Desvendando a relação: os Houthis e sua autonomia em relação ao Irã

Em grande parte das análises ocidentais, existe um viés que tende a minimizar as habilidades militares dos Ansarallah, conhecidos como houthis no Iémen. Essas avaliações frequentemente os retratam como desprovidos de capacidade estratégica e tática, além de não reconhecerem suas alianças. Este artigo é o primeiro de uma série dedicada a aprofundar o entendimento sobre esse grupo e suas conexões.

Além disso, há um esforço para apresentá-los apenas como “proxies iranianos”. Neste contexto, iremos explorar uma aliança que é pouco mencionada no Brasil, mas que possui ampla documentação: a parceria entre os Ansarallah e a República Democrática Popular da Coreia (RDPC).

A Organização das Nações Unidas informou que, em 2018, a Coreia do Norte tentou fornecer armamentos aos houthis1, o que provavelmente incluiu mísseis, drones e tecnologias essenciais para sua estratégia de guerra assimétrica.

Em outra ocorrência, a inteligência sul-coreana relatou que os houthis conseguiram adquirir 20 mísseis Hwasong-6 (Scud) da Coreia do Norte2. Além disso, especialistas sugeriram que os Ansarallah podem estar recebendo apoio técnico de Pyongyang para lançar mísseis contra a Arábia Saudita durante o conflito civil no Iémen3.

No ano de 2019, os norte-coreanos forneceram armas leves e “outros equipamentos” aos houthis por meio de contrabandistas sírios. Essa ajuda reabasteceu a insurgência do grupo contra a Arábia Saudita e sua coalizão do Golfo4.

Além disso, dentro da rede de alianças dos Ansarallah, destaca-se a China, que tem atuado como uma potência significativa nesse cenário. Segundo informações dos EUA, a nação asiática estaria oferecendo cobertura satelital para os lançamentos de mísseis, foguetes e drones realizados pela milícia5.

A partir dessa introdução, torna-se evidente que o grupo não se encontra isolado como muitos acreditam e desafia a narrativa ocidental que o rotula simplesmente como um “proxy iraniano.”

<pÉ importante ressaltar que os Ansarallah não estiveram diretamente envolvidos na guerra entre Irã, EUA e Israel em 2026. Apesar das agressões direcionadas à República Islâmica do Irã durante esse período, isso indica um certo grau de independência estratégica por parte do grupo.

Após um cessar-fogo mediado pela ONU em 2018 entre os Ansarallah e a Arábia Saudita, o Irã incentivou o grupo a continuar combatendo. Assim, sua continuidade nos confrontos após o cessar-fogo subsequente em 2019 não pode ser vista como alinhada aos interesses iranianos; afinal, um término da guerra limita as capacidades de projeção de poder de Teerã através da milícia.

Portanto, conclui-se que os Ansarallah são um agrupamento com autonomia própria. Eles não se limitam a ser apenas um proxy iraniano; possuem soberania suficiente para tecer suas próprias alianças, desafiando as percepções comuns sobre sua natureza.

Ali Ramos é cientista político pós-graduado em Filosofia. Especializa-se em questões relacionadas à Ásia, Geopolítica, Teoria Militar, Defesa, Metafísica e Estética. É idealizador do canal Vento Leste no YouTube.

A opinião expressa neste texto é exclusivamente do autor.

Este texto foi originalmente publicado na plataforma Substack de Ali Ramos e republicado com autorização.

Notas:

  1. “UN Experts: North Korea Tried to Sell Arms to Houthis.” World, Asharq Al-Awsat. 2018.
  2. RAMANI, Samuel. “Could North Korea Benefit from Middle East Shifts?” The Diplomat. 2015.
  3. RUGGIERO, Anthony. Etc. “North Korea in the Middle East: A Dangerous Military Supply Line.” Policy Analysis, The Washington Institute for Near East Policy. 2018.
  4. IDDON, Paul. “North Korea’s enigmatic role in the Middle East arms market.” News, Arms Trade, Middle East Eye. 2023.
  5. “US says Chinese satellite firm is supporting Houthi attacks on US interests.” Reuters. 2025.
  6. “Saudi Arabia says Iran behind Houthi missile attack on airport.” The Guardian. 2019.