
Um ano após a chocante chacina que ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o alegado “sucesso” da Operação “Contenção”, celebrado pelo então governador Cláudio Castro (PL), é contestado por novas evidências alarmantes de execuções extrajudiciais, encobrimento de provas e uma cultura de impunidade. A pesquisa divulgada em 28 de outubro pela Human Rights Watch (HRW) indica que quase 75% das vítimas não ligadas à polícia foram atingidas por tiros nas costas e documenta diversos casos em que câmeras corporais foram obstruídas. Enquanto familiares e moradores se reúnem novamente na Praça São Lucas para denunciar a matança, a ação que mobilizou 2.500 policiais e resultou em pelo menos 123 mortes não conseguiu desmantelar a presença do Comando Vermelho (CV) na área.
A tragédia aconteceu em 28 de outubro de 2025, quando forças das polícias Civil e Militar, apoiadas por veículos blindados, helicópteros e drones, invadiram os complexos para cumprir 100 mandados de prisão e 145 mandados de busca. Segundo a HRW, ao menos 123 pessoas perderam a vida nesse dia, incluindo quatro policiais e dois adolescentes. Esse total inclui ainda dois homens mortos pela polícia antes do início oficial da operação. Um quinto policial veio a falecer posteriormente em decorrência dos ferimentos. A maior parte das mortes ocorreu na mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, onde homens e adolescentes foram cercados durante a operação militarizada. Apesar da carnificina, Cláudio Castro se apressou em celebrar publicamente a ação como um “sucesso”, transformando o elevado número de mortos em uma demonstração de força da sua política de segurança.
O abismo entre a propaganda governamental e os resultados reais da operação é impressionante. De acordo com a investigação conduzida pela HRW ao longo do último ano, nenhuma das vítimas fatais estava entre os 51 alvos com mandados de prisão previstos no inquérito que deu suporte à operação. Além disso, mesmo com invasões em diversas residências, os policiais não realizaram abordagem na casa do principal líder local do CV, conforme relato feito por um delegado às autoridades. Seis meses após o massacre, pesquisadores ouviram moradores que afirmaram que a facção seguia mantendo controle sobre o território. A carnificina não trouxe mudanças significativas para a segurança dos habitantes locais que pudessem justificar, segundo o governo, o uso tão intenso de força militar contra eles.
Execuções e denúncias alarmantes
Os dados coletados pelos peritos médicos tornam ainda mais alarmantes as denúncias feitas pelos residentes da Penha desde os primeiros momentos após a operação. A HRW analisou 122 laudos de necropsia com o auxílio de especialistas independentes e constatou que quase três quartos das 117 vítimas civis examinadas apresentavam pelo menos um ferimento proveniente de projétil nas costas. Mais de 60% sofreram quatro ou mais disparos; 71% tinham lesões em pelo menos duas partes do corpo; e mais de 40% foram atingidos na cabeça. Esses padrões levantam sérias questões sobre a legalidade não apenas das mortes ocorridas mas também sobre toda a operação policial macabra.
Um exemplo documentado é o caso do pedreiro Ronaldo Julião da Silva, pai de seis filhos. Testemunhas relataram à família que ele teria levantado as mãos e se identificado como trabalhador antes de ser alvejado. Seu corpo exibia ferimentos nas costas, rosto, mão e axilas. Embora não tenha sido possível ouvir diretamente essa testemunha, a HRW registrou suas declarações juntamente com as evidências periciais encontradas no caso. Outro caso chocante é o do jovem Yago Ravel Rodrigues Rosário, encontrado decapitado na mata; peritos indicaram sinais de que sua mutilação ocorreu logo após ser baleado. Imagens mostram um policial segurando um facão, embora não tenha sido possível determinar quem foi responsável pela decapitação. Essas narrativas exigem uma investigação cuidadosa em vez das respostas vagas oferecidas pelas autoridades.
A pesquisa também sugere que algumas vítimas podem ter tentado se render durante a operação. Moradores relataram receber mensagens desesperadas de jovens encurralados na mata — alguns possivelmente armados — expressando desejo de não morrer. Após esses contatos iniciais, as comunicações cessaram abruptamente. Tauã Brito da Cruz, mãe de uma das vítimas, contou à HRW que um policial afirmou que ninguém havia sido preso porque seriam soltos pelo Judiciário e sugeriu que havia muitos corpos na mata. Quando as mães começaram a procurar seus filhos ao saírem as tropas da região, encontraram dezenas de cadáveres espalhados pelo local. Esses relatos reforçam suspeitas sobre execuções sumárias durante a operação contra indivíduos que já não ofereciam resistência.
