
Em 2008, durante uma apresentação no Teatro Karl Marx, em Cuba, começaram a surgir os primeiros sinais da doença de Parkinson. Durante o show, percebi que um dos meus dedos não se movia como deveria.
Procurei entender melhor a situação e iniciei um tratamento acreditando que se tratava de lesão por esforço repetitivo (LER).
<spanCerta vez, um médico me abordou em uma loja e comentou que os sintomas que eu apresentava eram indicativos de Parkinson.
Quando o diagnóstico foi confirmado, senti como se meu mundo tivesse desmoronado. Apesar de acreditar que todos podem enfrentar doenças, essa em particular é extremamente severa.
Um momento você não consegue falar; no outro, a mastigação é difícil. A boca treme, dores de cabeça surgem e a estabilidade desaparece.
É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que fica complicado assimilar tudo isso.
E o mais difícil é tomar medicamentos sabendo que eles apenas retardam a progressão da doença, sem oferecer cura.
No decorrer dos anos, minha saúde deteriorou-se significativamente. Cheguei a um estado em que caía diariamente e sofria com muitos pesadelos devido à medicação.
No ano passado, enquanto gravava em Maricá, senti dores intensas e uma onda de nervosismo me fez tremer ainda mais.
Acabei passando a noite no hospital e, após essa experiência, minha família e eu decidimos que não poderíamos continuar vivendo daquela maneira debilitante.
Conversamos com médicos sobre as opções cirúrgicas disponíveis.
No dia 14 de outubro de 2025, realizei uma cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS) no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O procedimento durou doze horas.
Entrei na sala de cirurgia utilizando cadeira de rodas, pois já não conseguia me movimentar sozinho.
Ao despertar da anestesia, percebi que podia comer sem auxílio pela primeira vez em dois anos.
Tocar violão havia se tornado complicado; havia falta de coordenação entre minhas mãos.
Às vezes me deixava levar pela emoção e chorava discretamente antes de seguir em frente, pois sou alguém que nunca desiste mesmo diante das dificuldades extremas.
Recebi alta três dias depois da operação e em menos de uma semana já estava novamente no Samba do Trabalhador.
A emoção foi indescritível, com o público lotando o local.
Pensei comigo mesmo: ‘não posso acreditar que isso está acontecendo’. Lembro-me da Lucimara, uma vendedora do local, que veio empolgada contar-me sobre sua conquista do apartamento e como precisaria que eu continuasse tocando para conseguir pagar as parcelas.
Pensei: ‘caramba, agora é que não paro mesmo’. Tenho consciência de que não voltarei a ser completamente saudável.
Em fevereiro deste ano, sofri uma queda a aproximadamente cinquenta metros do palco antes de um show e acabei quebrando o braço.
Tive que colocar onze parafusos. Desde então, mantenho atenção redobrada ao me deslocar mesmo em curtas distâncias, mas não permito que o fracasso me domine.
Vou com calma e cautela para realizar as atividades que desejo.
A música foi essencial na minha recuperação. Depois da cirurgia cerebral, compus cerca de trinta músicas novas.
Estou especialmente apaixonado por uma delas: ‘não posso reclamar da minha vida, eu tenho um santo que me guia. Para cada santo eu faço minha prece; eu não suporto despedida porque isso entristece.’
Ainda neste ano de 2026 aconteceram muitas coisas positivas: a estreia do filme Moacyr Luz, o Embaixador Dessa Cidade, recebi a Medalha Tiradentes e lancei o álbum Moa + Moura, inscrito no Grammy Latino e será apresentado no Blue Note..
Cantar na Cidade Maravilhosa representa um tipo diferente de felicidade para mim. span > p >
Apesar das adversidades enfrentadas aqui , este lugar ainda retribui muito por meio do afeto das pessoas . Pretendo continuar colhendo os frutos da minha carreira ao longo desses cinquenta anos , gravando com Zeca Pagodinho sempre que possível . span > p >
A partir de setembro , estarei em turnê por São Paulo , Vitória e Manaus . span > p >
Meu show ao lado de Zé Renato e Guinga homenageando Aldir Blanc no Teatro Rival esgotou ingressos em menos de 24 horas . span > p >
A nova geração está demonstrando grande apreço pelo meu trabalho , o que me motiva a seguir adiante . No tocante à saúde , continuo sendo acompanhado por médicos; recentemente meu nível de açúcar elevou-se bastante . span > p >
Nem sempre as bebidas são minhas aliadas . span > p >
Como não sou tartaruga para viver apenas à base de alface , procuro encontrar um equilíbrio na alimentação . Porém , considero esta batalha vencida . span > p >
Minhas mãos não tremem mais; todos comentam sobre minha aparência melhorada. span > p >
Durante todo esse tempo , enfrentei momentos difíceis , mas hoje tenho bem menos medo da morte . span > p >
Não vou deixar de compor. Vou dedicar-me eternamente a esse ofício que acredito fazer com maestria. span > p >
Certa vez , uma repórter perguntou ao Villa-Lobos se ele estava compondo , ao que ele respondeu que naquela fase da vida já estava decompondo. Eu ainda estou compondo.” span > p >
*Depoimento atribuído a Lucas Vieira em > p >
