Falecimento de marroquino detido gera grandes manifestações no Norte da Itália

No dia 20 de julho, uma grande multidão se reuniu nas ruas de Bolonha, no norte da Itália, em resposta à morte de Abderrahim Fakir, um homem marroquino de 42 anos que faleceu durante uma abordagem policial no bairro Pilastro. Fakir, que residia na Itália desde a infância, era proprietário de um pequeno negócio de mudanças e serviços de limpeza.

O incidente que levou à sua morte ocorreu no domingo, 19 de julho, quando a polícia foi chamada devido à alegação de que Fakir estava agitado e havia danificado um veículo. Registros feitos por moradores e divulgados pela mídia italiana mostram o homem imobilizado no chão, clamando por ajuda e afirmando que não conseguia respirar, antes de cessar os movimentos.

Informações do The Guardian indicam que Fakir tinha histórico de problemas cardíacos e asma. A Agência Ansa reportou que o caso está sendo investigado sob uma nova legislação italiana chamada “escudo” para agentes policiais, introduzida no contexto do pacote anti-imigração do governo de Giorgia Meloni. Até o momento, dois policiais e quatro socorristas voluntários foram incluídos em um registro preliminar relacionado a homicídio culposo.

Em 23 de julho, novos detalhes surgiram sobre o caso. O Tg1 da Rai revelou trechos das gravações da bodycam de um dos policiais envolvidos e entregues ao Ministério Público. A defesa dos policiais argumentou que Fakir havia se encontrado com outra pessoa antes da abordagem policial, justificando assim a ação das autoridades. Por outro lado, o advogado da família de Fakir, Fabio Anselmo, criticou a decisão de manter o homem algemado durante tentativas de reanimação, classificando essa prática como “intolerável” em uma situação tão delicada.

A Promotoria em Bolonha investiga duas linhas: possíveis abusos por parte dos policiais durante a contenção física e a negligência dos quatro socorristas que participaram do atendimento. A autópsia foi agendada para o dia 24 de julho e será crucial para determinar as causas da morte e as condições físicas enfrentadas por Fakir nos momentos finais.

“Verdade e justiça”

<pNo dia posterior à morte, aproximadamente 5 mil pessoas se concentraram na Praça Nettuno em Bolonha para exigir “verdade e justiça” para Abderrahim Fakir. O ato contou com a participação de familiares, integrantes da comunidade marroquina local, sindicatos, estudantes, centros sociais e cidadãos italianos. O protesto manifestou a indignação entre imigrantes e recebeu apoio significativo da população local.

Durante a manifestação, cartazes com os dizeres “Verdade e Justiça para Fakir. O Estado mata” foram exibidos. Alguns manifestantes seguraram imagens do falecido diante das forças policiais mobilizadas para conter a agitação.

Aproximando-se da Prefeitura e da sede da polícia local (Questura), confrontos ocorreram entre manifestantes e policiais. Objetos foram arremessados contra os agentes enquanto estes responderam com gás lacrimogêneo e jatos d’água. Durante os tumultos, veículos foram incendiados e barricadas montadas.

A Rai inicialmente registrou 11 feridos leves entre civis e policiais envolvidos nos confrontos. Segundo relatos iniciais, cinco policiais e quatro civis receberam atendimento médico; um agente e um manifestante foram hospitalizados com ferimentos considerados leves. Posteriormente, a polícia em Bolonha atualizou o número total de agentes feridos para 64.

Os protestos não se limitaram a Bolonha. Em 23 de julho, mais de 300 pessoas participaram de uma manifestação no centro de Gênova convocada pelo S.I. Cobas em busca de “verdade e justiça” para Fakir. Os participantes exibiram faixas condenando a violência estatal e associaram a morte do imigrante marroquino ao assassinato de Carlo Giuliani durante os protestos contra o G8 em Gênova em 2001. Além disso, manifestações foram planejadas diante da embaixada italiana em Casablanca, Marrocos, bem como nova mobilização prevista para o domingo seguinte em Bolonha.

A morte de Fakir remete ao assassinato de George Floyd

A morte trágica de Abderrahim Fakir evocou imediatamente lembranças do assassinato de George Floyd nos Estados Unidos em 25 de maio de 2020. Floyd foi morto por um policial branco que pressionou seu joelho contra seu pescoço por cerca de nove minutos enquanto ele clamava por ajuda. Esse ato brutal gerou ondas massivas de protesto tanto nos EUA quanto internacionalmente.

Em Bolonha, os manifestantes levantaram suas vozes contra as forças policiais enquanto se ajoelhavam com os punhos erguidos — um gesto emblemático associado ao movimento Black Lives Matter surgido após o episódio envolvendo Floyd. A Ansa também registrou manifestações onde se ouviu a frase “I can’t breathe”, ecoando as últimas palavras proferidas por Fakir.

Em ambos os casos trágicos, as imagens filmadas revelaram homens sendo imobilizados por agentes da lei enquanto pediam socorro e afirmavam não conseguir respirar. A revolta nas ruas bolonhesas reflete uma indignação comum quando as massas testemunham diretamente atos violentos perpetrados pela polícia contra indivíduos marginalizados como imigrantes ou pertencentes a grupos étnicos minoritários.

Governo Meloni e a ofensiva repressiva

A fatalidade envolvendo Abderrahim Fakir aconteceu sob a administração da primeira-ministra Giorgia Meloni em meio a um contexto crescente de repressão direcionada aos imigrantes e manifestações populares. Meloni afirmou que uma investigação deveria ser realizada sobre o caso; contudo, sua intervenção focou principalmente na condenação dos protestos enquanto defendia as forças policiais envolvidas na ocorrência. O ministro do Interior Matteo Piantedosi também veio à defesa dos agentes responsáveis pela abordagem.

Este evento se deu poucos meses após o lançamento do Decreto-Lei nº 23 em 24 de fevereiro deste ano pelo governo Meloni — considerado um pacote anti-imigração que endurece medidas contra manifestações públicas e expande poderes legais relacionados à prisão em flagrante diferido.

A abordagem política adotada pelo governo Meloni evidencia a continuidade das práticas extremistas na Itália contemporânea. O partido Fratelli d’Italia liderado por Meloni tem raízes históricas na Aliança Nacional — herdeira do Movimento Social Italiano fundado em 1946 por ex-partidários do regime fascista italiano sob Benito Mussolini.

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