
Tiago Dalpério (PP), prefeito de Tombos, Minas Gerais, e defensor do bolsonarismo, utilizou as redes sociais no dia 27 de outubro para declarar sua intenção de eliminar o transporte universitário patrocinado pela prefeitura. Essa decisão foi anunciada como uma forma de retaliação à derrota eleitoral do ex-deputado Flávio Bolsonaro, conhecido como “Fujão da República”. O prefeito compartilhou um vídeo distorcido da CNN, veiculado em 2024, que falava sobre cortes implementados pelo governo de Luiz Inácio, e acrescentou: “Vamos alinhar os cortes do governo federal à nossa administração! Começando pelo transporte dos universitários, que não é essencial! Vamos em frente Brasil! Para cima! Que venham as contenções!”
No dia seguinte, 28 de outubro, Dalpério fez uma nova publicação onde zombava dos estudantes e das pessoas que se levantaram contra sua afirmação.
Na legenda dessa postagem, ele comentou: “Dá um Google aí! Essa ferramenta é incrível! Vou governar com a ajuda dela!” Na verdade, considerando a forma como o prefeito expressa suas ideias nas duas publicações e os resultados questionáveis de sua busca online, parece que nem mesmo uma ferramenta digital seria suficiente para capacitá-lo a exercer seu cargo. Um bom professor de português poderia ser um bom ponto de partida.
A declaração surgiu após a derrota da extrema direita nas eleições e a saída do país de seu líder autoproclamado. A mobilização contra essa situação foi particularmente forte entre os estudantes do ensino superior da região, refletindo-se em protestos na UEMG — Unidade Carangola ao longo de outubro. Além das ironias relacionadas ao discurso bolsonarista, se concretizada, essa medida pode levantar sérias questões legais. É possível que a ação configure desvio de finalidade no exercício do poder público, conforme definido no artigo 2º, parágrafo único, alínea “e”, da Lei nº 4.717/1965. As próprias declarações do prefeito sugerem claramente uma motivação retaliatória em relação ao corte proposto. Essa situação também poderia ser avaliada sob o artigo 4º, inciso X, do Decreto-Lei nº 201/1967, que caracteriza como infração político-administrativa comportamentos incompatíveis com a dignidade do cargo.
Independentemente das ações que possam ser tomadas pela justiça, não é aceitável que a administração municipal seja tratada como uma extensão dos interesses pessoais do prefeito ou que serviços públicos essenciais sejam utilizados para intimidar aqueles que se opõem ao bolsonarismo.
Amigo de fujão é fujão
Tiago Dalpério não demonstra preocupação com a legalidade em suas ações. Desde muito antes da figura de Flávio Bolsonaro surgir nas notícias, ele já havia aprendido a “arte” de escapar das consequências de seus atos.
Atualmente, Dalpério enfrenta acusações no Tribunal de Justiça de Minas Gerais por homicídio culposo na direção de veículo automotor. Segundo as alegações do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), no dia 1º de fevereiro de 2023, ele atropelou e matou Bianca Maria Almeida Florindo, uma servidora pública de 28 anos, na RJ-220 em Porciúncula (RJ), fugindo sem prestar socorro. Na ocasião, o prefeito dirigia uma caminhonete oficial da prefeitura durante seu primeiro mandato.
O acidente ocorreu por volta das 19h30 no km 30 da rodovia na área conhecida como Matinha do Salgado. Antes do atropelamento, Bianca havia caído da moto após colidir com um cachorro e estava sendo assistida por policiais militares quando Dalpério passou pelo local desrespeitando os sinais para parar; apesar dos esforços para alertá-lo e da presença da viatura com giroflex ligado e outros veículos sinalizando com pisca-alerta. Ele atropelou Bianca enquanto ela se encontrava caída na pista e fugiu sem prestar ajuda. O impacto foi tão severo que ela foi arremessada cerca de 20 metros adiante. Bianca faleceu devido aos ferimentos e deixou uma filha pequena.
