Na calada da noite, Victor Jansen, candidato a deputado distrital pelo Partido Liberal (PL), se juntou ao grupo de “valentões da madrugada” da extrema direita, em um ato que ecoa o comportamento do provocador Wilker Leão (Novo) em sua recente aparição. Com o campus da Universidade de Brasília (UnB) quase deserto, Jansen aproveitou para produzir um vídeo de campanha atacando a universidade pública, seus alunos e professores. Enquanto Leão se deteve em uma pichação com a frase “Viva a LCP! Morte ao latifúndio! Viva a Revolução Agrária!”, Jansen focou sua indignação em cartazes que homenageavam o líder comunista Nambala Keshava Rao, além de materiais que denunciavam o genocídio do povo palestino. O candidato não hesitou em arrancar e chutar propaganda política, afirmando que, caso fosse eleito, pretendia instalar câmeras com áudio nas salas de aula.
A escolha desse horário revela um padrão no histórico de Jansen. O “valentão da madrugada” parece preferir agir quando os corredores universitários estão vazios e os alunos ausentes. Em 2025, após articular ações contra centros acadêmicos e espaços políticos na UnB, ele recuou diante da mobilização estudantil que impediu uma manifestação durante o período letivo. A Coordenação Regional do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) registrou que Jansen abandonou o ato temendo a reação organizada dos estudantes e se dirigiu à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
O novo ataque de Jansen carece de inovação e repete a estratégia adotada por Leão como parte de sua plataforma para as eleições de 2026: transformar pichações e atos políticos dos estudantes em um suposto problema de “segurança”, visando atacar direitos democráticos na universidade e apresentar vigilância e repressão como soluções.
Vigilância nas salas de aula
O vídeo produzido por Jansen inicia com a chamativa declaração “Retiramos símbolos comunistas da UnB”. Durante as filmagens, ele é visto arrancando materiais políticos e chutando cartazes que retratavam Fidel Castro, enquanto expressa sua intenção de transformar esse tipo de provocação em uma pauta parlamentar.
“Sou candidato a deputado distrital e quero acabar com essa palhaçada ideológica que permeia várias escolas e universidades aqui em Brasília. Vamos começar já nesta madrugada”, declara.
A proposta central apresentada por Jansen é implantar câmeras com captação de áudio nas salas de aula do Distrito Federal, sujeitando professores e alunos à vigilância constante. Para justificar essa medida, ele recorre à antiga narrativa da “doutrinação ideológica”, bastante difundida pela extrema direita e pelo movimento Escola Sem Partido.
“Por isso quero colocar câmeras com áudio nas salas de aula em Brasília, para que você, pai, saiba o que estão ensinando ao seu filho”, explica Jansen. Ele tenta ainda traçar uma analogia com as câmeras corporais usadas pela polícia: “A esquerda não defende que os policiais usem câmeras para proteger os direitos dos cidadãos? Então eu quero proteger o direito dos pais saberem o que está sendo ensinado aos seus filhos.”
Na prática, essa proposta implica submeter as aulas, discussões acadêmicas e atividades docentes a um sistema contínuo de gravação. Além disso, direitos como liberdade acadêmica, reunião e manifestação são garantidos constitucionalmente assim como a autonomia didático-científica das instituições universitárias.
Um aspecto importante na bravata eleitoral é que Jansen está concorrendo a uma vaga na CLDF enquanto a UnB é uma instituição federal. Mesmo se conseguir uma cadeira no legislativo local, seu mandato não lhe conferirá autoridade sobre a universidade que deseja “limpar”.
No fechamento do vídeo, ele aparece diante de uma parede repleta de propaganda política. Entre os cartazes estão homenagens a Basavaraj — dirigente do Partido Comunista da Índia (Maoísta) assassinado durante uma campanha contrarrevolucionária na Índia — além de materiais apoiando a Guerra Popular na Índia e cartazes da Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo (FRDDP) contra o genocídio palestino.
Um dos cartazes exibe: “Netanyahu nazi-sionista quer exterminar o povo palestino. Você será cúmplice?”.
Furioso diante das mensagens coladas na parede, Jansen exclama: “É isso que a esquerda quer ensinar ao seu filho: pauta ideológica.”
Ecoando Wilker Leão
A ofensiva realizada por Jansen é similar àquela promovida por Wilker Leão — um youtuber provocador da extrema direita — que também transformou suas desordens na UnB em uma plataforma para sua farsa eleitoral.
Ao se chocar com a pichação mencionada anteriormente, Wilker declarou que tal vandalismo seria criminalizado sob seu mandato. Ele ainda se referiu a uma parede do Instituto de Artes Visuais coberta por intervenções estudantis como “parede satânica”.
Wilker foi além ao sugerir que “a Polícia Militar deve voltar ao campus universitário para fiscalizar todo tipo de crime”, integrando sua agenda eleitoral à repressão ao movimento estudantil.
Jansen posiciona-se como um candidato apoiado pela família Bolsonaro; seu vídeo mostra momentos ao lado de Jair e Eduardo Bolsonaro. Este último chegou a gravar uma mensagem pedindo votos para ele: “Pessoal do DF, precisamos de pessoas corajosas para ajudar a recuperar o Brasil. Jovem inteligente… só não posso dizer que é bonito, mas ele tem tudo para ser um grande deputado”.