Irregularidades nas câmeras corporais
As câmeras corporais dos policiais deveriam fornecer esclarecimentos sobre os eventos ocorridos durante a operação; no entanto, foi exatamente nesse ponto que surgiram algumas das irregularidades mais graves identificadas pela HRW. A organização revisou cerca de 4.400 horas de gravações disponibilizadas pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), oriundas de 532 câmeras utilizadas por 527 agentes. Surpreendentemente, apesar do elevado número de mortes registradas naquele dia, nenhuma delas foi capturada pelas imagens analisadas. O governo estadual justificou-se alegando “problemas técnicos”, enquanto investigações revelaram falhas sistemáticas nos equipamentos e indícios claros de manipulação intencional deles. Dados oficiais indicam que apenas aproximadamente 23% dos policiais mobilizados utilizavam câmeras corporais mesmo tendo disponível um total estimado em 15 mil dispositivos.
A análise revelou ainda 278 incidentes relacionados à obstrução das câmeras envolvendo 132 policiais diretamente envolvidos nas ações daquele dia. Em 146 desses casos foram encontradas suspeitas claras de manipulação deliberada — seja pela retirada dos dispositivos ou cobertura das lentes — enquanto outros 97 casos tiveram as câmeras deixadas dentro dos veículos sem utilização adequada; além disso houve outras remoções cuja intenção permanece indefinida. O resultado dessa situação foi uma lacuna significativa em registros audiovisuais das ações policiais no decorrer da operação — um padrão irregular que comprometeu justamente o mecanismo destinado à documentação correta das atividades dos agentes públicos.
O caso específico do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), responsável pela atuação na área onde ocorreram muitas mortes é particularmente preocupante: nenhuma gravação dos 49 policiais analisados registrou qualquer atividade após às 12h11 — justo quando se intensificou a violência na mata da Vacaria — mesmo tendo ocorrido operações até cerca das 20h daquele dia quando os familiares puderam começar as buscas pelos corpos perdidos. Comandantes admitiram aos promotores que não utilizaram baterias extras disponíveis embora houvesse pelo menos quatorze delas à disposição; entre os policiais envolvidos nas operações frontais aproximadamente 55% tiveram suas gravações interrompidas ou apresentaram lacunas significativas por volta do meio-dia; adicionalmente notou-se que cerca de 36% dos disparos audíveis nas gravações ocorreram precisamente enquanto as câmeras estavam obstruídas.
Ainda quando funcionavam corretamente as câmeras capturaram episódios violentos ilustrativos sobre o tratamento dispensado aos moradores locais: numa gravação um sargento agride um adolescente dormindo numa residência com um soco no rosto seguido por empurrões ao chão; embora o jovem parecesse desarmado naquele momento logo foram encontrados uma pistola e outros materiais relacionados ao tráfico no quarto onde ele estava alojado; outro registro mostra policiais demonstrando frustração com sua incapacidade em eliminar suspeitos devido à presença das câmeras — reclamando ainda sobre possíveis liberações judiciais dos detidos.
Destruição das provas e impunidade institucional
A destruição ou comprometimento das evidências não se restringiu às falhas nas câmaras corporais disponíveis aos agentes envolvidos naquela manhã fatídica: segundo informações fornecidas pela HRW equipes periciais nunca chegaram aos locais onde ocorreram os homicídios apesar dos pedidos formais para isso; corpos foram retirados sem os exames adequados realizados previamente sendo transportados empilhados como se fossem animais abatidos em veículos blindados; além disso peritos da Polícia Civil também não compareceram à Praça São Lucas onde moradores reuniram diversos cadáveres retirados da mata no dia seguinte ao massacre — práticas essas contrárias aos protocolos estabelecidos para preservação dessas cenas delituosas bem como para investigações relacionadas às mortes causadas por agentes estatais neste cenário caótico.
Um ano depois daquela tragédia sem precedentes fica claro que as respostas dadas pelas instituições encarregadas das investigações estão muito aquém do que seria esperado diante desse cenário horrendo: conforme balanço divulgado pelo Ministério Público do Estado do Rio Janeiro (MPRJ) apenas foram apresentadas até agora denúncias contra 28 policias por crimes menores como invasão domiciliar ou uso inadequado das câmeras corporais enquanto as mortes permanecem sob investigação sem qualquer denúncia específica dirigida aos responsáveis diretos pelos assassinatos cometidos naquele dia fatídico; aqueles comandantes envolvidos no planejamento desta carnificina continuam impunes diante dos fatos ocorridos naquela ocasião marcante para nossa sociedade civilizada — um contraste difícil demais ignorar considerando tratar-se da operação policial mais letal já registrada no Brasil superando até mesmo os trágicos números relacionados ao Massacre do Carandiru ocorrido em1992.
