
No dia 1º de maio, logo no início da temporada de chuvas, moradores da Comunidade do Detran, situada no bairro Iputinga, ocuparam um edifício habitacional pertencente à prefeitura do Recife, próximo à Ponte da Salvação. A ação foi uma tentativa de se proteger dos impactos das intensas chuvas que afetaram a região durante essa primeira semana do mês. Em relatos feitos ao AND, os residentes denunciaram que a Polícia Militar de Pernambuco chegou ao local disparando tiros para intimidar as famílias, após a prefeitura ter sido acionada para conter a ocupação.
Após negociações entre a comunidade e representantes da prefeitura, os moradores que deixaram o prédio foram encaminhados para a Escola Municipal Casarão do Barbalho, também conhecida como antiga Casa-Grande do Engenho Barbalho, onde deveriam ser abrigados. No entanto, mesmo tendo chegado ao abrigo na madrugada, os moradores relataram ter passado fome até cerca das 20h, quando finalmente receberam alimentação. Para suprir suas necessidades durante a crise, contaram com o apoio de doações feitas por pessoas da própria comunidade e de outras áreas, evidenciando o descaso da administração municipal em relação aos trabalhadores, idosos e crianças da localidade.
Na madrugada do dia 4 de maio, teve início o processo de remoção dos desalojados e desabrigados do abrigo. Os residentes criticaram a ação da prefeitura, afirmando que não houve uma avaliação adequada das condições das moradias devido ao risco estrutural gerado pelo solo saturado, conforme orientações da Defesa Civil do Recife. Além disso, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) havia emitido avisos sobre o risco moderado de alagamentos e deslizamentos na Região Metropolitana do Recife (RMR), enquanto a Agência Pernambucana de Água e Clima (APAC) alertou sobre chuvas variando entre moderadas e pontualmente fortes na RMR e nas Zonas da Mata Norte e Sul.
Para forçar a saída dos moradores, similar ao que ocorreu durante a COP 30 em 2025, a administração municipal ofereceu apenas cestas básicas, baldes com produtos de limpeza e colchões como compensação pela desocupação do abrigo. A justificativa apresentada foi garantir o uso social do espaço para o retorno às aulas. O Movimento Urbano dos Trabalhadores Sem-Teto (Must) intermediou com a prefeitura um acordo que previa o cadastramento das famílias para inclusão na lista de espera do programa Minha Casa Minha Vida. Estas famílias seriam priorizadas em um projeto habitacional planejado para uma área ocupada na Boa Vista pelo movimento.
<pAinda no dia 4 de maio, mais de 72 horas após as enchentes, agentes de diversas secretarias municipais e da Defesa Civil visitaram a comunidade para inspecionar as residências e cadastrar as famílias supostamente elegíveis para receber auxílio moradia, desde que desocupassem a escola. Durante as vistorias, muitos moradores expressaram seu descontentamento. Uma residente declarou ao correspondente local de AND: “Isso aqui é uma humilhação que eles fazem com a gente. A cada quatro anos isso acontece; eles vêm aqui, fazem cadastro mas não dá em nada. Na última enchente em 2022 pegaram meus dados pra eu receber um auxílio e até hoje nada”.
No final do dia, apenas treze casas foram vistoriadas pela prefeitura entre as mais de 150 existentes na área. Os moradores foram obrigados a retornar à zona de risco mesmo diante dos alertas sobre novas chuvas previstas para aquela semana. Enquanto os veículos oficiais deixavam a região garantindo sua segurança, as chuvas voltavam a atingir os habitantes ribeirinhos afetados pelos alagamentos.
Mais de 45 anos de promessas não cumpridas
Durante a ocupação do edifício habitacional, uma moradora destacou: “Há mais de 45 anos o governo e a prefeitura prometem entregar prédios para nós [Comunidade do Detran]. Quantas enchentes ainda teremos que enfrentar? Quantas perdas precisamos suportar até conseguirmos uma casa digna em local seguro? Quando chove é sempre essa preocupação.” Ouvindo isso, outros residentes manifestaram sua indignação: “A galera tá revoltada. A gente tá revoltado”.
Abrigos inadequados para os desalojados
Relatos indicam que diversos abrigos na RMR enfrentam problemas estruturais e estão em vias de fechamento. Um exemplo é o abrigo localizado na Escola EREM Monsenhor Arruda Câmara no bairro Peixinhos em Olinda, onde segundo informações divulgadas pela prefeitura há 183 famílias acolhidas totalizando 446 pessoas.
No dia 5 de maio, moradores de Peixinhos bloquearam a Avenida Presidente Kennedy em protesto pela falta de alimentos enviados pela prefeitura aos abrigos. Durante o ato pacífico, policiais militares reagiram com disparos contra os manifestantes e ameaçaram atingir uma criança presente na manifestação.
Dentre as denúncias feitas desde o dia 3 de maio está um vídeo gravado por famílias reclamando da infraestrutura precária no abrigo da Escola EREM Monsenhor Arruda Câmara: “[Aqui] tem criança. Nós adultos podemos suportar fome por algum tempo; mas as crianças não aguentam. Estamos precisando urgentemente de muitas coisas. Há dias em que só temos almoço às 15h ou às 16h! As crianças estão recebendo apenas meio copo de mucilon com um pouco de leite quando já é tarde demais.”