O valentão noturno já fugiu da resistência estudantil
A incursão noturna não é novidade no repertório de Victor Jansen. No início de 2025, participou ativamente de ações promovidas pela extrema direita contra espaços estudantis na UnB, especialmente aqueles dedicados às manifestações em defesa da Palestina e outras lutas populares.
No dia 14 de março daquele ano, membros desses grupos aproveitaram um recesso para entrar na universidade vazia com tintas brancas para cobrir grafites do Centro Acadêmico de Artes Visuais e espalhar propaganda bolsonarista. Quando confrontado por um policial sobre sua presença ali — sendo ele não estudante da UnB — teve dificuldades em justificar suas ações.
Pouco depois, esses mesmos grupos anunciaram outra ação dentro do campus no primeiro dia das aulas; no entanto, encontraram uma resposta muito diferente daquela encontrada nos corredores vazios: mais de 400 estudantes participaram ativamente para impedir essa nova investida.
A comunicação interna desses grupos deixou claro o caráter agressivo das iniciativas planejadas. Em diálogos obtidos pela correspondência divulgada por AND, um membro admitiu não estar interessado em “recuperar” a UnB – algo que nem mesmo lhes pertence – mas sim “trocar porrada com os vermes”.
Diante da mobilização estudantil coordenada pelos alunos organizados, os planos dos extremistas foram frustrados. Jansen decidiu então transferir seu ato para a CLDF onde contaram com apoio parlamentar à direita e presença das forças repressivas. A orientação da Polícia Militar foi clara: abandonarem suas intenções dentro da UnB devido à mobilização estudantil.
Na Câmara Legislativa cerca de 30 elementos reacionários reuniram-se com o deputado distrital Thiago Manzoni — prometendo atuar para libertar o ensino superior no Distrito Federal da chamada “hegemonia esquerdista”. Enquanto isso na UnB cerca de cem estudantes mantinham seus atos contra as investidas autoritárias marchando pelo campus com bandeiras queimadas representativas tanto do estado sionista quanto dos Estados Unidos.
A luta antissionista também está na mira
A resposta estudantil também foi utilizada pela extrema direita como justificativa para exigir perseguições contra movimentos estudantis. Bia Kicis (PL) divulgou imagens das bandeiras queimadas enquanto Fred Linhares apresentou requerimento condenando a UnB por aquilo que classificou como “crime de ódio”, “incitação à violência” e “intolerância religiosa”.
Carla Zambelli se aproveitou ainda mais desse episódio acionando o Ministério Público Federal (MPF) contra os estudantes envolvidos acusando a reitoria da universidade pela falta de condenação ou reprimenda ao incidente. Em sua representação tentou transformar as ações legítimas em antissemitismo alegando ofensa religiosa devido à presença da Estrela de Davi nas bandeiras queimadas.
Victor Jansen parece partilhar dessa tentativa criminalizadora contra quem apoia o povo palestino; durante antigas incursões noturnas à universidade filmou cartazes solidários à Palestina afirmando serem “referências ao terrorismo”. Em outra ocasião arrancou cartazes homenageando guerrilheiros brasileiros repetindo acusações sobre supostas defesas aos “terroristas”.
No atual vídeo eleitoral aparece novamente um cartaz já problemático para Jansen antes; diante dele expressou indignação sobre as palavras “Netanyahu nazi-sionista quer exterminar o povo palestino” dizendo ser inadmissível comparar nazismo com nazi-sionismo; prometeu agir contra quem causasse tal ofensa ao Estado israelense.
“Esse tipo de discurso inaceitável deve terminar aqui; é absurdo desrespeitar Israel assim,” concluiu indignado tendo ignorado as vitimizações recentes em Gaza onde mais 100 mil pessoas perderam suas vidas entre crianças inocentes.”
MEPR destaca bravura voltada apenas aos ‘papéis nas paredes’
A reação às tentativas hostis já havia sido sintetizada pelo MEPR numa nota publicada em agosto deste ano onde denunciava ataques direcionados aos Diretórios Acadêmicos locais além assédios perpetrados pelos grupos organizados ao redor do nome Jansen.
A organização reafirmou através das mobilizações daquele ano como existiam diferenças concretas entre assediar paredes vazias versus enfrentar estudantes dispostos à resistência organizada; lembraram ainda quando Jansen optou por desistir durante um ato na UnB devido medo às reações organizadas dos estudantes deslocando-se posteriormente à CLDF enquanto Wilker Leão também sofreu recuo semelhante quando encurralado pelos estudantes através das provocações feitas durante suas ações anteriores utilizando músicas protegidas por direitos autorais como forma eficaz para evitar sua monetização através dos conflitos gerados.
A partir dessas situações reivindicaram maior organização independente entre centros acadêmicos gerenciando autodefesa frente novas tentativas hostis enquanto afirmaram ironicamente que as bravatas desses grupos se dirigiam apenas contra “papéis nas paredes” ou “estudantes isolados”.
No novo vídeo eleitoral lançado recentemente por Jansen reencontramos exatamente esse cenário noturno onde demonstram máxima desenvoltura: corredores praticamente vazios na UnB onde realizam ataques quando não há resistência organizada presente entre os estudantes dispostos ao enfrentamento diurno previamente estabelecido entre eles.”
