Combate aos mosquitos: pragas persistem até no inverno

Deixar as janelas abertas à noite tem se tornado um convite para os mosquitos. Eles dançam em frente ao ventilador e, em algumas noites, chego a eliminar mais de vinte. Estou me sentindo exausta, já não consigo dormir. Nos últimos meses, relatos semelhantes proliferaram nas redes sociais quase na mesma intensidade — e quantidade — que os próprios insetos. O que mais surpreende é que esses depoimentos estão surgindo no meio do inverno, quando normalmente esses pequenos invasores costumam dar uma pausa. Habitantes de várias áreas do Rio de Janeiro afirmam que os mosquitos parecem ter decidido ficar, mesmo com a mudança das estações. A justificativa envolve uma mistura de fatores climáticos e ambientais. O início da estação trouxe chuvas acima do normal, seguidas por dias quentes, o que favoreceu a reprodução dos insetos. Além disso, a cidade está cada vez mais densamente povoada, com áreas impermeáveis, locais acumulando água e menos predadores naturais. “Não há uma única explicação, mas sim a combinação de erros que continuamos a cometer”, resume o biólogo Mario Moscatelli. Dependendo do comportamento do Super El Niño, ele acredita que o quadro atual pode ser apenas um “aperitivo” do que ainda está por vir.

A perturbação causada pelos mosquitos se reflete no aumento das ligações para a Central 1746, da prefeitura. Apesar de o serviço não ter uma categoria específica para as reclamações sobre mosquitos — elas são agrupadas como pedidos de vistoria em focos de Aedes aegypti e relatos gerais sobre presença de insetos —, o número de solicitações é alarmante. No ano de 2025, foram registradas 4.378 chamadas; até 24 de julho de 2026, esse número já era de 4.149, quase igual ao do ano anterior, representando um aumento de 65%. A prefeitura informa que até meados de julho, 99,87% das demandas que exigiam avaliação por parte dos agentes de Vigilância em Saúde foram atendidas. Contudo, o grande destaque agora não é o Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya. “Não temos estudos específicos sobre quais espécies estão se proliferando, mas percebemos um crescimento no gênero Culex, especialmente do Culex quinquefasciatus, conhecido popularmente como pernilongo”, afirma Arlindo Serpa Filho, entomólogo da SOS Vida Silvestre e pesquisador colaborador da Fundação Oswaldo Cruz. Os dados referentes à dengue corroboram essa percepção: no ano anterior, a taxa foi de 146 casos por 100 mil habitantes; em 2026 até agora, esse índice caiu para uma média muito menor: 49.

Para quem enfrenta essa situação diariamente, teorias e números pouco importam quando o zunido dos insetos começa. Juliana Martins, designer e moradora da Tijuca — o segundo bairro com mais reclamações na Central 1746 — revela que nunca viu tantos mosquitos dentro de casa antes — especialmente nessa época do ano— mesmo vivendo perto de uma área verde. “Agora eles aparecem mesmo com frio”, desabafa indignada. Em Botafogo, outro dos locais com maior número de reclamações, o advogado Rafael Carregal já tentou usar praticamente todos os métodos disponíveis: raquetes elétricas, inseticidas variados e repelentes em spray. Recentemente, em sua busca desesperada por soluções inovadoras, começou a criar pequenas aranhas para ajudar no controle natural dos pernilongos. “Nada funciona direito. Meus gatos ainda são melhores caçadores”, brinca ele. A advogada Camila Martins também teve que instalar telas em todas as janelas da sua casa em Laranjeiras: “Mesmo assim eles continuam entrando”, lamenta ela. Após o nascimento da filha Helena há dois anos atrás, sua preocupação aumentou: “Coloco repelente nela antes dela dormir, mas frequentemente os pernilongos acabam acordando-a; a noite vira um verdadeiro caos”, conta.

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A dificuldade em controlar os pernilongos decorre do fato deles encontrarem condições propícias para reprodução dentro das residências. Segundo Serpa Filho da Fiocruz: “O Culex se aproveita de qualquer ambiente úmido que contenha matéria orgânica”. Após picar alguém e se alimentar do sangue necessário para o desenvolvimento dos ovos, a fêmea busca locais como ralos ou caixas de gordura para depositar seus ovos. Por isso é fundamental manter esses ambientes limpos com frequência para minimizar a proliferação dos insetos. Além disso, os mosquitos possuem uma incrível capacidade adaptativa às condições encontradas nos ambientes urbanos. Pesquisas realizadas globalmente revelaram populações resistentes a inseticidas, reduzindo a eficácia das ferramentas utilizadas no controle desses insetos. No estado do Rio já foram encontradas populações resistentes do Aedes aegypti a certos produtos químicos e investigações estão sendo feitas sobre alterações genéticas que podem aumentar a resistência aos climas mais frios.

“Estamos presenciando uma espécie de corrida evolutiva; indivíduos mais adaptados podem sobreviver e transmitir essas características às próximas gerações”, explica o especialista.

A longa permanência desses incômodos já começou a impactar até as rotinas em bares e restaurantes. No Esperança Eco, situado em Laranjeiras, os repelentes agora fazem parte dos itens oferecidos aos clientes regularmente. Atendendo ao pedido frequente da clientela, o restaurante aumentou seu estoque para incluir opções para adultos e crianças além de fórmulas sem óleo. “Temos um espaço aberto próximo à praça onde sempre convivemos com pernilongos; isso é comum aqui. Mas este ano piorou bastante”, analisa Veronica Moreira proprietária do local. Em Copacabana, o bar Os Imortais também precisou se adaptar; conforme relata Rômulo Torres sócio do estabelecimento: os mosquitos deixaram suas áreas restritas às árvores e agora aparecem ao redor todo o ambiente exterior também. O bar utiliza sprays mata-mosquitos e disponibiliza repelentes aos clientes mediante solicitação; medidas antes consideradas excepcionais agora fazem parte da rotina operacional.