No mês seguinte ao massacre ocorreu outro episódio emblemático quando cinco integrantes do Batalhão Choque foram detidos pela Corregedoria acusados desviando fuzis e peças veiculares durante todo aquele período sangrento: imagens coletadas pelas próprias câmeras corporais mostraram conversas entre eles discutindo estratégias acerca desse desvio além disso entre os implicados estavam tanto sargentos quanto subtenentes demostrando claramente como integrantes internos dessa força são coniventes com ações criminosas relacionadas ao tráfico armamentista num contexto tão conturbado quanto esse vivido nessa região fluminense.
A resistência popular continua viva
No calor daquela chacina moradores tomaram às ruas enfrentando tiros enquanto gritavam palavras pedindo Justiça! E clamavam Sai pra rua morador! As tropas armadas responderam atacando-os com bombas lacrimogêneas avançando brutalmente contra essas multidões desarmadas porém decididas; registros próprios comprovam essa resistência valente assim como faixas erguidas pelos residentes denunciando os horrores impostos pelo estado atual vigente nesta região tão marcada por injustiças sociais acumuladas ao longo dos anos passados.
A essência dessas denúncias já era conhecida desde cedo após retirada militar: moradores haviam denunciado sinais claros relativos execução sumária tortura invasões domiciliares destruição patrimônio público privado etc.; durante grande ato realizado em31/10/2025 uma moradora declarou ter visto corpos retirados apresentarem marcas visíveis indicativas torturas infligidas enquanto outros relatos mencionavam residências fuziladas muros devastados comércio danificado além violência direcionada especialmente mulheres idosos demonstrando assim necessidade urgente responsabilização alguma diante tantas atrocidades cometidas impunemente pelas forças repressivas locais durante aquele breve mas sangrento espaço temporal vivido ali naquela comunidade marginalizada atualmente sob constante vigilância estatal excessiva .
No protesto realizado em2025 centenas familiares trabalhadores jovens estudantes mototaxistas entregadores uniram suas vozes Campo Ordem Penha marchando juntos clamando contra brutalidade policial crescente nessa região marcada tristeza decorrente tantas vidas perdidas prematuramente sem nenhum tipo responsabilização efetiva sobre quem deveria zelar segurança comum população local ; manifestantes apontaram dedo acusatório diretamente governo Cláudio Castro exigindo fim incursões letais perpetradas favelas cariocas sempre visando controle territorial sobretudo onde domínios rivais trafico drogas prevalecem.
Em28/10/2026 familiares habitantes movimentos populares voltaram Praça São Lucas realizando mobilização organizada Frente Penha prestigiando memória aquelas vítimas trágicas também promovendo manifestações contrárias terrorismo estatal instituído neste país nosso Brasil tão desigual atualmente ; este espaço carrega simbolismo imenso pois ali se reuniram últimos corpos encontrados próprios moradores após massacre ocorrido anteriormente – manifestação coincidiu mesmo dia quando HRW apresentou dossiê contendo novas evidências relacionadas chacina enfatizando necessidade urgente esclarecimento mortes responsabilização culpados reparação famílias afetadas esses crimes hediondos perpetrados autoridades responsáveis ordem pública . Para aqueles perderam seus filhos irmãos companheiros vizinhos tempo transcorrido desde então nada apagará dor ausência sentida diariamente cada instante vivido longe entes queridos levanta questionamentos profundos acerca indiferença societal geral frente tais situações dramáticas vivenciadas cotidianamente principalmente comunidades marginalizadas passam por processos sistemáticos opressivos deixam marcas profundas existência humana digna .
A chacina Penha tornou-se símbolo contraditório política segurança pública fundamentada operações bélicas favelas mostrando permanência domínio territorial facções mesmo depois tanta barbaridade expõe fracasso total dessa estratégia adotada visando supostas melhorias sociais desejáveis . Enquanto governador Cláudio Castro proclamava triunfo mortalidade associada ações realizadas ,investigação independente revelou avalanche provas contundentes relativas execuções sumárias comprometimento evidência falta responsabilidade direta consequências trágicas geradoras sofrimento imensurável todos aqueles afetados diretamente . Um ano passado desde acontecimento trágico ,moradores continuam exigindo garantias básicas direitos fundamentais acessíveis desde primeiro instante verdade justiça fim repetição massacres instrumentos controle social impostos governos autoritários atuais presentes sociedade brasileira contemporânea .
