
Salvino Oliveira, de 29 anos, natural da Cidade de Deus, fez história ao ser eleito vereador em 2024 pelo PSD, conquistando 27.062 votos. Atualmente, ele lidera a ala jovem do partido no estado e preside a Comissão Permanente de Educação na Câmara Municipal. Antes de sua graduação em Gestão Pública na Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalhou em diversas ocupações, como camelô, vendedor de água em semáforos, garçom e servente de obras. Sua trajetória na esfera pública teve início em projetos sociais e comunitários, culminando em 2021 com sua nomeação como secretário municipal da Juventude. Em sua gestão, implementou o Pacto pela Juventude em parceria com a Unesco, uma iniciativa voltada à capacitação de líderes nas favelas do Rio. Em 2025, foi reconhecido pela ONU como um dos cinco Jovens Ativistas Globais do ano e o único representante das Américas. Recentemente, em maio, a Justiça decidiu arquivar o inquérito que investigava sua suposta ligação com o Comando Vermelho, alegando falta de provas. Salvino chegou a ser preso em março deste ano durante uma operação policial, mas foi liberado dois dias depois por ordem judicial. À VEJA Rio, ele compartilha suas reflexões sobre preconceito, projetos legislativos atuais, os efeitos desse episódio recente em sua carreira e suas aspirações futuras.
Quando você decidiu se dedicar à política? A minha experiência no Colégio Pedro II ampliou meu horizonte e evidenciou ainda mais as desigualdades que vivenciava. Comecei a trabalhar cedo e aos 15 anos fundei um reforço escolar gratuito na comunidade que se transformou num pré-vestibular comunitário. Minha atuação no terceiro setor começou com projetos focados em educação, direitos humanos e comunicação. A grande virada ocorreu durante a pandemia; enquanto as pessoas mais necessitavam da assistência pública, percebi que a periferia estava completamente negligenciada. Já havia perdido amigos e minha avó devido à falta de atendimento médico e isso me fez compreender que precisava ocupar espaços de decisão. Em 2020, me tornei voluntário na campanha do Eduardo Paes para prefeito e após sua vitória assumi a nova Secretaria da Juventude.
Como foi para você assumir essa função tão jovem e vindo da periferia? Foi uma experiência repleta de emoções contraditórias: realização misturada com medo. A responsabilidade era imensa pois eu não representava apenas uma secretaria; eu era a voz de muitos que sempre sonhei ajudar desde jovem. Enfrentei preconceitos e resistências, mas isso também me motivou ainda mais. Nos quatro anos seguintes conseguimos impactar cerca de 300 mil jovens e reduzir significativamente o índice de desemprego nessa faixa etária no Rio. O que realmente permanece são as histórias emocionantes das vidas que pude acompanhar.
O preconceito persiste mesmo após seu reconhecimento? Com certeza. O fato de ser jovem já gera resistência por si só; ser jovem vindo da periferia e sem um sobrenome tradicional intensifica ainda mais essa barreira. O Brasil continua sendo um país marcado pela desigualdade e pela concentração do poder nas mesmas famílias por longas gerações. Contudo, mantenho uma visão positiva sobre o futuro — sou um “realista esperançoso”, conforme disse Ariano Suassuna — acreditando que essas questões serão apenas lembranças do passado.
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Quais são os principais desafios enfrentados pela educação no Rio atualmente? A rede municipal carioca é a maior da América Latina; portanto, os desafios são imensos. Um dos prioritários é garantir inclusão para crianças com deficiência e autismo. Há uma enorme carência de mediadores e agentes de apoio nas escolas. Também precisamos avançar na valorização dos profissionais da educação além de melhorar a infraestrutura das instituições escolares. Entretanto, o maior desafio reside na atualização do modelo educacional brasileiro; não podemos esperar resultados do século XXI utilizando um sistema concebido para o século XIX.
Que projetos legislativos você considera importantes neste momento? Um dos debates centrais envolve regulamentar as hospedagens temporárias como Airbnb e Booking devido aos seus impactos na convivência urbana e segurança pública. Cidades como Barcelona já tomaram medidas drásticas ao proibir esses aluguéis por completo. Também propus um projeto que proíbe anúncios relacionados a casas de apostas em bens públicos municipais. Na área educacional, destaco iniciativas para valorizar merendeiras e exigir acessibilidade com cadeiras de rodas nas escolas. Outro projeto relevante é o plano de arborização das favelas; considerando que a crise climática afeta desproporcionalmente áreas mais vulneráveis que sofrem com calor intenso e enchentes — arborização é também uma questão de justiça social.
Como tem sido lidar com diferentes opiniões sobre a regulamentação desses aluguéis temporários? Quando há debate social sobre um assunto significa que há interesse coletivo naquela questão específica. Ninguém pode afirmar ter todas as respostas corretas sobre política. Não sou contra plataformas como Airbnb ou Booking porque elas geram economia significativa; porém é essencial reconhecer os impactos dessas plataformas na dinâmica urbana — especialmente nos condomínios — assim como na segurança e no acesso à moradia digna. O objetivo é estabelecer regras claras sobre o uso dessas plataformas.
Como o recente episódio envolvendo investigação policial afetou sua vida pessoal e profissional? Essa foi uma fase extremamente traumatizante para mim e para minha família; são momentos que ficarão gravados na nossa memória para sempre. No entanto, sigo tranquilo quanto à minha trajetória porque acredito que a verdade está emergindo gradualmente. É claro que situações dessa natureza deixam marcas na percepção pública — especialmente num país cansado da política tradicional — mas também recebo muito apoio e carinho das pessoas ao meu redor, o que me fortalece para continuar lutando por uma mudança real na política.
Analisando sua trajetória até aqui, você mudaria algo? Quais são suas metas futuras? Não mudaria nada; tenho orgulho da jornada coletiva que construímos juntos ao longo do tempo; nunca foi sobre ocupar cargos apenas por ocupar mas sim tentar ajudar o máximo possível as pessoas ao nosso redor. Meu sonho ainda é me tornar prefeito do Rio e desejo continuar buscando espaços onde possa expandir minha capacidade de servir aos cidadãos.
