”
Além de interromper suas apresentações após o término da turnê atual, a artista também decidiu não participar do musical “Sunday in the Park with George”, agendado para estrear em Londres em 2027. Segundo informações de sua equipe, uma das motivações para essa pausa é o “escrutínio público incessante” ao qual ela tem sido submetida.Ariana não é a única celebridade a optar por se afastar dos holofotes; figuras como Justin Bieber e Selena Gomez também já tomaram essa decisão quando a pressão da vida pública se tornou insuportável ou quando sentiram a necessidade de cuidar da saúde mental e física.Recentemente, grande parte da atenção sobre Ariana tem se concentrado em sua aparência. A cada nova aparição, surgem comentários nas redes sociais e na mídia sobre seu corpo e emagrecimento. Como uma figura pública na era digital, ela frequentemente se torna alvo de especulações sobre sua saúde.
Entretanto, é essencial ressaltar que não é possível diagnosticar anorexia nervosa — ou qualquer outro transtorno alimentar — apenas com base em fotos, vídeos ou apresentações públicas. Não há evidências suficientes para afirmar que Ariana Grande possui um transtorno alimentar, visto que a perda de peso sozinha não justifica tal diagnóstico.
A controvérsia em torno da aparência da artista abre espaço para discutir uma condição séria ainda envolta em mistério: a anorexia nervosa.
Mas o que realmente caracteriza a anorexia nervosa?
Esse transtorno alimentar é definido pela restrição severa na ingestão de alimentos, resultando em um peso corporal significativamente abaixo do normal, acompanhado por um medo intenso de ganhar peso ou por comportamentos que buscam evitar esse ganho (como uso inadequado de laxantes e diuréticos, exercícios excessivos). Além disso, pode haver distorções na percepção do próprio corpo e peso.
A anorexia nervosa não é comum entre a população geral, mas isso não diminui sua relevância. O transtorno é mais prevalente entre mulheres, embora homens também possam ser afetados. Dados epidemiológicos dos Estados Unidos indicam que aproximadamente 0,9% das mulheres e 0,3% dos homens podem ser diagnosticados com essa condição ao longo da vida.
Geralmente, o início da anorexia nervosa ocorre na adolescência ou no início da idade adulta. Os primeiros sinais incluem uma crescente preocupação com alimentação e peso, além da adoção gradual de dietas restritivas.
Conforme o transtorno avança, a obsessão pelo peso tende a aumentar mesmo quando a pessoa já está abaixo do peso ideal. Ela pode continuar se enxergando como acima do peso ou dar importância excessiva à forma como se vê fisicamente.
Diversas formas da doença existem: enquanto algumas pessoas limitam severamente sua alimentação, outras podem alternar entre episódios de compulsão alimentar e métodos compensatórios como vômitos autoinduzidos ou uso impróprio de laxantes.
Não há uma única causa identificável para a anorexia nervosa; este transtorno resulta de uma combinação complexa de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Embora ansiedade e depressão possam coexistir com o problema alimentar, não são as únicas explicações para seu surgimento.
Um aspecto particularmente atual dessa discussão refere-se à forma como os corpos são expostos nas redes sociais — fotografados, ampliados e julgados por milhões em questão de minutos. Para celebridades como Ariana Grande, qualquer alteração física pode rapidamente se tornar um tópico global.A decisão dela em estabelecer limites pessoais e se afastar temporariamente dos holofotes destaca algo frequentemente esquecido: por trás do ícone global existe uma pessoa com necessidades emocionais.
A fama e o sucesso financeiro não garantem imunidade à necessidade vital de cuidar da saúde mental.
Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp (CRM 5249669-2 e RQE 21502); professora da PUC-Rio e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.
