Turquia: Após 47 anos de exílio, quadro histórico maoista Haydar Kutan é sepultado em Dersim

Haydar Kutan – conhecido entre seus camaradas como Hoca e, em seus escritos políticos, como Kazım Cihan – foi sepultado em Dersim em 30 de agosto, após 47 anos de exílio na Europa. Quadro histórico do Partido Comunista Maoista (MKP, na sigla em turco), Kutan morreu em Rotterdam, na Holanda, em 24 de agosto, depois de enfrentar problemas de saúde. Centenas de revolucionários vindos de diferentes países europeus participaram, em 29 de agosto, da cerimônia de despedida realizada na cidade holandesa; no dia seguinte, seu corpo chegou a Dersim, onde, conforme sua vontade, foi enterrado ao lado dos 17 revolucionários mortos em 17 de junho de 2005 no vale de Mercan. O funeral e a trajetória de Kutan foram noticiados por Avrupa Haber, Yeni Demokrasi e O Arauto Vermelho.

Nascido em 1º de outubro de 1954, na aldeia de Pulebargi, ligada ao centro de Dersim, Kutan começou a vida profissional como professor. Trabalhou inicialmente em aldeias da região e, a partir de 1971, lecionou também em Siverek, Suruç e no bairro de Alibeyköy, em Istambul. Foi neste último posto que sua atividade política levou a uma tentativa de transferência punitiva para a província de Ordu; em vez de aceitar o desterro administrativo, demitiu-se e retornou a Dersim. Em 1974, conheceu o revolucionário Süleyman Cihan, por meio de quem ingressou na organização comunista; dois anos depois, tornou-se membro do Partido e assumiu responsabilidades em meio às duras disputas ideológicas e organizativas que atravessavam o movimento revolucionário turco.

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Décadas de exílio e trabalho pela revolução

Em 1979, já marcado pela repressão como um dos quadros destacados da organização, Kutan deixou o país e iniciou o exílio que só terminaria com seu funeral. Na Europa, participou da fundação da Federação de Trabalhadores da Turquia na Alemanha (ATİF, na sigla em turco), trabalhou em iniciativas políticas e culturais como Mücadele Birliği, a revista de literatura e arte Tohum e Kadınların Kurtuluşu, além de assumir tarefas de direção partidária. Durante anos, representou sua organização no Movimento Revolucionário Internacionalista (MRI), participando das lutas de duas linhas travadas no seio do movimento comunista internacional.

Sua atuação não se limitou, porém, ao trabalho político entre os exilados. Depois das sucessivas cisões que atingiram o movimento fundado na linha de Ibrahim Kaypakkaya, Kutan empenhou-se também nas tentativas de recomposição e unidade entre suas forças. Em 1992, apoiou a reunificação partidária; após a cisão de 1994, assumiu novas responsabilidades na corrente em que continuaria sua militância. Segundo os depoimentos apresentados em sua despedida, dedicou atenção particular à unidade entre as organizações oriundas da tradição de Kaypakkaya e, já em 2016, participou das discussões relacionadas à formação do Movimento Revolucionário Unido dos Povos (HBDH).

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Trabalho teórico e reorganização partidária

Sua intervenção foi igualmente marcada pelo trabalho teórico. Após o 1º Congresso da organização, Kutan ficou encarregado, em 2003, da realização das chamadas “Conferências sobre o Maoismo”; depois do duro golpe sofrido pela direção partidária em 2005, quando 17 de seus integrantes foram mortos no vale de Mercan, assumiu responsabilidades ideológicas, teóricas e práticas na reorganização do Partido. Participou posteriormente do 2º, 3º e 4º Congressos e ocupou durante anos responsabilidades na direção central. Já com graves problemas de saúde, afastou-se das tarefas práticas a seu próprio pedido e passou à condição de membro honorário do MKP.

As homenagens realizadas depois de sua morte também recordaram a relação direta que mantinha com a luta armada revolucionária. Durante a despedida em Rotterdam, foram exibidas imagens de palestras, seminários e atividades políticas de Kutan, entre elas registros de formações teóricas no terreno militar ministradas a guerrilheiros do MKP. Representantes de diferentes organizações destacaram ainda seu trabalho entre os trabalhadores imigrantes na Europa, a defesa persistente do maoismo após o golpe contrarrevolucionário na China em 1976 e sua atuação pela unidade internacional das forças maoistas.

O MKP, ao anunciar sua morte, definiu Kutan como um quadro que dedicou mais de meio século à revolução e ao comunismo, destacando sua insistência na luta mesmo nos períodos de derrotas, cisões e refluxo. Yeni Demokrasi reproduziu a homenagem, segundo a qual sua vida deixou como legado a confiança no povo, a dedicação aos camaradas e a recusa ao desânimo e ao recuo da luta revolucionária.

Em Rotterdam, depois dos pronunciamentos do MKP, de Partizan e de outras organizações, os presentes cantaram “Dağ Dumandır”, uma das canções preferidas de Kutan, e encerraram a cerimônia entoando “A Internacional”. Seu corpo foi então enviado à região que não pôde visitar durante quase meio século. Depois de ser recebido em Dersim e levado também a Pulebargi, sua aldeia natal, Haydar Kutan foi sepultado, por sua própria escolha, junto aos 17 revolucionários mortos em Mercan – encerrando 47 anos de exílio no mesmo lugar onde começara sua trajetória.

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