Karina Gama, dona da produtora de “Dark Horse”, registrou em cartório de São Paulo, em 4 de setembro – seis dias antes de ser alvo da Operação “Make Up” –, uma declaração de sete páginas na qual afirma ter recebido três abordagens sobre uma delação contra Flávio “Rachadinha” Bolsonaro. Segundo ela, os contatos, ocorridos entre maio e 3 de setembro, relacionaram a colaboração à possibilidade de evitar uma futura “complicação” ou operação policial. O documento virou munição para a extrema direita chamar as buscas de “tentativa de golpe”, embora a própria Karina reconheça não possuir prova de que Flávio Dino, integrantes do governo ou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) soubessem dos contatos.
O primeiro contato teria partido de Fernando Sarney, dirigente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e filho de José Sarney, oligarca e ex-gerente do velho Estado. Karina afirma que ele lhe ofereceu apoio jurídico em 22 de maio, declarou ter proximidade com Flávio Dino e se dispôs a ajudá-la caso quisesse delatar. No próprio documento, porém, a produtora ressalva que nunca presenciou conversa entre os dois e não possui qualquer elemento de que o togado soubesse da abordagem. Sarney negou conhecer Karina ou ter tratado de delação com ela.

A segunda abordagem, segundo o relato, veio em 27 de agosto de um pastor não identificado, que alegou proximidade com membros do governo e ministros do STF. Ele teria dito que “nada ocorreria” com Karina caso colaborasse. Em 3 de setembro, um jornalista da revista Piauí teria afirmado que ela estava servindo de “bucha de canhão” para o candidato e poderia ser atingida por medidas judiciais; a revista não quis se manifestar. Até agora, não foram apresentados elementos de que os interlocutores falassem em nome das autoridades mencionadas.
Em 10 de setembro, Karina tornou-se alvo da operação que investiga suspeitas de desvio de emendas e lavagem na rede de “Dark Horse”. Flávio passou a dizer que a produtora havia sido ameaçada, chamou a ação de “tentativa de golpe” e anunciou uma ofensiva contra Dino. A coincidência cronológica, contudo, não comprova o relato: a decisão das buscas baseou-se em contratos, repasses e relatórios da CGU e do Coaf sobre aengrenagem financeira formada em torno das entidades de Karina.