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Diante desse aperto gerado pelos insetos incômodos surge um mercado pronto para oferecer soluções. Na loja Casa Rosa localizada em Copacabana,a gerente Thaiane Paiva destaca que as vendas das raquetes elétricas estão altas: “Nosso estoque está zerado devido à alta demanda”. E essa busca por proteção também atingiu empresas especializadas na instalação de telas nas residências; evidenciando um crescimento neste segmento previamente sazonal.A Prokid observou um aumentode 45% na demanda desde dezembro de 2025, sendo que muitos compradores são moradores da Zona Sul. “Gestantes e famílias com crianças pequenas estão entre nossos principais clientes além dos síndicos preocupados em proteger áreas comuns nos condomínios.”, explica Gerlane Pereira sócia da empresa que recentemente instalou telas no restaurante Nido localizado no Leblon e também no Colégio São Vicente de Paulo no Cosme Velho.

A mudança é visível também nos dados relacionados ao consumo: conforme informações da Off (marca pertencente à SC Johnson), apresenta-se um aumento significativo na penetração dos produtos nos lares brasileiros: passou-se de apenas 8% em 2021 para atuais 15%. Ademais há previsões sobre o mercado global referente aos repelentes indicando um crescimento expressivo projetado entre US$6,5 bilhões em 2026 para US$9,7 bilhões até 2033 , resultando em uma taxa anual aproximada de crescimento global na ordem dos 6%.

No cenário urbano as autoridades têm papel fundamental no controle da situação através das ações públicas necessárias.O biólogo Serpa Filho propõe uma limpeza rigorosa dos bueiros , utilizando inseticidas contra as larvas além do uso periódico do fumacê durante surtos epidêmicos . Entretanto,a Secretaria Municipal de Saúde ressalta que esse método é voltado especificamente para controle doAedes aegypti diante situações específicas,e não considera o pernilongo comum como transmissor significativo dentro das atuais condições epidemiológicas.A responsabilidade ainda recai sobre problemas relacionados ao acúmulo inadequado resíduos sólidos.

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“Se a situação já é complicada na Zona Sul imagine nas outras regiões”, alerta Moscatelli mencionando o caso específico da área adjacente à Estação Tratamento Alegria onde foram retiradas450 toneladas resíduos durante um ano , graças ao projeto voltado à recuperação dos manguezais deteriorados.Na mesma linha,a prefeitura assegura através da Secretaria Conservação Pública ter higienizado mais de 51 mil bueiros e poços na cidade durante este ano.Ainda assim moradores continuam fazendo reclamações variadas enquanto Comlurb destaca seus novos contêineres maiores (1 mil litros) comparados aos antigos (240 litros) sendo removidos diariamente para limpeza.E segundo Moscatelli há necessidade urgente conscientização sobre descarte irregular: “Enquanto continuarmos usando natureza como lixeira ela acabará encontrando formas criativas para ‘se vingar’, conclui ele.A problemática parece longe do fim mas cada cidadão deve fazer sua parte.

 

Bairros campeões nas reclamações sobre mosquitos pelo telefone 1746 durante 2026:

  • 1º Campo Grande
  • 2º Tijuca
  • 3º Sepetiba
  • 4º Realengo
  • 5º Botafogo
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Totalização:
Totalizações verificadas incluem:4149 reclamações a partir dos primeiros sete meses deste ano:65%. 

Dicas contra mosquitos:

Dúvidas comuns respondidas pela ciência:

  • Sangue doce (FALSO): Algumas pessoas parecem atrair mais esses bichinhos devido a fatores individuais variados além das condições ambientais.
  • Toma vitamina B (FALSO): Não existem evidências científicas concretas comprovando redução significativa das picadas através dessa ingestão.
  • Mosquitos ficam restritos aos andares baixos (FALSO): Estudos mostraram presença até no andar 21 tendo como fatores principais odor humano e dióxido carbono expelido pelas pessoas.
  • A temperatura tem influência (DEPENDE): Embora ambientes climatizados reduzam atividade dos mosquitos,janelas fechadas evitam entrada direta porém não eliminam os insetos.
  • Citronela ajuda (DEPENDE): Eficaz sim mas efeito tende ser limitado comparado aos repelentes químicos tradicionais com ativos comprovados.
  • Luz atrai pernilongos (DEPENDE): Ao contrário do esperado eles preferem localizar humanos através cheiro corporal ou calor liberado pelo corpo.»
  • Irrigação ajuda (VERDADE): Ventiladores dificultam voo tornando-se uma opção eficaz assim como dispersão odores atraentes presentes nos humanos!
  • Cores influenciam (VERDADE): Cores escuras atraem mais devido respostas comportamentais específicas observadas}
  • Dentre eles… perigos:

    • Aedes Aegypti (maior preocupação): vetor principal das doenças dengue,zika,chikungunya adaptável ambientes urbanos;

    • Aedes Albopictus:(também conhecido como mosquito-tigre): transmissor doenças citadas,no entanto associado geralmente vegetação externa,tendo menor contato humano;

    • Haemagogus:(vetor febre amarela silvestre): habitante essencial florestas participando ciclo entre primatas/insetos;

    • Sabethes:(também vive florestas): importante na transmissão febre amarela silvestre dependendo circulação viral nesse habitat;

    • Culex Quinquefasciatus:(aparece abundantemente): alimenta-se água acumulada/matéria orgânica podendo transmitir filariose sob certas condições – risco mínimo Brasil porém incomodo considerável!

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