Ainda após o acidente, Dalpério dirigiu-se até uma sessão da Câmara Municipal em Tombos que estava sendo transmitida ao vivo. Somente após o término dessa sessão ele se apresentou à delegacia local. Durante seu depoimento à polícia, admitiu ser o motorista da caminhonete identificada com adesivos oficiais mas alegou não ter percebido o atropelamento. Após isso, o delegado decidiu liberá-lo sem prisão imediata. A caminhonete foi apreendida para perícia e um inquérito por homicídio culposo agravado pela omissão de socorro foi aberto. Embora tenha sido reportado que Dalpério se recusou a fazer o teste do bafômetro, essa informação não consta nos documentos oficiais do MPMG.
No dia 3 de fevereiro seguinte ao acidente, amigos e familiares de Bianca realizaram um protesto em frente à prefeitura de Tombos. Relatos indicam que a mãe da vítima afirmou ter recebido instruções para fechar a entrada do prédio durante o protesto.
Um vereador solicitou o afastamento temporário do prefeito enquanto os familiares exigiam sua cassação e prisão. Contudo, em votação realizada em 14 de fevereiro na Câmara Municipal apenas dois vereadores apoiaram seu afastamento por três meses; quatro votaram contra e dois se abstiveram.
Em 22 de novembro daquele ano o MPMG apresentou acusação formal contra Dalpério por homicídio culposo atribuindo-lhe imprudência e falta de atenção adequadas às condições locais. Em julho seguinte a denúncia foi aceita pela 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça mineiro sob relatoria do desembargador Rubens Gabriel Soares e mais quatro julgadores participaram desse julgamento tornando-o oficialmente réu. O relator rejeitou as argumentações da defesa sobre vaguidade nas acusações mencionando relatos policiais sobre como Dalpério ignorou ordens para parar seu veículo e acelerou ao invés disso. Até agora não há decisão final sobre o caso enquanto ele continua exercendo suas funções como prefeito enfrentando as acusações criminais.
A morte trágica de Bianca e sua fuga sem socorro são fatos graves que não podem ser esquecidos facilmente. É ainda mais surpreendente ver alguém nessa posição usar seu poder agora para ameaçar estudantes com cortes em serviços públicos.
Atividades bolsonaristas seguem intensas na região
As ações promovidas por bolsonaristas na área vão além das declarações feitas por Dalpério. Em Carangola (MG), surgiram listas circulando nas redes sociais divulgadas por vereadores que rapidamente apagaram suas postagens após expor negócios e indivíduos rotulados como “de esquerda” incitando campanhas boicotadoras.
Essa é mais uma forma preocupante de perseguição política observada em várias partes do país e demonstra como as táticas extremistas estão se infiltrando nas comunidades menores: sob pretextos ideológicos procuram transformar essa identificação em mecanismos punitivos econômicos contra pessoas ou empresas consideradas opositoras ao regime bolsonarista. Tal prática covarde visa intimidar trabalhadores e comerciantes locais promovendo um clima hostil repleto medo e cerceando qualquer tipo manifestação contrária ao governo atual.
A mensagem é clara: ninguém deve ousar se manifestar ou ser identificado como crítico ao bolsonarismo sem enfrentar possíveis represálias severas. Essa abordagem busca estabelecer um ambiente político baseado na intimidação onde aqueles com poder autoproclamado decidem quem pode viver livremente sem estar sujeito ao julgamento implacável dos seus algozes.Diante dessa situação cômica proporcionada pela liderança desse grupo preocupado mais em agradar figuras internacionais como Donald Trump do que resolver questões locais sérias , não devemos perder sight of the more serious backdrop accompanying such actions.
A ameaça relacionada aos cortes no transporte universitário junto às listas boicotadoras representam diferentes manifestações desta mesma inclinação persecutória; utilizam-se tanto poderes administrativos quanto pressões econômicas para ameaçar aqueles contrários ao bolsonarismo . É fundamental denunciar tais práticas , responsabilizar seus autores , garantindo assim que as intimidações perpetradas pelo bolsonarismo não avancem sobre os direitos básicos nem afetem negativamente a vida das comunidades regionais .
